Vices que amamos: A Argentina quase tricampeã do mundo

Favorita na Copa de 1990, a Argentina tentava defender seu título mundial com Maradona em ótima fase. Mas o capitão, lesionado, não conseguiu inspirar o time como na edição de 1986. Na final, os argentinos foram castigados pela Alemanha.

Diego Maradona tinha o mundo a seus pés. Maior jogador do mundo no fim dos anos 1980 e início da década de 1990, o craque fez história com a camisa do Napoli e ganhou apoio maciço da torcida quando liderou sua seleção na Copa do Mundo da Itália. Até a semifinal, obviamente.

A missão argentina parecia menos improvável do que a que culminou em título no México, quatro anos antes. Sem rachas internos e com um time mais rejuvenecido, Carlos Bilardo não podia mais ser apontado como o comandante de um mero azarão. Ainda assim, havia um ceticismo a respeito do nível apresentado pela Albiceleste. E as lesões às vésperas do Mundial atrapalharam ainda mais os planos do treinador.

As mudanças nos quatro anos do ciclo mundialista colocavam a Argentina como uma grande atração para a Copa, ao lado da Holanda (que vinha da conquista inédita na Euro em 1988), da Alemanha e da anfitriã Itália, que reuniu muitos talentos incontestáveis no mesmo time. Maradona, ainda mais confiante pela forma apresentada naquele período, era o mais visado. Caniggia, Balbo, Batista, Burruchaga, Troglio, Sensini, Ruggeri, Basualdo e Dezotti eram os coadjuvantes que despontavam como esperanças de uma geração em transição.

O susto inicial

Ainda que a Copa de 1990 tenha sido marcada como uma das mais tediosas da história, sobretudo em virtude de sua final maçante, a história escrita no torneio pelos argentinos poderia ter sido de superação. Por outro lado, não era exatamente esse o script que estava reservado para a ocasião. Logo de cara, a Albiceleste foi surpreendida por uma zebra icônica.

O que se sabia sobre Camarões era que o veterano Roger Milla iria comandar o ataque, nada mais. Além dele, outras peças do time de Valeri Nepomniachi eram coadjuvantes em clubes franceses de menor expressão, como Kundé, Makanaky e Omam-Biyik. A exceção entre os destaques era o goleiro N’Kono, que atuava desde 1982 no Espanyol.

Em campo, a Argentina dominou as ações, mas sofreu com a violência dos africanos e com os contragolpes em velocidade. Pior do que isso: foi derrotada com um gol de Omam-Biyik, aos 67, em falha clamorosa de Pumpido. Caniggia, alvo favorito dos camaroneses, protagonizou um lance de arrancada na direita do campo ofensivo e levou pelo menos três botinadas até ser efetivamente atropelado por Massing, que foi expulso. Com nove em campo (Kana-Biyik levou um vermelho logo após o gol), os Leões Indomáveis comemoravam o resultado histórico.

Em busca de recuperação, a Argentina deu sinais de inconsistência. Na segunda rodada, contra a União Soviética, outro duro golpe: Pumpido quebrou a perna e deu lugar a Goycochea, que rapidamente conquistou o status de talismã do time, pegando pênaltis importantes ao longo do campeonato. A vitória por 2 a 0 sobre os soviéticos, com gols de Troglio e Burruchaga, marcou a boa recuperação dos comandados de Bilardo.

A vaga para a segunda fase foi definida no sufoco contra a Romênia, na última rodada, em empate por 1 a 1, com gol de Monzón. Rodando bastante o elenco, Bilardo foi criticado pela forma oscilante de jogo apresentada pelos seus atletas. Curiosamente, a Argentina avançava aos pedaços como terceira do grupo, atrás de Camarões e Romênia.

O clássico que mudou tudo

Longe de sua forma física ideal, Maradona se doou para ajudar sua equipe no caminho até o terceiro título. Com toque de bola refinado e visão de jogo acima de qualquer outro craque, o capitão se preparou para colocar a Argentina nos trilhos. E o adversário nas oitavas de final foi logo o Brasil, em um clássico sul-americano de tirar o fôlego.

É verdade que o Brasil foi melhor, criou mais chances e esteve bem mais perto da vitória. Mas a equipe de Sebastião Lazaroni não tinha um gênio como Diego em seu meio-campo. Em uma jogada absurda, o camisa 10 deixou três marcadores na saudade antes de fazer um passe precioso para Caniggia, em ótima condição. O cabeludo recebeu na área, tirou Taffarel e eliminou o Brasil em uma só espetada.

A Copa se afunilou para a Argentina. Nas quartas, Maradona e seus colegas tiveram pela frente a Iugoslávia, que vendeu caríssimo a vaga nas semifinais. Um zero a zero modorrento no tempo normal provocou uma disputa de pênaltis. Vencendo por 3 a 2, com duas defesas de Goycochea, a equipe de Bilardo sobreviveu sem apresentar melhora no desempenho. Faltavam mais dois jogos para o tri.

A Itália ameaçava seriamente o progresso argentino. Dona da casa, confiante e com Roberto Baggio inspirado, a Squadra Azzurra ofereceu um duelo emocionante no tempo normal. O encontro entre argentinos e italianos também ficou marcado pela tentativa de Maradona em trazer a torcida napolitana a seu favor, em oposição ao próprio país. O San Paolo lotou, como nos jogos do Napoli. Infelizmente para Maradona, a torcida era quase toda pela seleção mandante.

Schillaci abriu o placar em uma tabelinha de sonho para a Itália. Mas Caniggia buscou o empate. Novamente forçada a jogar sua vida nos pênaltis, a Argentina venceu por 4 a 3 e alcançou a sua segunda final consecutiva. A reedição da decisão de 1986 estava marcada.

Tédio e vingança em Roma

Em 8 de julho de 1990, Argentina e Alemanha se enfrentaram em contexto bem distinto do confronto em Guadalajara, que deu o bicampeonato mundial aos sul-americanos. O jogo elétrico de 1986 ficou mesmo no passado. Foram noventa minutos excruciantes para os amantes da bola, além das duas expulsões que quase estragaram a festa germânica.

Um pênalti duvidoso de Sensini em Völler decidiu a Copa de 1990, aos 39 da segunda etapa. Brehme cobrou com competência e decretou a revanche saborosa para os alemães, que finalmente se reencontraram com a taça depois de duas derrotas dolorosas em 1982 e 1986. A Argentina pôde reclamar da arbitragem em virtude do pênalti capital e das expulsões de Monzón e Dezotti, além de uma falta não marcada dentro da área em Calderón, cometida por Matthäus.

Os desfalques por lesão e suspensão (como Caniggia e Giusti) custaram caro a Bilardo no último estágio do Mundial. Refém de suas limitações, o time argentino acompanhou de perto os ataques alemães. Ganhou quem esteve mais perto do gol durante os noventa minutos. Contudo, ninguém tira o gosto amargo de uma derrota com um pênalti dos mais contestáveis. Em condições normais, a Alemanha teria levado a taça do mesmo jeito.

Maradona, que reclamou acintosamente da arbitragem, deixou o campo em lágrimas, no que foi a sua última final de Copa do Mundo. O sonho de elevar ainda mais a seleção argentina morria ali, no derradeiro estágio, na partida mais desejada para qualquer futebolista.

Referências: These Football Times, Wikipédia, El Gráfico, Youtube, OGol

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