Vices que amamos: O último Dream Team do Barcelona

Em sua última grande final europeia sob o comando de Johan Cruyff, o Dream Team do Barcelona foi surpreendido por um Milan arrasador em Atenas. A goleada por 4 a 0 marcou o fim de uma era bem sucedida no Camp Nou.

A capacidade do Barcelona em reverter adversidades na tabela do Campeonato Espanhol nos anos 1990 é uma façanha pouco exaltada ao redor do mundo. Campeão nacional três vezes seguidas na última rodada e com contornos dramáticos, o Barça de Johan Cruyff, conhecido como “Dream Team”, inspirou gerações. Este mesmo esquadrão desperdiçou a chance de defender o título europeu em 1993, graças a um vexame diante do modesto CSKA, dentro do Camp Nou. Em 1994, no entanto, a equipe catalã retornou com força para brigar.

O Barcelona de 1993-94 não era muito diferente dos anteriores, especialmente do que foi campeão europeu em 1992, contra a Sampdoria. A grande mudança foi a saída de Michael Laudrup como titular. Mas o dinamarquês foi ofuscado por alguém consideravelmente mais decisivo que ele: Romário. Contratado a peso de ouro do PSV, o Baixinho estava voando quando desembarcou em 1993 no Camp Nou para uma temporada marcante.

O caminho para Atenas

Ao lado de Stoichkov, Romário tomou rapidamente o protagonismo do time e marcou muitos gols, impulsionando o sucesso blaugrana na jornada. Em números: Romário anotou 33 gols na temporada, enquanto Stoichkov deixou sua marca 24 vezes. O poder de fogo do Barça era temido por qualquer adversário.

Além dos dois atacantes, Cruyff tinha o sempre perigoso Ronald Koeman, que por sinal foi o artilheiro da competição europeia na temporada, com oito gols. Armado no 4-3-3, o Dream Team tinha Koeman e Nadal como pilares defensivos, Sergi e Ferrer nas laterais, um trio de meio-campo respeitável com Amor, Guardiola e Bakero e o baixinho Begiristain na ponta-esquerda, auxiliando os dois companheiros de setor.

Este Barcelona conquistou a Liga Espanhola graças a um tropeço do Deportivo e alcançou a final da Champions, contra o poderoso Milan de Fabio Capello, herdeiro da coroa de Arrigo Sacchi. Em cinco competições oficiais, o Barça só conseguiu um título (Espanhol), com números assustadores: 123 gols marcados e 60 sofridos ao longo das 56 partidas. Por outro lado, o cartel oscilava: 34 vitórias, 11 empates e 11 derrotas, algo inimaginável para a atual geração de Messi.

Na sua perseguição ao bicampeonato europeu, o Barcelona derrotou Dynamo Kiev e Áustria Viena nas preliminares. Depois, na fase de grupos, liderou invicto uma chave com Monaco, Spartak Moscou e Galatasaray. Credenciado para jogar a semifinal, o time de Cruyff encantava pela facilidade no toque de bola e acima de tudo pela agressividade com que ia ao ataque.

Em jogo único, nas semifinais, o Barça teve a tranquilidade de definir sua vaga contra o Porto, no Camp Nou. Com um 3 a 0 indiscutível e gols de Stoichkov (2x) e Koeman, os catalães avistaram a terra firme. O Milan, do outro lado, fez o mesmo placar contra o Monaco, chegando com força para mais uma decisão. Os italianos também tinham uma redenção em mente, já que perderam para o Marseille na edição de 1993, em Munique.

O nó tático de Capello

No dia 18 de maio de 1994, o estádio Olímpico de Atenas recebeu uma final com grande expectativa. Duas escolas distintas de futebol se chocavam em noventa minutos imprevisíveis. Renovado depois da geração oitentista com Gullit, Van Basten, Rijkaard, Donadoni e Ancelotti, o Milan continuava sendo uma barreira intransponível na defesa, formada por Galli, Maldini, Tassotti e Panucci. Jogo duro para os atacantes velozes do Barça. Na frente, Massaro, Boban e Savicevic prometiam uma tormenta à última linha rival.

O equilíbrio de ações durou pouco. Sem espaço para executar seu estilo, o Barça foi encurralado pela marcação adiantada proposta por Capello. Aos vinte e dois, Savicevic arrancou pela direita, entrou na área, saiu de cara para Zubizarreta e tocou por cima. Massaro, livre, cutucou para a rede. Estava aberto o placar em Atenas. Foi o começo da destruição da equipe blaugrana.

Confiante e impondo seu ritmo, o Milan cansou o Barcelona tocando a bola de um lado para o outro. Massaro, causando pesadelos na defesa, transitava entre a intermediária e a meia-lua da área catalã. A intensidade milanista impactou negativamente a postura do Barça em campo. Criando pouco e encaixotado na marcação, o Dream Team murchava a cada minuto.

Massaro, sempre ele, ampliou a vantagem italiana após uma insistente troca de passes dentro da área do Barça. Uma bomba indefensável para Zubizarreta, segundos antes do intervalo. Cruyff tinha uma missão quase impossível pela frente: colocar na cabeça dos seus comandados de que uma virada era possível. Mas o próprio treinador se questionava disso. Pasmo e impassível do banco, o holandês acompanhava de camarote a derrocada de seu grande trabalho como técnico.

Na volta para o segundo tempo, o Barcelona mal teve tempo de reagir. Igualmente elétrico, o Milan decidiu rápido o confronto, a partir do minuto um. Savicevic, de maneira esperta, aproveitou vacilo de Nadal na ala esquerda, roubou a bola e meteu por cobertura, humilhando Zubizarreta. O arqueiro do Barça, frustrado, chutou para longe a bola depois de buscá-la no fundo das redes. O Barça já não tinha outro propósito em campo que não fosse evitar um massacre.

Se dependesse da linha de frente rossonera, a goleada teria sido pior do que o pesadelo brasileiro do 7 a 1. A defesa do Barça simplesmente não conseguiu lidar com a carga de trabalho, se rendendo à potência de Massaro e aos dribles de Savicevic. Em um dos contragolpes venenosos que o Milan aplicou, Desailly saiu com todo o espaço do mundo e carregou até a área, batendo no alto. Quatro gols a zero. Esse era o saldo negativo que o Dream Team tinha de encarar. E obviamente, não houve resposta.

Cruyff ganhou votos de confiança da diretoria do Barça, mas sofreu pressão até a sua saída, em 1996. Romário, o goleador, deixou o clube em janeiro de 1995 para voltar ao Flamengo, como melhor jogador do mundo. Laudrup, descontente com a reserva, assinou com o Real Madrid. O desmanche era real.

Com diferentes peças no elenco, os catalães só beijaram outra taça europeia em 1997, na Recopa, graças a outro brasileiro: Ronaldo. Champions, mesmo, só pintou de novo no Camp Nou em 2006, mas essa história vocês já sabem de cabo a rabo.

Referências: Wikipédia, Mundo Deportivo, Youtube, OGol

Um pensamento em “Vices que amamos: O último Dream Team do Barcelona”

  1. Dia desses li que a saída de Laudrup foi devido sua não escalação pra esse jogão, devido o limite de 3 estrangeiros, vigente à época. Soube também que o Milan teria celebrado essa ausência…

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