O rei ferido da zaga do Tottenham

Ledley King dedicou toda a sua carreira ao Tottenham. Apontado como um dos grandes zagueiros de sua época, passou grande parte da juventude tratando de lesões e problemas recorrentes no joelho.

A Inglaterra nem sempre foi a casa dos defensores mais elogiáveis do futebol. Alçado à mesma categoria de prestígio dos poucos zagueiros ingleses fora de classe, Ledley King brilhou com a camisa do Tottenham e poderia muito bem ter ofuscado o legado de Sol Campbell. Não fosse um detalhe: os joelhos não permitiram que ele alcançasse um patamar superior.

A história de King como atleta profissional dos Spurs começa no meio-campo, improvisado em suas primeiras aparições entre os titulares, no ano de 1999. Eventualmente, o técnico George Graham mudou a função do jovem, que foi ocupar um lugar na zaga ao lado de Campbell, ídolo do clube na época. Os carrinhos e desarmes foram fantásticos e o Tottenham desfrutava de uma dupla formidável.

Os rivais, claro, não deixariam a paz reinar por muito tempo em White Hart Lane. O Arsenal bateu à porta e levou Campbell. Anos mais tarde, o Chelsea quis contratar King, que se recusou a seguir o mesmo caminho do antigo parceiro. Ficaria lá até o fim de sua carreira, reconhecido como capitão e pilar defensivo de um time em busca de sua identidade.

O craque da casa

Ao longo de 264 partidas, um número baixo e que reflete o tempo em que King esteve afastado por lesões, o beque conquistou o respeito de sua torcida e da crítica inglesa, tão dura com seus jogadores. A idolatria ficou eternizada com o título da Copa da Liga, em 2008, contra o Chelsea. Mas em todos os 14 anos de Tottenham, a briga por títulos ficou restrita às copas nacionais. Na Premier League, a equipe não concorria pelas primeiras posições.

Em momentos de dureza, quando um atacante se via em ótima condição para marcar um gol, King representava a última esperança. Quem sabe, aparecesse como um trovão para levar a bola dos pés do carrasco, ou para tirar em cima da linha um gol certo.

Por esta onipresença, Ledley era muito estimado por seus torcedores e até mesmo pelos rivais. A maturidade para executar um papel de liderança em seus primeiros anos como titular consolidou rapidamente o seu nome entre os grandes heróis do Tottenham. Os joelhos tiraram King de combate em parte majoritária de duas temporadas: 2007-08 e 2010-11. O velho problema, um incômodo que não deixou de se manifestar durante o seu auge.

Depois de Campbell, na segunda metade da década de 2000, King formou com Michael Dawson outro paredão na defesa dos Spurs. Mesmo sem um título para consagrar a parceria, Ledley e Michael guardam certa nostalgia de um momento que ainda não está tão distante desta Era Pocchettino. Enquanto Arsenal e Chelsea acumulavam taças, o Tottenham preservava a sua maior riqueza: seus ídolos.

O que perdeu

O defensor serviu a Inglaterra por oito anos, mas com poucas atuações. As mais destacadas aconteceram na Eurocopa de 2004. Bem cotado para continuar na seleção, mesmo com as repetidas baixas por contusão, King ficou de fora da Copa do Mundo de 2006. A injustiça do destino foi compensada apenas em 2010, mas na reserva. Tarde demais.

King era, por excelência, o último grande produto do Tottenham para a defesa. Um atleta que lutou contra a sua própria limitação física a fim de continuar vivendo do futebol. Todos os jogos em que ficou de fora da lista de convocados eram esquecidos quando ele entrava em campo e disputava cada bola com classe, muitas vezes ignorando a dor e as consequências de seus ligamentos partidos. Tudo isso sem treinar regularmente, já que a Ledley cabia uma carga diferenciada de exercícios.

O joelho operado e suas várias cicatrizes se explicam por um momento fortuito logo no dia de sua estreia, frente o Derby County, no longínquo 1999. Rory Delap acertou um carrinho no novato King, que ainda cobria a zona de meio-campo, improvisado. A entrada desleal não foi punida com cartão e tampouco King precisou sair para tratar do problema. Ele continuou em frente, sem ser incomodado.

Posteriormente, descobriu que precisaria operar. E nunca mais foi o mesmo. As marcas de cada visita à mesa de cirurgia rabiscaram qualquer chance dele de se tornar algo maior, um gigante que ultrapassasse as fronteiras londrinas e fosse convertido em ídolo nacional. Talvez como Bobby Moore, Rio Ferdinand. Ficamos com o talvez.

Entre tantas possibilidades de grandeza, ele foi Ledley King, com louvor. Ídolo à sua maneira, apesar de suas ausências e promessas perdidas. Tragédia clássica do futebolista traçada em seu momento de estreia. Se engana quem pensa que o maior inimigo do jogador é a própria mente. Mesmo sã, ela só pode ser plena se estiver de acordo com o corpo.

Referências: OGol, ESPN FC (Tottenham), These Football Times, Wikipédia, Guardian

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