Djibril Cissé: Pelo amor ou pela dor

Irreverente, todo tatuado e com penteados que beiravam o absurdo, o carismático Djibril Cissé ganhou uma legião de fãs na França e na Inglaterra, quando defendeu o Liverpool. Os sorrisos do atacante, no entanto, sumiram quando ele fraturou duas vezes a perna em menos de dois anos.

Djibril Cissé provavelmente não está na lista dos principais atacantes do futebol francês nas últimas duas décadas. Apesar de figurar na seleção por alguns anos e somar bom número de gols no âmbito geral, o camisa 9 não fez o suficiente para deixar seu nome na história do esporte. E quase sempre é lembrado por horríveis fraturas na perna em curto espaço de tempo.

Tíbia e perônio

A sorte não bate à porta de todo mundo, é verdade. Cissé fez a fase final da categoria de base pelo Auxerre, clube que o lançou ao profissionalismo em 1999. Em menos de três anos, com enorme competência e cabelos descoloridos, ele estourou e se transformou em um grande candidato a ofuscar a lenda de Thierry Henry fora do país.

Campeão da Copa da Liga em 2003, contra o PSG, Cissé estava pronto para dar um passo adiante. Foi este título que serviu para alavancar de vez o nome de Djibril como uma promessa internacional. Aos 23 anos, deixava o Auxerre para assinar com o Liverpool. Bons tempos o esperavam na Premier League?

Credenciado pelos 28 gols em 2003-04, Cissé voou para Anfield com a moral elevada, chegando para brigar pela titularidade. Infelizmente, o novato não teve tantas chances para levar seus dribles e jogadas ousadas aos Reds. Em outubro de 2004, veio a trovoada: numa partida contra o Blackburn, pela Premier League, levou um chute na panturrilha esquerda. Com o pé preso ao chão, o estalo foi instantâneo e Cissé teve fratura dupla na tíbia e no perônio.

Frustrações duplas

Impactado com a dor, o camisa 9 retornou apenas em abril de 2005, contra a Juventus, pelas quartas de final da Liga dos Campeões. Todo cuidado era pouco. Recuperando a confiança e a velocidade, Djibril entrava nos minutos finais e marcou duas vezes contra o Aston Villa na última rodada do Inglês. Estava pronto. Na final europeia diante do Milan, em Istambul, Cissé foi chamado para o jogo restando cinco minutos para a prorrogação e comemorou o título histórico de sua equipe após as penalidades.

O francês se recuperou muito bem a partir da segunda temporada, marcando 16 vezes e ganhando uma vaga ao lado de Henry na seleção da França que se preparava para a Copa do Mundo. Insinuante e muito versátil, poderia acrescentar muito ao esquadrão treinado por Raymond Domenech como o camisa 9. Mas ele não chegou a pisar em gramados alemães.

Em um amistoso descompromissado com a China, às vésperas da estreia no Mundial de 2006, Cissé quebrou a perna novamente em uma dividida. A imagem, que obviamente não precisa ser mostrada aqui, chocou o mundo do futebol. A situação foi muito parecida com a primeira fratura, em 2004. Um chute na panturrilha dado por Zheng Zhi estraçalhou a tíbia e o perônio de Cissé, que caiu em cima de sua perna. Mais uma vez, ele experimentava do pior tipo de punição a um futebolista de alto desempenho.

Havia um longo caminho a ser percorrido. E Cissé se levantou para dar outra volta por cima. Emprestado pelo Liverpool ao Marseille em 2007, respondeu às dores com gols, sua principal matéria-prima. Em uma temporada e meia com o OM, Djibril anotou 33 tentos, mostrando que não se abalou com o terror vivido em 2006. Com apenas 26 anos, tinha toda uma chance de retomar sua carreira.

Gols pós-traumáticos

Mesmo com tanta determinação e sem ter sofrido outra lesão que ameaçasse sua vida profissional, Cissé não teve a mesma sorte. Criticado no Marseille por não estar no mesmo nível de outrora, acabou cedido ao Sunderland. Deixou 11 gols e saiu para o Panathinaikos, clube pelo qual marcou mais vezes em uma única temporada: 28 vezes em 40 partidas, um recorde comparável à sua fase pelo Auxerre.

Letal como nunca, ele foi coroado como artilheiro da Liga Grega em 2010. Um homem estava acompanhando a situação de perto: Raymond Domenech, técnico da França, que contava com Djibril para o Mundial na África do Sul. Entretanto, a jornada dos franceses não foi bem sucedida. Problemas internos, brigas dentro do elenco e um motim contra Domenech arruinaram qualquer clima. Os vice-campeões de 2006 caíam na primeira fase. Cissé fez apenas uma aparição no torneio, justamente na despedida ante os sul-africanos. Tarde demais.

Quando renovou com o Panathinaikos para 2010-11, o francês manteve a média elevada e repetiu o feito como artilheiro do Grego, desta vez com 24 gols. Avassalador, Cissé foi premiado com uma transferência para a Lazio. Como o nível da Serie A era razoavelmente maior do que na Grécia, ele não encontrou espaço para fazer o que sabia e acabou ofuscado pela competição no setor ofensivo. Saiu meses depois, em baixa, para o Queens Park Rangers. Daí em diante, peregrinou por equipes menores, sem deixar tanta saudade.

O sorriso do veterano

O homem dos cabelos descoloridos ainda passou por Al Gharafa, Krasnodar, Bastia e Saint-Pierroise, na Ilha de Reunião, fazendo apenas algumas aparições discretas, anunciando a aposentadoria em outubro de 2015. A grande virada aconteceu em julho de 2017, quando ele voltou atrás na decisão para assinar com o Yverdon, da terceira divisão Suíça. Aos 36 anos, Cissé reencontrou a alegria de atuar, marcando 10 gols em 11 partidas, até o momento.

Mais por amor do que qualquer outra coisa, o francês espera encerrar sua trajetória com o mesmo sorriso que estampava no rosto quando deixou o Auxerre para viver do estrelato em Liverpool. As cicatrizes, no entanto, não mentem: ele suportou dores que muitos homens não sentiriam nem em seus piores pesadelos.

Referências: Ogol, Site oficial Yverdon, Wikipédia, Youtube, L’Equipe

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