Jordi e o legado da família Cruyff no futebol

Batizado com o nome do padroeiro da Catalunha, Jordi Cruyff nasceu meses antes do incomparável fenômeno do Futebol Total na Copa de 1974. Herdeiro do maior jogador holandês da história, o meia teve um ótimo exemplo em casa, mas não contou com a sorte durante a sua longa carreira como futebolista.

Toda vez que o sobrenome Cruyff fica em evidência, fãs ao redor do mundo se agitam para lembrar de um dos jogadores mais marcantes que o futebol já viu. Especialmente em Barcelona, a afeição ao astro que ficou famoso com a camisa 14 é praticamente um culto às táticas e à magia presentes na vida desportiva de Johan Cruyff.

Quando já estava plenamente consolidado como treinador do Barça, clube o qual alçou ao inédito posto de vencedor da Copa dos Campeões Europeus, Johan lançou o seu filho Jordi ao futebol sabendo que, no mínimo, o garoto seria um atleta de nível internacional.

Nome de craque, sobrenome de craque, de vez em quando até número de craque na camisa. Em treze anos como profissional, Jordi alcançou a seleção holandesa, mas não causou o impacto esperado. Primeiro por ter iniciado sua carreira em um momento de muita pressão em cima do pai, treinador e responsável pela sua estreia. Depois, por ter se lesionado repetidamente e com gravidade. Os joelhos de Jordi não suportaram o ritmo intenso do esporte, que exigia cada vez mais um alto desempenho físico.

Nos tempos de Johan, um homem poderia conciliar o fumo e a bebida com as rotinas do esporte. Menos de dez anos depois da aposentadoria do pai, Jordi encontrou desafios diferentes. E obviamente não tinha o mesmo talento e a capacidade de revolucionar. Quão bons eram os genes de Johan?

O início no Camp Nou

O seu mentor e inspirador havia dado tudo pelo futebol, desde menino, enfiado pelos cantos do estádio do Ajax ao lado da mãe, faxineira do local. Jordi, com a forte influência em casa por parte da família, também pegou gosto pela bola. E trilhou um longo caminho pela base do Barcelona, até estrear em 1994, dois anos depois da conquista europeia da equipe principal. Aos poucos, o filho do Messias de Amsterdã ganhou ritmo e confiança entre os profissionais. A característica de liderança já era evidente nele enquanto juvenil. Restava saber como se comportaria entre os mais velhos.

O amadurecimento de Jordi foi um pouco mais caótico do que para a maioria dos jovens jogadores. A pressão por ser minimamente competente e honrar os feitos do pai veio muito cedo. Mas em poucos jogos, o menino mostrou que tinha jeito para a coisa. Lançado em um Camp Nou lotado para contracenar com o decadente Dream Team de Stoichkov, Koeman e Romário, Jordi saiu por cima. A luta pela titularidade, no entanto, era um sonho distante para Jordi, que teria de convencer a todos que não estava ali apenas por ser filho de um ídolo. Em duas temporadas completas, anotou onze gols com a camisa blaugrana.

Infelizmente para os membros do clã Cruyff, o Barça amargou dois anos de jejum depois da glória e de repetidos títulos espanhóis. O herdeiro, que precisava de um pouco de calma e paciência antes de finalmente estourar, foi prejudicado pela batalha nos bastidores. E por negligência médica no departamento especializado do clube catalão.

Cruyff pai, no alto de sua influência e papel como artífice dos grandes anos da equipe blaugrana, perdeu lentamente a queda de braço com a diretoria. Em 1996, depois de meses insustentáveis e discussões ríspidas, o técnico foi demitido. E o jogador, que se recuperava de uma cirurgia fracassada no joelho, não teve seu contrato renovado.

A Eurocopa promissora e o convite de Ferguson

Nem tudo era lamento. O retorno aos campos no fim da temporada 1995-96 rendeu uma convocação por Louis Van Gaal. Jordi estava entre os atletas que defenderam a Holanda na Euro 1996. As quatro partidas e o gol marcado contra a Suíça serviram para convencer outro mestre da prancheta: Alex Ferguson.

A Laranja de Van Gaal, mesmo com um elenco promissor, não passou das quartas de final e caiu diante da França, nos pênaltis. Foi o fim de sua breve passagem pela seleção. Enquanto Johan se aposentava do papel de técnico, o filho fazia as malas para a Inglaterra, aceitando o convite de Fergie para atuar em Old Trafford. Das poucas coisas que herdou como jogador, Jordi tinha excelente visão em campo. E abusava dos cruzamentos e passes ousados.

O doce sabor da mudança havia ter contagiado Jordi, que deu bons motivos para orgulhar a família com a camisa 11. Ferguson, o principal responsável pela ida do holandês ao United, também gostava do que via. Ao fim do ano de 1996, o meia sofreu outro baque: o mesmo joelho operado na Espanha deu sinais de desgaste. A promissora trajetória de Jordi estava seriamente ameaçada.

De volta à Espanha

Foram dois anos indo e vindo do departamento médico. Ele pouco aparecia em campo, fazia gols de vez em quando, mas não era imprescindível, tampouco memorável. Logo, a passagem pelo United ganhou contornos de fiasco.

O aspecto físico não ajudava, e Jordi foi enviado ao Celta de Vigo para tentar recuperar sua carreira, já fadada ao esquecimento. Nove jogos e um gol depois, lá estava ele de volta a Manchester. Sem conseguir marcar presença ou brigar por uma vaga, Cruyff se sagrou campeão europeu em 1999 como reserva ocasional e em 2000 foi vendido ao Alavés.

A primeira temporada no Alavés representou o grande sonho de vencer a Copa Uefa. Mas em uma final eletrizante, o Liverpool levou a melhor e frustrou os espanhóis. Jordi, um dos destaques em campo, salvou o time basco no tempo normal com o empate em 4 a 4 em cima da hora, mas não pôde impedir a derrota na prorrogação. Curiosamente, a arrancada do Alavés terminou mal na temporada seguinte, com o rebaixamento no Campeonato Espanhol.

Uma passagem discreta pelo Espanyol decretou o fim da atormentada jornada do holandês, que nunca conseguiu repetir o desempenho de sua fase no Barcelona e sequer foi capaz de evitar as lesões crônicas. Outros momentos obscuros do meia no futebol aconteceram no Metalurh Donetsk -quando atuou na defesa- e no Valletta, de Malta. Muito pouco para quem traçava um caminho consistente no Barcelona pós-Dream Team.

Eternamente ofuscado pela figura do pai, um gênio do nosso tempo, Jordi virou um ícone cult enquanto fazia o papel do jogador incompreendido. De certo, o segundo Cruyff teve alguns momentos de brilho, mas quem sabe o que ele poderia ter sido feito com joelhos saudáveis? Por outro lado, qualquer coisa abaixo do genial ainda seria aquém da lenda de Johan, o fumante cheio dos truques que encantou Amsterdã, Barcelona e o resto do planeta.

Referências: The Guardian, OGol, These Football Times, Youtube

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