O calvário de Pedrinho, o craque das pernas frágeis

Prejudicado por um carrinho violento no início da carreira, o meia Pedrinho conseguiu ter bons momentos por Vasco e Palmeiras, mas foi acompanhado de perto por lesões e questionamentos até a sua aposentadoria.

O fantasma dos problemas físicos sempre rondou Pedro Paulo de Oliveira, o famoso Pedrinho. Nascido no Rio de Janeiro, o meia saiu das equipes juvenis para estourar no profissional do Vasco ao fim da década de 1990. Parte de uma geração talentosíssima de atletas do Cruzmaltino, Pedrinho não teve a mesma sorte de contemporâneos como Felipe, Ramón e Juninho Pernambucano.

O jogador percorreu o caminho do futsal até o futebol de campo dentro do Vasco e criou uma identidade como torcedor. Quando chegou a hora de estrear nos gramados, em 1995, ele não sentiu o peso como tantos outros meninos, justamente por ser prata da casa. A transição foi suave e se deu justamente num período de ascensão do clube carioca. Pedrinho começava a sua jornada em uma equipe vencedora.

O ano era 1998. O Vasco, que havia vencido o Brasileirão em 1997, vivia a também euforia de ser campeão da Libertadores. Titular do time, aos 21 anos, Pedrinho mirava objetivos maiores como a convocação para a Seleção Brasileira. Lembrado por Vanderlei Luxemburgo para amistosos internacionais, o garoto contava os dias para vestir a camisa canarinho. Menos de duas semanas depois de erguer a taça da Libertadores, em 6 de setembro de 1998, o Vasco recebeu o Cruzeiro pelo Brasileirão. Naquele dia, Pedrinho flertou com a aposentadoria.

O choque

Um carrinho do zagueiro Jean Elias quase colocou um ponto final na breve carreira do vascaíno. Apesar do cruzeirense ter acertado a bola primeiro, o impacto na perna direita de Pedrinho foi brutal: ele teve ruptura dos ligamentos do joelho e parou por sete meses. O retorno foi gradual, com os juniores, mas em pouco tempo, o meia parou outra vez. O joelho ainda não estava plenamente recuperado da cirurgia. Mais onze meses de espera.

Tudo parecia perdido para Pedrinho. Era cedo demais para ser confrontado com o fim da carreira. Foi em 2000 que ele fez seu retorno triunfal. Saudável e disposto a compensar o tempo em que ficou de fora, o canhoto festejava os títulos do Brasileiro e da Copa Mercosul. O último, em 20 de dezembro, marcou a virada mais inacreditável da história do clube de São Januário, que saiu para o intervalo perdendo por 3 a 0 para o Palmeiras e virou para 4 a 3 nos acréscimos da segunda etapa, em pleno Parque Antárctica.

O último ato de Pedrinho com a camisa do Vasco foi na Libertadores de 2001, em eliminação frente o Boca Juniors, nas quartas de final. Vendido ao Palmeiras, o atleta deixou para trás quase duas décadas de relação com o Cruzmaltino. Contratado como destaque -e substituto de Alex- do Verdão que procurava se reerguer de mais uma frustração sul-americana pelas mãos do Boca, Pedrinho não teve vida fácil na casa palmeirense.

Sem sequência

Com poucos meses como jogador do Palmeiras, o carioca iniciou uma relação duradoura com o departamento médico. O joelho esquerdo ficou comprometido com um rompimento de ligamentos, interrompendo uma boa sequência dele como titular da equipe de Marco Aurélio. A dor foi ainda maior pelo fato da contusão ter acontecido em um reencontro com o Vasco. Lá se foram oito meses de molho.

O retorno aconteceu em 2002, um ano particularmente terrível para o alviverde: sem planejamento e vítima de várias trocas de comando, o Palmeiras foi rebaixado pela primeira vez em sua história, sob a batuta de Levir Culpi. Pedrinho não pôde fazer muita coisa para evitar a queda, já que apresentava um quadro de depressão. Em outubro de 2002, foi pego no antidoping pelo uso de bupropiona, mas a CBF o isentou de qualquer pena por estar ciente do tratamento antidepressivo.

Na Série B, o armador teve grandes momentos e foi peça-chave na campanha de retorno à elite nacional. Curiosamente, a taça da segunda divisão foi a única que ele levantou enquanto esteve no Parque Antártica. Para o ano de 2004, com mais confiança, liderou o meio-campo com maturidade e muita técnica. O desempenho pelo Palmeiras chamou a atenção de Carlos Alberto Parreira, que o convocou para um amistoso do Brasil contra o Haiti. Ao fim da temporada, Pedrinho se lesionou mais uma vez, dando as caras apenas em março do ano seguinte.

À aquela altura, a torcida alviverde já sabia que nunca teria Pedrinho por completo. Por mais que decidisse vários jogos e se apresentasse como protagonista, eventualmente ele ficaria de fora em virtude da fragilidade de seus joelhos. Em 2005, no seu último ano, apareceu pouco e perdeu espaço para Juninho Paulista, grande contratação para a temporada. Negociado com o Al-Ittihad, teve curta passagem pelo futebol árabe e se mudou para o Rio de Janeiro para assinar com o Fluminense. Atormentado por mais lesões, sequer deixou saudade nas Laranjeiras.

O último fio de talento

Pedrinho chegou ao Santos em janeiro de 2007, com a esperança de retomar a boa forma física. E de fato conseguiu passar um ano inteiro sem obstáculos. A cada grande partida, ficava evidente que os clubes anteriores negligenciaram os cuidados ao jogador.

O carioca se provou fundamental para as ambições do Peixe, que buscou uma vaga na Libertadores e o título paulista na temporada. Havia esperança: o fisioterapeuta Nilton Petroni tratou de Pedrinho e encontrou uma solução para as contusões crônicas. Graças a isso, o carioca teve uma sobrevida dentro do futebol.

A diretoria santista, no entanto, não renovou contrato para mais um ano. O meia aceitou uma proposta do Al Ain para jogar nos Emirados Árabes, no início de 2008, e meses depois colocava a caneta no papel para ser jogador do Vasco. A aposentadoria, que já era uma opção considerada por Pedrinho desde os tempos de Palmeiras, voltou à tona com as escassas participações pelo clube formador. O carioca viu de fora a campanha agoniante do Vasco rumo à Série B, com Edmundo no papel de herói vencido.

Em 2009, Pedrinho acertou com o Figueirense. Frustrado, não conseguiu superar as barreiras e o desgaste psicológico: aos 32 anos, anunciou que estava deixando o futebol, no meio da temporada. O histórico pesou para que ele não tivesse mais nenhum prazer em continuar jogando. Pedrinho chegou a vestir a camisa do Olaria em partidas oficiais no Campeonato Carioca, em 2012, mas era o fim.

Lembrado pelo Vasco para uma despedida especial, capitaneou o seu time do coração pela última vez em 2013, em amistoso contra o Ajax. Acabava de forma melancólica e saudosista a longa caminhada de um craque incompleto, que sonhou com a Seleção e despertou abruptamente em uma maca em São Januário. O destino estava marcado desde que Jean Elias começou a deslizar no gramado até se chocar com a perna direita do vascaíno. Sem querer, o zagueiro cruzeirense dava um carrinho e uma sentença ao adversário.

Referências: Wikipédia, OGol, O Globo, GloboEsporte.com, Youtube, Porcopedia, Netvasco

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