Vices que amamos: O meteórico São Caetano de 2002

Queridinho do Brasil no início dos anos 2000, o São Caetano peitou a América em uma campanha memorável como finalista da Libertadores, em 2002. Mas os vacilos na decisão impediram que o Azulão entrasse para o seleto grupo dos campeões continentais.

Quem poderia imaginar que um modesto e jovem time do ABC Paulista conseguiria uma vaga na elite brasileira e iniciasse uma arrancada comparável aos grandes feitos da história do futebol? Por três anos, o São Caetano foi a esperança de que um pequeno desafiasse a supremacia do Clube dos 13.

O período dourado do Azulão, fundado em 1989, começa em 2000, com o vice-campeonato do Módulo Amarelo da inchada Copa João Havelange. A classificação permitiu que o clube fosse até a decisão nacional contra o Vasco de Romário. Mas o Cruzmaltino afastou a zebra e ficou com o caneco, no Maracanã. O primeiro vice-campeonato azulino abriu um novo caminho para o São Caetano, que estreou na Libertadores em 2001. O Palmeiras foi o algoz nas oitavas de final, mas o valente elenco de Jair Picerni não se rendeu.

Mais uma vez, a agremiação do ABC lutou pelo título do Brasileiro, caindo para o Atlético Paranaense, em 2001. A consistência foi recompensada com a segunda participação na Libertadores, em 2002. Determinado a fazer história, o Azulão voou para valer. Já não era mais um momento de ceticismo em relação ao do progresso do clube: a insistência em ficar entre os principais concorrentes do Brasil deu moral aos novatos, que se infiltraram no pelotão dos grandes.

Representado em campo por nomes como Sílvio Luiz, Rubens Cardoso, Daniel, Serginho, Dininho, Marcos Senna, Anaílson, Adãozinho, Somália e o experiente Robert, o time de Picerni deu show e liderou a fase de grupos sul-americana (12 pontos), à frente de Cobreloa, Cerro Porteño e Alianza Lima, avançando para as oitavas de final com a quarta melhor campanha geral.

A hora da verdade

O São Caetano havia aprendido com as derrotas nas finais nacionais de 2000 e 2001. O avanço no campo da Libertadores foi no sufoco, rodada a rodada. Nas oitavas, os brasileiros tiraram o Universidad Católica nos pênaltis após dois empates por 1 a 1. Pela fase seguinte, a vítima foi o Peñarol, também com direito a sofrimento nas penalidades. O esquadrão de Picerni perdeu em Montevidéu por 1 a 0 e foi buscar a virada por 2 a 1 em São Caetano do Sul, com gols de Jean Carlos e Somália. O sonho ganhava forma.

Em casa, no Anacleto Campanella, o time mandante fez sua vantagem diante do América do México nas semifinais. Com os dois gols, marcados por Somália e Adãozinho, a missão ficou encaminhada. Bastava segurar o ímpeto americano no Azteca. O empate em 1 a 1, com gol de Aílton aos oito minutos, aproximou os brasileiros da decisão inédita. O América pressionou, mas não foi capaz de reverter a enorme desvantagem imposta.

Do outro lado da chave, o Grêmio foi eliminado pelo Olimpia e os paraguaios chegaram com força para buscar o tricampeonato no torneio. Dono de um futebol eficiente e aguerrido, o São Caetano acreditava que podia barrar o adversário e completar a incrível façanha jogando em São Paulo. O campo escolhido foi o Pacaembu, na volta.

Inesperado

Em Assunção, o Olimpia de Enciso, Benítez e Orteman pressionou demais e fez valer o calor de sua torcida no Defensores del Chaco. Durante um primeiro tempo intenso, foi o Decano que criou as melhores chances para vencer a partida. Contudo, o único gol da noite de 24 de julho de 2002 foi marcado pelos honrosos visitantes. Aílton, de cabeça, abriu o placar e fez sangrar a defensiva alvinegra. Tudo conspirava a favor do São Caetano, que jogava como gente grande e se segurava na defesa para não ser vazado.

Sete dias depois, em 31 de julho, a decisão foi para o Pacaembu. Precisando apenas de um empate para ser campeão e chocar a América, o São Caetano fez a lição de casa, ao menos no primeiro tempo. Aílton, aos 31, incendiou a torcida e comemorou o que poderia ser o gol do título. Já dava para sentir o gostinho do triunfo, restando pouco mais de 60 minutos de bola rolando. Esse foi o problema: ainda havia muita água para rolar.

Administrando o marcador, o Azulão voltou disperso para a segunda etapa. Não demorou para que Córdoba empatasse com um chute cruzado, aos três minutos. Sentindo o peso da situação, os mandantes sofreram a virada dez minutos depois, em falha clamorosa da zaga. Báez tocou de cabeça por cobertura e venceu Sílvio Luiz. O Olimpia conseguiu levar a final para os pênaltis, abalando a confiança do rival.

Em três das quatro fases de mata-mata na Libertadores, o São Caetano precisou resolver sua vida na marca da cal. E dessa vez, a sorte não estava ao lado da carismática geração vice-campeã de Picerni. Marlon e Serginho erraram as cobranças e o Olimpia se sagrou tricampeão sul-americano, colocando um ponto final na trajetória fantástica do Azulão.

Aquela safra de jogadores, levemente renovada nos anos seguintes e sob o comando de Muricy Ramalho, finalmente levantou uma taça, no estadual de 2004, contra o Paulista de Jundiaí. Mas o passo mais memorável da agremiação azulina foi mesmo o desafio ao Olimpia no Pacaembu, quando o delírio do pequeno contagiou todo um país e ficou a um gol da eternidade.

Referências: Veja, Imortais do Futebol, Wikipédia, Diário do Grande ABC, GloboEsporte

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *