Vices que amamos: O Arsenal de Henry em 2006

Em sua única aparição na final da Liga dos Campeões, o Arsenal deu o primeiro golpe no Barcelona, em Paris. Mas a virada cruel dos catalães, a partir de um pênalti em Eto’o, assinalava a decadência dos Gunners no cenário europeu.

Segundo colocado da Premier League em 2004-05, atrás do Chelsea, o Arsenal chegava animado para mais uma Liga dos Campeões. O esquadrão montado por Arsène Wenger tinha várias estrelas e havia sido campeão inglês invicto uma temporada antes, em 2004. Entretanto, os Invincibles estavam envelhecendo e a torcida sabia disso. Um último ato marcou a despedida daquela geração vitoriosa.

Wenger era muito bem cotado como um dos grandes treinadores do mundo. E tinha pleno material humano para fazer o que fez. A seleção internacional do Arsenal tinha Lehmann, Cole, Campbell, Eboué, Touré, Gilberto Silva, Pirès, Fàbregas, Ljungberg, Hleb, Henry, Bergkamp e um jovem Van Persie no banco. A imensa maioria ainda servia seus países na ocasião.

O canto do cisne

Como se não bastasse, a temporada 2005-06 marcava também o adeus do clube ao Highbury, estádio lendário que saía de cena para dar lugar ao suntuoso Emirates Stadium. Os planos do Arsenal eram ambiciosos. Nada como um título europeu para pavimentar o caminho até a glória.

A fase de grupos da Liga dos Campeões foi bem tranquila para os ingleses. Sorteado ao lado de Ajax, Thun e Sparta Praga, os comandados de Wenger somaram 16 pontos, com cinco vitórias e um empate. A coisa começou a esquentar no mata-mata, quando já não sobravam mais adversários fracos na competição.

Logo de cara, nas oitavas, o Arsenal ficou incumbido de eliminar o poderoso Real Madrid de Ronaldo, Zidane, Beckham, Raúl e Roberto Carlos. Depois do título da Champions em 2002, a constelação não funcionou tão bem na Europa. Os Galácticos até que tentaram, mas um gol de Henry no Santiago Bernabéu resolveu o duelo ainda no jogo de ida. Em Londres, bastou um empate sem gols para que os ingleses avançassem.

A sequência, nas quartas de final, teve a Juventus, outro gigante que estava às vésperas de um processo de reinvenção. Ao fim da temporada, um escândalo de manipulação de resultados destruiu a reputação juventina e culminou no rebaixamento da equipe, que se desmontou para a disputa da Serie B. O duelo em dois atos também foi decidido na ida: o Arsenal fez 2 a 0 (Henry e Fàbregas) e mandou embora a última grande Juventus de Fabio Capello. Craques como Buffon, Nedved, Ibrahimovic, Mutu, Cannavaro, Thuram e Vieira também vislumbravam uma participação na final. Mas isso só aconteceria em 2015, com outras peças bem diferentes. E Buffon.

Para equilibrar ainda mais o torneio, o Arsenal encarou o surpreendente Villarreal de Riquelme, Sorín e Forlán nas semifinais. Em jogos eletrizantes, o roteiro foi praticamente o mesmo: vitória inglesa na ida e empate na volta. Dessa vez, Kolo Touré foi o herói da classificação para os Gunners, dividindo o protagonismo com Lehmann, que defendeu um pênalti de Riquelme em El Madrigal. O Arsenal era finalista da Liga dos Campeões pela primeira vez. Do outro lado, o Barcelona de Ronaldinho pedia passagem.

17 de maio de 2006

O Barcelona também não estava para brincadeira. O futebol vistoso apresentado pelo time de Frank Rijkaard tinha seus protagonistas: Ronaldinho, Deco e Eto’o. Antes de chegar para a decisão, o Barça deixou Chelsea, Benfica e Milan pelo caminho.

A partida no Stade de France tinha um gostinho especial para Henry e Pirès, já que em 1998, no mesmo lugar, a França bateu o Brasil por 3 a 0 e se sagrou campeã mundial. Infelizmente para a dupla, um brasileiro seria o algoz do Arsenal mais francês da história. Não que os ingleses tivessem começado mal: Henry quase fez um gol antes mesmo dos cinco minutos. Victor Valdés tirou da cartola uma das grandes atuações de sua vida para evitar o bombardeio rival pelos pés do capitão adversário.

O confronto fervia. Os dois lados criavam várias chances. Aos dezoito minutos, Lehmann cometeu o crime capital da noite. Desesperado e de cara com Eto’o, que vinha sozinho para receber passe de Ronaldinho, o goleiro alemão derrubou o atacante e foi expulso. O Arsenal precisou se resguardar para não deixar a defesa exposta. Almunia entrou no lugar de Pirès, sacrificando a criação no meio-campo.

O drama continuou, mas com esperança. Aos 37, Henry cobrou uma falta cruzada na área e Campbell testou para colocar o Arsenal em vantagem. Com dez em campo, os ingleses tomavam a frente da partida. Um golpe duríssimo a ser absorvido pelo Barça. Tenso, o Arsenal começou a pegar pesado nas faltas para conter o ímpeto dos catalães. Henry e Eboué levaram cartões amarelos por entradas descuidadas antes do intervalo.

Pressionado pelo resultado parcial, o Barça foi para cima do adversário com tudo que lhe restava. Ronaldinho, em arrancada, acabou derrubado por Touré, depois de esquivar de desarmes de Flamini. O brasileiro era figura central dos ataques, mas a finalização teimava em passar longe da meta defendida por Almunia.

Durante toda a segunda etapa, o Barça atacou mais e deu o tom da final. Nas poucas chances que criou, o Arsenal pecou pelo preciosismo e pela ansiedade. Henry, Hleb, Fàbregas e Ljungberg também poderiam ter ampliado o placar, mas o destino estava desenhado e preenchido com outras cores.

O castigo

À aquela altura, a final em Paris ganhava contornos históricos. Em alto nível, o jogo virou completamente nos 15 minutos finais, graças a Larsson, que havia entrado na vaga de Van Bommel. O sueco, com toda a experiência, deu um passe primoroso para Eto’o, que vinha de trás. O camaronês dominou e acertou um tapinha no canto para empatar, aos 76.

Mais uma vez Larsson: cinco minutos depois, segurando a bola no flanco direito, o camisa 7 puxou a marcação do Arsenal e soltou outro passe preciso. Belletti ocupou o espaço deixado pela zaga, entrou pelo canto da área e bateu forte. A bola ainda bateu em Almunia, mas passou por baixo das pernas do arqueiro e morreu dentro do gol. O Barça virou – emocionado – debaixo da forte chuva parisiense e puniu os Gunners.

Destroçado emocionalmente, o Arsenal pouco fez para buscar o empate. Exausto por ter de correr atrás do Barça nos minutos finais, a equipe de Wenger ruiu retrancada em uma partida atípica. Um pouco a mais de eficiência e a história seria completamente diferente: o Arsenal teria escrito outra fantástica jornada invicta até o título. Mas no dia em que Belletti se consagrou, caía a invencibilidade dos ingleses, que não souberam lidar com a vantagem no placar.

O vice, como se sabe, abalou as estruturas do Arsenal, que foi perdendo ano a ano seus principais craques. Henry, o candidato a protagonista, só descobriu o gostinho de ser campeão europeu quando assinou com o Barcelona, em 2007. Em seguida à derrota em Paris, Bergkamp se aposentou, Pirès foi para o Villarreal, Cole assinou com o Chelsea e Campbell fechou com o Portsmouth. Renovado, o plantel de Wenger perdeu força e até hoje há quem sonhe com uma redenção na final da Liga dos Campeões, que está cada vez mais distante no horizonte.

Referências: UOL, Wikipédia, OGol, Guardian, Youtube

Um pensamento em “Vices que amamos: O Arsenal de Henry em 2006”

  1. Ainda acho que se o Lehmann não fizesse a falta no ínicio e o Barça saísse na frente, com 11 em campo, o Arsenal teria todas as condições de buscar o resultado e até ganhar a Champions!

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