Vices que amamos: A Itália mutante de 1994

Depois do terceiro lugar no Mundial de 1990 como anfitriã, a Itália continuou forte e brigou pela taça na edição de 1994, nos Estados Unidos. O timaço de Arrigo Sacchi sofreu com o forte calor norte-americano e fez um jogo histórico antes de sucumbir novamente diante do Brasil em uma final.

Protagonista máximo da Itália na Copa de 1994, Roberto Baggio se transformou em uma espécie de amuleto para os brasileiros em virtude do pênalti perdido na decisão contra o Brasil. O chute que voou por cima da meta de Taffarel é tão marcante quanto as palavras de Galvão Bueno na transmissão: “Partiu, bateu… ACABOOOOU, ACABOOOOOU, ACABOOOOOU, É TETRAAAA!”

Justiça seja feita, a Itália foi bem mais do que um lance infeliz de seu grande jogador no torneio. Antes do lance capital no Rose Bowl em Pasadena, a equipe de Arrigo Sacchi foi uma das mais sólidas (a partir da segunda fase) do em solo americano. No entanto, o sofrimento na fase de grupos quase eliminou os italianos, que ficaram atrás de México e Irlanda. Todos os times da chave, incluindo a lanterna Noruega, somaram quatro pontos ao final da terceira rodada, o que demonstrou o equilíbrio na disputa. Um gol marcado a mais pelos italianos fez toda a diferença. A Itália avançou com uma vitória, um empate e uma derrota e dois gols marcados, mesmos números da Irlanda, sua algoz na estreia.

Contratempos

Foi a única vez na história dos Mundiais em que um grupo inteiro fez a mesma pontuação. Como o formato da Copa em 1994, com 24 seleções, ainda favorecia os quatro melhores terceiros colocados, a Squadra Azzurra sobreviveu. Da edição de 1998 em diante, só os dois melhores de cada chave se classificam.

A geração que ficou com o terceiro lugar em 1990 ainda tinha remanescentes como o próprio Baggio, Pagliuca (reserva de Zenga), Maldini, Donadoni, Baresi e Berti. Os estreantes em Copas como Dino Baggio, Benarrivo, Mussi, Albertini, Casiraghi, Tassotti, Signori e Zola, não fizeram feio. Massaro, um dos destaques na competição, havia disputado o Mundial de 1982 como reserva.

Depois da agoniante classificação, graças a uma vitória magra por 1 a 0 contra a Noruega (gol de Dino Baggio), a Itália enfrentou a Nigéria pelas oitavas de final. Desfalcada do capitão Baresi, que se lesionou na partida frente os noruegueses, a seleção de Sacchi apareceu com Apolloni no miolo de zaga. Ao longo do torneio, o treinador mudou várias vezes a escalação titular, em virtude de suspensões e contusões.

A linha defensiva da primeira fase era composta por Maldini, Benarrivo, Costacurta e Apolloni. Mussi, na lateral-direita, jogou contra a Nigéria e depois perdeu o lugar para Tassotti, que estreou na segunda fase, mas teve vida curta: entrou em campo apenas contra a Espanha, nas quartas, e foi suspenso por dar uma cotovelada em Luís Enrique. Mussi retornou para as duas últimas partidas.

Reis do 2 a 1

Foi suado o caminho até a final. Contra a Nigéria, o placar de 2 a 1 só foi consolidado na prorrogação. De virada, com dois gols de Baggio, os italianos demonstraram certa evolução ofensiva. O próprio Baggio vinha se superando, mesmo sem estar 100% fisicamente. Nas quartas, um clássico europeu ferveu o clima em Foxborough.

O duelo contra a Espanha previa o choque de duas equipes promissoras naquele Mundial. Sacchi preferiu entrar com Tassotti para dar um ar mais experiente ao time. Mas nem o comandante poderia prever um ato isolado de violência do milanista. No início da segunda etapa, o italiano vinha acompanhando Luis Enrique dentro da área e soltou o braço na cara do meia rival, fora do lance. O espanhol protestou com veemência pelo ocorrido, mas foi ignorado. Sangrando, Lucho pedia uma punição a Tassotti, que escapou ileso, ao menos nos 90 minutos. A Fifa, no dia seguinte, deu oito jogos de gancho a Tassotti depois de rever a fita.

Com bola rolando, foi um jogaço. Dino Baggio abriu os trabalhos com um chutaço de fora da área. Caminero empatou e o embate ganhou contornos dramáticos. Restando dois minutos para a prorrogação, o outro Baggio brilhou e decidiu: com espaço, o atacante recebeu, entrou na área, driblou Zubizarreta e mandou para as redes. Itália nas semifinais, com outro 2 a 1 a favor.

A Bulgária pintou como adversária no penúltimo degrau antes do tetra. O time do artilheiro Stoichkov também contava com a inspiração de Balakov, Kostadinov e Letchkov. A sensação búlgara, no entanto, não teve gás para superar a forte equipe italiana. Baggio, sempre ele, abriu dois gols de vantagem no intervalo de cinco minutos. Atordoada com o bombardeio ao gol de Mihajlov, a seleção alviverde não conseguiu conter o ímpeto italiano. Foi a melhor atuação de Baggio e seus companheiros na competição. Stoichkov ainda diminuiu aos 44, de pênalti, mas era tudo o que a Bulgária poderia fazer em campo. Mais um 2 a 1 para a conta.

Bola na arquibancada

O Brasil, como sempre, chegava confiante para a decisão. Sem grandes desfalques e empurrado por Romário e Bebeto, o esquadrão de Carlos Alberto Parreira foi eficiente e não mudou tanto de cara ao longo do Mundial. Apenas as trocas de Raí por Mazinho e de Leonardo (suspenso) por Branco impactaram os atletas titulares. Branco, aliás, resolveu o confronto com a Holanda, nas quartas. Em revanche nas semifinais com a Suécia, adversária na primeira fase, Romário fez de cabeça o gol que garantiu o Brasil na decisão.

Era difícil apontar um grande favorito. A Itália cresceu no mata-mata e tinha Baresi de volta para o último jogo. O capitão, no entanto, deixou a desejar em sua forma física: o joelho dificultou a missão do líbero em marcar Romário. Em Pasadena, no dia 17 de julho de 1994, o mundo parou para conhecer o primeiro tetracampeão do torneio.

Foram 120 minutos de pura tensão, com boas chances criadas por ambos os lados. Pagliuca, que vivia grande fase, ainda contou com a sorte em lances mano-a-mano com Romário. Em um deles, o arqueiro ia levando um frangaço, mas foi salvo pela trave. Nem a prorrogação foi capaz de revelar o vencedor. Pesou também o clima infernal da Califórnia: os dois times estavam completamente vencidos pelo calor e o acúmulo de jogos no verão americano.

O drama só se encerrou com as temidas penalidades. Com os erros iniciais de Márcio Santos e Baresi, a final ficou ainda mais imprevisível. Romário, Branco e Dunga não vacilaram e colocaram o Brasil de volta aos trilhos. Albertini e Evani também converteram pela Itália. Entretanto, quando chegou a vez de Massaro, Taffarel fez o milagre e quebrou toda a confiança dos rivais.

Baggio, o craque do time e última esperança de sua nação, absorveu toda a negatividade possível e partiu para a bola. Quando o chute saiu dos pés do camisa 10, já se sabia o desfecho. Bola na arquibancada, Taffarel triunfante, Brasil tetracampeão. O fantasma persegue Roberto até hoje. Na Copa seguinte, em 1998, ele não vacilou quando precisou cobrar um pênalti nas quartas de final diante da França. Mas era tarde demais para se redimir do pesadelo na Califórnia.

Referências: Wikipédia, Gazzetta Dello Sport, New York Times, OGol, Futpédia

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