As aflições crônicas de Sebastian Deisler

O segundo grande meia da sua geração na Alemanha jamais conseguiu demonstrar o potencial esperado. Vencido por lesões e problemas emocionais, Sebastian Deisler encerrou a sua carreira aos 27 anos.

Que jogador no mundo nunca teve algum problema sério com contusões? Desde a vivência nas categorias de base, o atleta de futebol está arriscado a sofrer uma lesão que coloque em risco toda a sua trajetória. Alguns dão a volta por cima mesmo diante de grande ameaça. Outros nunca mais retomam o vigor de antes. Para o torcedor brasileiro médio, dramas como o de Zico ou de Ronaldo servem como exemplos de empatia para com outros craques ao redor do mundo.

A tal volta por cima não é para qualquer um. Além da força de vontade, o jogador precisa ter predisposição genética e um corpo saudável. Esse não era, definitivamente, o caso de Sebastian Deisler, meia alemão ofuscado por Michael Ballack e pelas contusões que o tiraram de combate muito cedo em sua carreira.

Revelado pelo Borussia M’Gladbach em 1999, quando os Potros acabaram rebaixados da elite alemã, Sebastian se destacou na reta final do campeonato. O desempenho encantador rendeu ao armador uma chance no Hertha Berlin, que diferentemente da sua equipe formadora, sonhava com uma grande participação na Liga dos Campeões. Naquele mesmo ano, Basti sofreu um duro golpe: rompimento do ligamento cruzado do joelho.

A ascensão do astro

No Hertha, após a reabilitação médica, todo o talento de Deisler ficou evidente. Com menos de dois anos como profissional e firme entre os titulares, Sebastian foi convocado pela Alemanha para disputar a Eurocopa, em 2000. Apesar do fiasco, Deisler saiu em alta pelo que mostrou nos três jogos em que participou. Com a confiança lá em cima, fez ótima temporada no segundo semestre.

Tinha apenas 20 anos e jogava como um veterano. Com frieza e potência, comandava o meio-campo berlinense e era de longe o jogador mais talentoso do elenco. A relação entre ele e a bola foi harmônica: o que Sebastian mandava, ela fazia. E assim foi em cada lançamento longo, passe em profundidade, além das diversas assistências. Cruzava e achava um ponto ideal para que o companheiro subisse de cabeça ou dominasse completamente livre. Era quase mágico.

Estabelecido como maestro do Hertha, Deisler experimentou novamente o amargor de estar fora de combate. Nos primeiros meses da temporada 2001-02, o meia danificou a membrana sinovial do joelho e ficou de fora até o fim da campanha. Nesse intervalo, assinou contrato com o Bayern, sem assumir publicamente o novo compromisso. Seria, dali em diante, acompanhado de perto pela delegação médica dos bávaros para tratar de seu joelho.

Ausências sentidas

Deisler era figurinha carimbada para defender a Alemanha no Mundial de 2002, não fosse o longo tempo de inatividade. Das salas do departamento médico, viu a sua seleção ser derrotada pelo Brasil na final da Copa do Mundo de 2002, com Michael Ballack despontando ao estrelato. Mais experiente e saudável, Ballack também chegou ao Bayern em 2002: estava encaminhada a revolução no setor.

Enquanto o companheiro brilhava e dominava os vestiários, Deisler seguia esperando uma chance de emplacar bons jogos em sequência. Mas essa chance nunca veio. Além da concorrência acirrada no próprio Bayern (Niko Kovac, Ballack, Salihamidzic, Jeremies, Zé Roberto e Hargreaves estavam em vantagem pelo posto), as contusões continuaram representando uma tormenta na vida do alemão. Foram duas operações em menos de um ano, reduzindo a meros dez jogos a participação de Deisler com o Bayern em 2002-03.

A pressão não diminuiu enquanto ele esteve fora: o alto valor pago pelo clube gerou cobranças as quais ele simplesmente não estava pronto para responder. Este clima hostil e exigente mexeu com a cabeça do atleta, que além de passar um bom tempo inativo, enfrentava um quadro de depressão. De volta ao elenco, fez apenas quinze partidas em seu segundo ano no Bayern, número insuficiente para convencer o técnico Rudi Völler de que merecia estar na Euro 2004. Mas no segundo semestre, o mundo conheceu a melhor forma de Deisler.

Maduro e disposto a compensar todos os meses de ausência, desfilou em 34 jogos com a equipe bávara, seu período mais saudável na carreira, aos 25 anos. Foram seis gols, quase sempre saindo do banco, mas com regularidade. Em cada escanteio, criava-se a expectativa de um gol de cabeça. Quando carregava a bola, Sebastian sabia o atalho até a assistência perfeita, o último toque antes do gol e da comemoração. Ser o garçom depois de tanto sofrimento era uma alegria genuína para Deisler, que carregava enorme peso em suas costas.

A disputa da Copa das Confederações, em 2005, marcou a Alemanha como anfitriã um ano antes do Mundial. Deisler foi titular do segundo até o último jogo de seu país no torneio. Eliminada pelo Brasil nas semifinais em um jogaço, a Alemanha parecia promissora, quebrando com vários anos decepcionantes desde a virada do século. E Deisler era uma destas novas estrelas.

Quando tudo parecia encaminhado para a Copa do Mundo, o camisa 26 caiu novamente. A mesma membrana sinovial, que o deixou de fora cinco anos antes, trouxe mais complicações em março de 2006. Sebastian viu de casa o seu sonho desmoronar, enquanto a Alemanha terminava em terceiro lugar. Foram oito meses de recuperação, até novembro daquele ano.

Sabendo que estava seriamente comprometido com a situação frágil do seu joelho, o jogador optou por se aposentar em janeiro de 2007, aos 27 anos, em entrevista coletiva no centro de treinamentos do Bayern. Mesmo sabendo da condição clínica do meia, a diretoria bávara não rescindiu o contrato, que valia até 2009, deixando as portas abertas para um possível retorno. Que nunca aconteceu.

“Não é uma decisão que tomei do dia para a noite. Eu tive de correr demais para retomar meu ritmo, mas não acredito que estarei apto para jogar futebol novamente como profissional. Não estarei jamais no nível exigido e também não tenho a mesma satisfação. Como sei que não gosto de fazer nada pela metade, paro por aqui”, disse Deisler, em sua despedida.

Referências: Transfermarkt, Ogol, Wikipédia, Youtube, O Futebólogo

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