Yegor Titov, o gênio de uma geração perdida na Rússia

Antecessor de Arshavin como astro russo, Yegor Titov viveu no olho do furacão enquanto deslanchava no Spartak Moscou. Meio-campista completo e com faro de gols, Titov jamais quis deixar a Rússia e perdeu a chance de se notabilizar no exterior.

O fato do jogador de futebol na Rússia poder escolher seu destino fora do país ainda era uma novidade no início da década de 1990. No passado, caras como Oleg Blokhin eram impedidos de deixar a União Soviética por imposição do governo, assim como em vários outros países da Cortina de Ferro. Felizmente, o embargo acabou e nenhum outro craque da região teve o mesmo problema depois da dissolução da URSS, fragmentada após a queda do Comunismo.

A Rússia foi a que mais perdeu com a transição, desportivamente falando. Forçada a revelar novos talentos tão impactantes quanto Belanov, Dasaev e Zavarov, a ex-potência internacional até teve seus candidatos: Karpin, Mostovoi e Titov despontavam com força nos clubes do país, mas a participação russa em torneios importantes foi praticamente nula de 1990 em diante.

Essa tendência a ser saco de pancada se repetiu até 2008, quando uma nova geração deu frutos na Eurocopa. Liderada por Arshavin, Zhirkov, Pogrebnyak e Pavlyuchenko, a nova Rússia finalmente impunha respeito. Talvez não como nos tempos de URSS, mas definitivamente as coisas haviam mudado.

O temível capitão

Yegor Titov surgiu exatamente no momento mais nebuloso do futebol russo. Cria da base do Spartak, percorreu todas as equipes jovens até estrear no profissional em meados de 1994. E se firmou rapidamente como titular, aos 18 anos.

Era surpreendente vê-lo dominar e tocar a bola com maturidade. Titov aprendeu com louvor a controlar o jogo e por isso se tornou uma referência no meio-campo, acrescentando enorme agressividade ao seu estilo. O camisa 9 do Spartak já era famoso por seus ataques intempestivos. Era como se fosse o dono do campo. Discussões, retaliações a adversários e ataques de fúria eram comuns.

Ele ganhou projeção durante os bons tempos vividos pela equipe moscovita, que dominou a Liga Russa entre 1994 e 2001, com sete títulos. Maestro da meia e articulador ofensivo, Titov alcançou um lugar na seleção russa a partir de 1998, mas a fase não era boa e o país ficou de fora da Copa do Mundo na França e da Eurocopa em 2000. Somente na Copa de 2002 é que a Rússia deu as caras novamente. E decepcionou a sua torcida, caindo na primeira fase. Titov, por outro lado, se destacou.

O doping

As coisas pareciam voltar aos trilhos. Renovada, a seleção russa disputou a repescagem para a Eurocopa de 2004, contra Gales. Foi um momento crucial para a carreira de Titov, um dos destaques da equipe titular. O duelo contra Giggs e seus colegas prometia fortes emoções. Um empate sem gols na Rússia levou a decisão para o Millennium Stadium, em Cardiff. Evseev marcou o único gol e classificou a Rússia para o torneio. Mas os efeitos seriam calculados apenas depois.

Titov, que se recuperou milagrosamente de uma lesão no pé, foi pego no antidoping e acabou suspenso por um ano pela Fifa. Os exames apontaram presença de bromantan no organismo do meia. A substância era muito usada pelo exército soviético para combater a fadiga durante os conflitos na Chechênia. Começava uma fase tenebrosa na carreira do jogador, marcado pelo incidente. A Federação de Gales tentou reverter o resultado da repescagem, mas conseguiu apenas afastar Titov dos gramados.

Anos depois, se soube que Titov não tinha consciência da situação: o craque do Spartak foi dopado por um dos médicos da delegação russa. Em 2005, Maxim Demenko (um ex-companheiro de Titov no Spartak) denunciou: o doping era recorrente antes de cada partida pela Liga. Aparentemente, a tendência a usar substâncias ilegais era negligenciada pelas autoridades esportivas na Rússia, como se notou no grande escândalo que culminou no banimento de atletas de diversas modalidades para os Jogos Olímpicos de 2016.

A última recusa

O capitão do Spartak não tinha muito mais o que almejar na carreira. Visivelmente havia perdido espaço no clube por estar a cada dia mais lento. Mas ainda tinha a sua importância. Convocado para defender a seleção nas Eliminatórias para a Eurocopa de 2008, pediu dispensa para ficar perto da esposa, que estava nos últimos meses de gravidez. E nunca mais foi chamado, perdendo a chance de brilhar uma última vez pelo seu país.

Foi aí que tudo piorou. Uma briga com o técnico Stanislav Cherchesov, meses depois, em 2008, forçou a sua saída do Spartak. Titov, desiludido, assinou com o pequeno Khimki, onde encerrou a campanha na Liga de maneira discreta. No ano seguinte, deixou sua terra natal para fazer uma última e mediana temporada com o Lokomotiv Astana, no Cazaquistão. Marcou seis gols e pendurou as chuteiras.

Aclamado apenas pelo público russo pelos seus feitos desportivos, Yegor não se permitiu ser conhecido em outros cantos da Europa. Em 2002, logo após a Copa do Mundo, preferiu não se transferir para o Atlético de Madrid por acreditar que seria mais bem sucedido se continuasse no Spartak. Paciência. Quem pode dizer se ele teria estourado na Espanha? Nunca saberemos.

Referências: OGol, Wikipédia, BBC, Guardian, Site oficial Spartak Moscou

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