Vices que amamos: Messias e o Santos de 1995

Mostrando força na reta final do Brasileirão de 1995, o Santos conseguiu uma de suas maiores viradas para eliminar o Fluminense nas semifinais. Entretanto, quando encarou o Botafogo de Túlio, lances polêmicos deram o tom da decisão no Pacaembu.

O Santos ainda se reerguia de uma sequência de anos medíocres e uma grave crise financeira. Campeão pela última vez no Paulista de 1984, o time da Vila Belmiro sofreu na virada para a década de 1990 e demorou a montar um elenco realmente competitivo. A resposta ao marasmo veio em 1995, com uma nova geração de atletas motivados pela fase estrondosa do meia Giovanni.

Messias, como era apelidado pela sua torcida, trouxe alguma esperança naquele momento delicado. O paraense desembarcou na Vila Belmiro em 1994 e menos de um ano depois, vestia a camisa 10 com louvor, liderando tecnicamente um time que antes era carente de um craque fina estirpe como ele. É simplesmente impossível contar a história do Brasileirão de 1995 sem ter Giovanni como ponto focal.

Além do meia, o Santos despontava com outros jogadores importantes para a campanha: Edinho, Narciso, Marcos Adriano, Vagner, Marcelo Passos, Robert, Gallo, Jamelli, Camanducaia, Pintado e Macedo. Não era o plantel dos sonhos para a torcida, mas o empenho e a superação foram suficientes para convencer o público de que era possível brigar por um lugar no topo.

Na primeira fase do Brasileiro, o Santos conseguiu o terceiro lugar do Grupo B, com 19 pontos em 11 partidas. As coisas começaram a melhorar no segundo turno, quando o elenco treinado por Cabralzinho ficou com a liderança e a vaga para as semifinais. A guinada aconteceu com 75% de aproveitamento e 27 pontos, campanha similar ao líder do outro grupo, o Botafogo.

O Peixe só perdeu uma partida no segundo turno, para o Vitória, no Barradão. O placar de 4 a 0 não assustou os jogadores santistas, que reagiram muito bem e surraram o Flamengo e o Corinthians em rodadas seguintes. Além de vencer o clássico com o Timão, o Santos também derrotou o Palmeiras no Pacaembu, por 1 a 0, gol de Vágner. Com muita moral, o grupo se fechou em torno do objetivo de alcançar o mata-mata. Mais quatro jogos separavam a equipe da Vila da glória máxima na competição.

Renascido das cinzas

O Santos tinha o Fluminense pela frente na semifinal. Do outro lado do chaveamento, Botafogo e Cruzeiro duelavam por uma vaga na decisão. Os primeiros 90 minutos do embate entre santistas e tricolores, no entanto, foi um belo balde de água fria nas ambições de Cabralzinho.

No Maracanã, o Flu, campeão carioca daquele ano, deu um show e impôs um duro placar de 4 a 1 aos visitantes. Giovanni abriu o placar para os alvinegros, mas os donos da casa tomaram conta do duelo e foram buscar a vitória. Renato Gaúcho empatou, Ronald virou, de pênalti, Leonardo ampliou e Cadu fechou a conta. Dois gols saíram depois dos 45 minutos do segundo tempo, desastre total para o Santos, que estava com nove em campo após as expulsões de Robert e Jamelli. Só um milagre salvaria o ano.

Falou em milagre, falou em Giovanni. No Pacaembu, Camanducaia caiu na área e abriu o caminho para a reviravolta. Giovanni fez e deu sobrevida aos colegas. Incendiado pela situação, o Peixe amassou o Flu até conseguir o resultado desejado. Novamente Giovanni em ação: após tabela com Carlinhos, o camisa 10 tocou de bico por cima de Wellerson para fazer o segundo. O tempo passou e a torcida continuou empurrando. Na etapa complementar, Macedo anotou o terceiro e aproximou o time da classificação. O placar servia, já que o agregado estava empatado e o Santos tinha a vantagem da melhor campanha. Mas foi aí que o Tricolor resolveu aprontar.

Rogerinho colocou o Flu de volta ao jogo. A insanidade continuou com mais um gol santista de Camanducaia. O placar da ida estava igualado, Peixe na final. Marcelo Passos marcou o quinto e tranquilizou a massa no Pacaembu. Era só segurar o resultado. Eis que Rogerinho anota o segundo tento do Fluminense, para dar um pouco mais de emoção. Mas foi só. Com o incrível 5 a 2, Giovanni e seus companheiros estavam garantidos na finalíssima.

À frente do marcador

Naquela que foi a final mais discutível em toda a história do Brasileirão, o Botafogo começou jogando em casa, em 13 de dezembro de 1995, no Maracanã. O Fogão estava indo muito bem a caminho do título que escapou em 1992 na final contra o Flamengo. Aquele timaço de Paulo Autuori, que consagrou Túlio como artilheiro, vinha forte para o choque contra o rival paulista.

A primeira bola na rede foi de Gottardo, no primeiro tempo, de cabeça. Irresistível, o Bota fez valer o peso de sua torcida no Maracanã. Giovanni, sempre ele, empatou para o Santos em uma jogada de cara para o goleiro Wagner. Com tranquilidade, o Messias finalizou com um totó, sem dar chances ao arqueiro carioca.

A diferença na ida se fez por um detalhe que tinha nome, apelido e marra: Túlio Maravilha. O artilheiro da edição 1995 apareceu para completar um passe vindo do outro lado da área. Completamente sozinho, o atacante só teve o trabalho de empurrar para o gol. Botafogo 2 a 1 no Santos, vantagem do empate para o jogo de volta, no Pacaembu.

Espiritualmente pronto para tentar mais uma remontada, o elenco de Cabralzinho voltou ao campo no dia 17 de dezembro para a consagração. Mas só a vitória interessava. Depois de muita pressão, o Botafogo golpeou primeiro: Túlio, em posição de impedimento, abriu os trabalhos. Giovanni, de maneira inacreditável, perdeu o gol que empataria o duelo, sozinho ao lado da trave. E não se abalou, continuando a articular as jogadas no meio-campo.

Mais erros. Logo na volta do intervalo, Marcelo Passos empatou a final e inflamou a torcida presente. Antes da bomba que morreu no alto da meta adversária, o lateral Capixaba deu um carrinho e carregou a bola com a mão para vencer a dividida com Sérgio Manoel. A arbitragem não viu a irregularidade.

O Santos, que precisava da virada, fazia a sua parte e bombardeava a meta de Wagner. O goleiro estava inspirado. Em um lance de falta cobrada na área botafoguense, Marcelo Passos tocou de cabeça para marcar outro gol. Mas a jogada foi anulada por impedimento. Entretanto, Passos estava meio metro atrás do último homem adversário. Márcio Rezende de Freitas, que se posicionava bem perto dos dois, não viu que o santista estava em condição legal.

Wagner fez mais algumas defesas incríveis para garantir a igualdade no marcador. E o Botafogo conquistava o troféu da temporada, graças a Túlio. Frustrado, o Peixe reclamou das marcações. Por outro lado, pouca gente se lembra que, no primeiro jogo, o Bota também foi prejudicado pelo árbitro Sidrack Marinho, que deixou de aplicar a lei da vantagem em uma falta marcada em Sérgio Manoel. Túlio, que recebeu livre o passe, faria o gol.

Polêmicas à parte, os dois times tiveram do que se queixar. Pelo futebol apresentado, talvez o Santos merecesse mais o campeonato, mas nem sempre o esporte premia quem é melhor. O desvio do destino deixou uma enorme cicatriz na identidade santista, algo que só foi devidamente enterrado na década seguinte, contra o Corinthians, no compasso das oito pedaladas de Robinho em cima de Rogério.

Referências: Futpédia, RSSSF Brasil, Placar, Imortais do Futebol, GloboEsporte

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