O mito de Dalla Bona, o craque do Chelsea que nunca estourou

Lançado a partir da base do Chelsea em 1999, o italiano Sam Dalla Bona despontou para a Premier League como um meia versátil e prestes a ganhar o mundo sob a tutela de Gianfranco Zola. Mas as más decisões e a saída precoce da Itália prejudicaram a sua carreira.

O Chelsea ainda caminhava para ser uma equipe de enorme prestígio e fortuna no futebol inglês. Conhecido por atrair jovens de todo o mundo para a sua categoria de base, o clube tirou um promissor meio-campista da Atalanta, no fim dos anos 1990. Foi a primeira de muitas transações envolvendo atletas sub-18, o que a Fifa passou a condenar na década seguinte.

Os olheiros dos Blues foram até Bérgamo para atrair um jogador diferenciado, fortalecendo ainda mais a noção de que o sistema de observação funcionava. Samuele Dalla Bona tentava a sorte nos campos ingleses em 1998, depois de fazer algumas partidas pelo Primavera da Atalanta. Tinha 17 anos.

Em uma temporada, Dalla Bona fez sucesso no sub-23 do Chelsea: capitão e principal nome das equipes jovens, tinha a companhia da turma italiana que vinha fazendo sucesso no profissional: Zola, Vialli, Casiraghi e Di Matteo. Marcando 16 gols, foi logo promovido ao time principal na segunda metade da temporada 1998-99. Aos poucos, Sammy se apresentava como uma peça interessante para o setor. Com apenas três jogos, o italiano teve de aguardar até a temporada seguinte para se estabelecer entre os titulares.

Foram 32 jogos disputados, com um início tímido. Mas a partir do duelo com o Liverpool, em 30 de setembro, Dalla Bona não saiu mais do time de Claudio Ranieri. E marcou dois gols contra Everton e Bradford, pela Premier League. Incisivo, bom marcador e com a função de articular o jogo na intermediária, Sammy desfrutava de reconhecimento da torcida. No ano anterior, foi coroado como o melhor jogador jovem no Chelsea e entendia que era a hora de subir mais um degrau rumo ao estrelato.

Saudade de casa

Na sua segunda temporada vestindo azul, Dalla Bona se firmou e alcançou a marca de quatro gols em 38 partidas. Ranieri não cogitava tirá-lo do time enquanto o papel do jovem fosse tão efetivo. Entretanto, o Chelsea demonstrava uma forma irregular. Com Dalla Bona em campo, o aproveitamento foi de 19 vitórias, 11 empates e oito derrotas, morrendo na praia da Premier League, nas semifinais da Copa da Liga e sendo vice-campeão da Copa da Inglaterra, em derrota para o rival Arsenal. Sammy não foi escalado para a decisão.

A tendência era que o italiano ficasse em Stamford Bridge para continuar sua ascensão, mas as conversas pela renovação de contrato não tiveram progresso e ele forçou a barra para voltar à Itália. Nos últimos meses da temporada, Dalla Bona ficou jogando entre os reservas e entrou em rota de colisão com Ranieri, que planejava utilizá-lo com frequência no futuro. Samuele não se sentia mais em casa na cidade de Londres e precisava atender à sua necessidade de voltar para a terra natal. No meio do ano em 2002, veio a proposta dos sonhos: o Milan levou o atleta de 22 anos para reforçar o elenco que buscava mais um título europeu.

Recheado de astros, o Milan de fato conseguiu arrancar para a glória naquele ano. Venceu a Juventus nos pênaltis, em Old Trafford, para levantar o troféu da Liga dos Campeões sob o comando de Carlo Ancelotti. Como era preciso ter um plantel variado para disputar todas as três frentes, Ancelotti utilizou Dalla Bona como titular em sete ocasiões, a última contra o Piacenza, pela Serie A. E o menino das longas madeixas louras marcou apenas um gol, diante do Chievo, em goleada por 5 a 2 no San Siro.

Os sonhos europeus de Samuele duraram até as quartas de final, quando ele apareceu no banco contra o Ajax e viu do lado de fora a vitória por 3 a 2 que classificou a equipe rossonera. Creditado com o título da Champions e da Copa da Itália ao fim da temporada, ele pouco fez para acrescentar algo a essas conquistas e só participou de quatro minutos do jogo de ida contra a Roma. Começava um período de pleno arrependimento para o ex-Chelsea.

Decadência e últimos passos

Campeão europeu e da Itália com o Milan, Dalla Bona foi repassado ao Bologna e iniciou uma verdadeira peregrinação por equipes menores do país, em 2003. Foi de porta em porta, passando por Lecce, Sampdoria e Napoli. Parou por três temporadas em Nápoles, mas o momento não era bom. O clube disputava a Serie B depois de se reformular da queda e falência no início da década de 2000.

O contrato de quatro anos representou alguma expectativa para Sammy, que amadureceu e teve tempo suficiente para refletir sobre sua vida no esporte. Ele nunca mais foi protagonista ou mero coadjuvante, era só mais um. Assim foi por três temporadas no San Paolo, jogando efetivamente em apenas duas. Na terceira, foi sacado por deficiência técnica e deixou o clube.

As portas se fecharam para Samuele na Inglaterra. Foram dois testes sem resultados em Fulham e West Ham e ele voltou com as malas para a Itália, completamente desprestigiado, sete anos depois de sair pela porta dos fundos em Stamford Bridge. Sobrou muito pouco para o italiano, em todos os sentidos. Passagens fraquíssimas pelo Iraklis da Grécia e pelo Verona enterraram a carreira do meia antes mesmo dos 30 anos. Nem mesmo o reencontro com a Atalanta, em 2010, serviu para amenizar a sensação de desperdício. Para piorar, a perda do pai em 2011 trouxe um quadro de depressão a Dalla Bona, enquanto ele defendia a equipe que lhe formou.

Por alguns meses, Sammy simplesmente desistiu de jogar futebol. E só mudou de ideia em 2012, assinando brevemente com o Mantova. Não foi a mesma coisa. O último clube defendido pelo italiano foi o modestíssimo Mosta, de Malta, em 2013. Desde então, o ex-jogador se lançou nos estudos para se tornar um treinador. Em 2014, Dalla Bona deu uma entrevista à Gazzetta Dello Sport que é o retrato perfeito de sua trajetória como profissional: “Se eu pudesse voltar no tempo, teria ficado no Chelsea para sempre. Na Itália, o futebol é repulsivo em todos os lugares. A pressão, a mentalidade, tudo. Eu não fui feito para isso.” Coisas que só a maturidade pode elucidar. Mas obviamente, era tarde demais para reconhecer que a carreira foi jogada no lixo.

Tanto tempo depois, torcedores do Chelsea se perguntam o que poderia ter sido de Samuele Dalla Bona caso ele permanecesse em Londres. Talvez não chegasse aos pés de Lampard ou de Zola, mas certamente teria um espaço especial na história da agremiação.

Referências: Site oficial Chelsea, Goal, We ain’t got no history (SB Nation), Gazzetta Dello Sport, Wikipédia, OGol

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