Vices que amamos: A Portuguesa que encantou o Brasil

Em 1996, a Portuguesa desafiou a lógica do futebol nacional e sonhou com o título brasileiro. A última grande Lusa, nas mãos de Candinho, foi até a final e vendeu caro a taça para o Grêmio, que vivia seu auge sob o comando de Luiz Felipe Scolari.

Não era a coisa mais comum encontrar a Portuguesa entre os grandes candidatos ao título do Brasileirão. Nem mesmo nos anos 1970, quando tinha jogadores que marcaram época no clube, a agremiação conseguiu tal façanha. Para finalmente chegar ao último estágio antes da glória, a Lusa precisou dar duro sob o comando de Candinho.

O time que começou a caminhada no Brasileirão deixou uma boa impressão, apesar da dificuldade em se classificar para o mata-mata. A formação de Candinho beliscou a oitava e última vaga, na hora H. Tropeços de Inter, Sport e São Paulo alavancaram os rubro-verdes do Canindé até a fase final, justamente na rodada decisiva. O desempenho era regular: 11 vitórias, três empates e nove derrotas. Para justificar sua presença entre os oito melhores, a Portuguesa se entregou 110%.

Os franco-atiradores

A Lusa de Clemer, César, Zé Maria, Zé Roberto, Capitão, Gallo, Rodrigo Fabri, Zinho, Alex Alves e Caio chegava sorrateiramente nas quartas de final. De cara, a primeira das decisões era contra o Cruzeiro de Levir Culpi, que venceu a Copa do Brasil diante do Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo. A Raposa, no entanto, não assustou os azarões, que enfiaram um belo 3 a 0 na ida, dentro do Morumbi.

Brilhou a estrela do saudoso Alex Alves, que marcou duas vezes. Rodrigo Fabri completou o placar. Praticamente com a mão na vaga, a Lusa segurou os mineiros fora de casa e perdeu por apenas 1 a 0, margem insuficiente para reverter o prejuízo. Irresistível, a equipe paulista mostrava as suas armas.

Nas semifinais, outro adversário mineiro: o Atlético contava com Taffarel, Doriva, Euller e Reinaldo, mas não foi capaz de impedir a arrancada lusitana. Alex Alves resolveu o confronto de ida, novamente no Morumbi. O duelo estava aberto para a revanche no Mineirão. E desta vez, a Lusa precisou suar sangue para eliminar o Galo. O primeiro golpe foi dado por Renaldo, aos 21, de pênalti. Pressionada, a equipe de Candinho reagiu e buscou a virada.

Na segunda etapa, também de pênalti, Caio bateu e deixou tudo igual. Coube a Alex Alves consolidar sua grande fase para colocar os visitantes em vantagem. Sem tremer diante de Taffarel, Alex mal sabia da importância de seu gol. Euller, pouco depois, conseguiu igualar o marcador, mas apesar da luta, o Atlético precisava ter vencido. A Portuguesa estava na final contra o Grêmio.

Um sonho possível

O Morumbi teve grande público para o primeiro de dois capítulos da final. O Brasileirão estava prestes a ser decidido por duas equipes que não brigaram pela liderança na primeira fase, mas que provaram seu valor ao longo dos jogos decisivos. Nenhum dos dois estava ali por acaso. E a Lusa sabia disso. Era hora do último pique.

Do outro lado, o Grêmio de Luiz Felipe Scolari ainda colhia os frutos do sucesso na Libertadores de 1995: Danrlei, Adilson, Rivarola, Roger, Arce, Emerson, Dinho, Carlos Miguel, Aílton, Paulo Nunes e Zé Alcino. Um timaço que não perdeu força com a saída do artilheiro Jardel. O Tricolor gaúcho chegou até lá com o sexto lugar na classificação.

Em 11 de dezembro de 1996, Portuguesa e Grêmio entraram em campo nos primeiros 90 minutos do embate. A expulsão de Marco Antônio, na etapa inicial, abalou os gaúchos, que sofriam forte pressão. No lance que seguiu a infração que tirou Marco Antônio do jogo, Gallo abriu o placar, em um belíssimo gol de falta. Rodrigo Fabri selou o placar da ida com um lance de puro oportunismo. Caio deu a assistência na linha de fundo e correu para abraçar o colega.

A Portuguesa dava um grande passo para o título inédito. Mas não era a hora de comemorar por antecipação. A grande vantagem poderia ser destruída se o Grêmio igualasse no agregado. Dono de melhor campanha, o time de Scolari sabia que podia jogar com o regulamento debaixo do braço. A edição de 1996 do Brasileirão ficou para ser decidida no Olímpico, em Porto Alegre.

Paulo Nunes não demorou a balançar as redes. O artilheiro gremista no ano aproveitou um ótimo espaço no canto direito da área para fuzilar Clemer. O Grêmio voltava ao jogo, precisando de outro gol para garantir a taça. A Portuguesa, valente, ofereceu a mesma dificuldade dos outros jogos. Desta vez foi Danrlei que trabalhou bem para evitar um gol dos visitantes. Na outra meta, Clemer também barrou o que poderia ter sido um triunfo confortável dos donos da casa. Rodrigo Fabri, em duas ocasiões, perdeu a chance de fazer o gol que selaria a conquista. Nas duas, a defesa tricolor salvou.

O relógio bateu em quarenta minutos da etapa complementar. A noite já se fazia presente no Olímpico. O jogo transbordava tensão e um gol bastava para que fosse revelado o campeão da temporada. Carlos Miguel lançou de trás, mirando o último pedaço de gramado no campo da Lusa. A defesa protegeu e afastou. A bola caiu no vazio do canto direito da área: Aílton, iluminado, emendou uma bomba de primeira, entre Clemer e a trave. Gol do Grêmio. Gol do bicampeonato. Um foguete do homem que estava no lugar certo e na hora certa.

A Lusa, que havia remado até tão longe, morria perto da orla. A chance de ouro que se apresentou em 1996 era uma oportunidade única, pegar ou largar, um portal que se abria no Canindé rumo à eternidade. Aquele elenco fez história, de fato, mas como um vice honroso que não beijou a taça por detalhe, por um gol místico e pelo regulamento que previa a vantagem dos empates para o Grêmio. Coisas do futebol.

Aquela campanha certamente reserva certa nostalgia. De todos aqueles que estiveram no time de Candinho, apenas Zé Roberto teve a chance de se redimir, vinte anos depois, pelo Palmeiras. E há quem diga que ele não vai parar por aí.

Referências: Imortais do Futebol, Trivela, OGol, Futpédia, Youtube

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