Oscar Dertycia, o Sansão do futebol moderno

Atacante argentino despontou para o estrelato no final da década de 1980, mas uma grave lesão no joelho determinou o que seria o resto de sua carreira. Oscar Dertycia perdeu os cabelos e a força em sua terrível fase na Fiorentina.

A Argentina produziu alguns dos centroavantes mais ferozes do mundo depois do título mundial em 1978. Os herdeiros de Mario Kempes se espalharam pelo futebol do país e demonstraram que o mercado local era rico em goleadores dos mais diferentes tipos: os paradões, os dribladores, os tanques e os fenômenos como Gabriel Batistuta.

Oscar Dertycia era um destes jogadores de enorme talento que foram revelados no período pós-Kempes. Nascido e criado em Córdoba, o atacante surgiu no Instituto, em 1982, e fez sua carreira deslanchar com gols e lances brilhantes. Em suas seis primeiras temporadas, Dertycia anotou 89 gols.

Contra Ruggeri, pelo Instituto: Dertycia virou sinônimo da equipe cordobesa na década de 1980

O ótimo desempenho rendeu marcas históricas no clube e uma transferência para o Argentinos Juniors, em 1988. Três anos antes, o Bicho havia sido campeão da Libertadores em grande forma. Oscar não decepcionou e anotou 20 gols em 34 partidas, definitivamente se apresentando como um titular seguro para qualquer equipe.

Forte pelo alto, rápido nas investidas pelo chão e ótimo finalizador: Dertycia tinha tudo para vingar fora da Argentina. Em 1989, a Fiorentina lhe fez uma proposta irrecusável, no que seria a primeira grande experiência do goleador em solo estrangeiro. Mas a mudança para Florença não trouxe bons ventos. No primeiro semestre longe de casa, o argentino experimentou do inferno.

Napoli e Fiorentina duelavam pela Copa da Itália em janeiro de 1990 e Dertycia levou a pior em uma dividida com Maradona. O atacante da Viola estava com os pés presos ao chão e teve rompimento dos ligamentos do joelho. Nesse processo, ficou quase dez meses fora de combate e isolado, longe dos amigos. O estresse e as dificuldades pessoais (sua esposa ficara doente) causaram um impacto enorme: Oscar desenvolveu alopecia nervosa, perdendo todos os cabelos do seu corpo rapidamente.

Mr. Clean

Completamente careca e de saída da Fiorentina, Dertycia se transferiu para o Cádiz, da Espanha. Logo de cara, ganhou um apelido por parte da torcida: Mister Proper (Mr. Clean, em outros países) em alusão a um produto de limpeza que tinha um homem completamente careca como mascote. Apesar do abalo na autoestima em virtude do problema capilar, o argentino seguiu em frente para retomar sua carreira, estreando pelo Cádiz em dezembro de 1990. O desempenho foi elogiável. Autor de seis tentos, Oscar salvou o time do rebaixamento e recuperou o bom humor.

Na temporada seguinte, foi repassado ao Tenerife, se estabelecendo como titular ao lado de outros conterrâneos como Juan Antônio Pizzi e Fernando Redondo. Mais uma vez o goleador foi crucial para evitar o rebaixamento e o Tenerife eventualmente encontrou o caminho da segurança.

Em seu segundo ano com os blanquiazules,  em 1992-93, Mister Proper impulsionou a grande campanha do quinto lugar na Liga, garantindo uma classificação para a Copa Uefa. Mas o impacto maior foi mesmo contra o Real Madrid, na última rodada. O Tenerife venceu por 2 a 0 (gols de Dertycia e Chano) e condenou os madridistas ao vice-campeonato, na hora H. O Barcelona se aproveitou do tropeço e ficou com o título no apagar das luzes. Até hoje o povo das Ilhas Canárias se recorda do castigo imposto pelo careca aos poderosos do Real.

A melhor forma de Dertycia na Europa, após a lesão, foi mesmo em 1993-94, quando se despediu do Tenerife. Foram 13 gols marcados para garantir a idolatria da torcida. Meses depois, assinou com o Albacete, em sua última temporada no exterior. Em 1995, Oscar fez o caminho de volta para casa e assinou com o Talleres, reencontrando-se com a velha rotina em Córdoba. Com quase trinta anos e ainda carregando as sequelas da lesão no joelho em 1990, o careca perdeu a mobilidade, mas adaptou seu jogo.

O fim da linha

Oscar foi muito bem no Talleres, rival do Instituto, com 19 gols, o que quase ameaçou sua relação com o seu clube formador. Ele conseguiu acabar com este problema quando assinou contrato com os alvirrubros em 1996 e marcou contra o Talleres em seu primeiro dérbi cordobês.

Com toda a experiência adquirida em sua carreira, o goleador teve sua importância na segunda passagem pelo Instituto, embora guarde consigo a frustração de não ter alcançado a marca dos 100 gols com a camisa do seu time do coração, como desejava desde menino. Depois de passagens fracas por Deportes Temuco, do Chile, e General Paz Juniors, na Argentina, Dertycia resolveu encerrar seu ciclo como futebolista no modesto Coopsol de Trujillo, do Peru. Fez incríveis 24 gols e saiu por cima, em 2002.

Careca por destino, não por opção, Dertycia certamente poderia ter sido lembrado por defender grandes clubes. Por outro lado, a alopecia ainda é uma história muito mais curiosa do que seus gols ou passagens por equipes modestas na Espanha e na própria Argentina. Sem nunca ter dado alegrias às maiores hinchadas como as de Boca Juniors ou River Plate, Oscar Dertycia tem um enorme mérito: ser ídolo na cidade onde nasceu Mario Kempes, sua grande inspiração como jogador.

Referências: El Gráfico, Diário As, Wikipédia, Youtube, OGol, Cadena Ser

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