O mundo incompleto do jovem Sonny Pike

Lançado ao estrelato antes mesmo de iniciar sua carreira como futebolista, o inglês Sonny Pike se transformou em celebridade durante a infância. Atormentado por problemas particulares e uma ruptura de sua família, o jovem nem sequer estreou em nível profissional, escrevendo uma história de frustração e exploração.

Certas crianças carregam o destino de uma família nas costas. O talento e a aptidão para o esporte representam uma mina de ouro em potencial. O herdeiro, então, começa a ser tratado como um astro muito antes da hora. Nestes casos, não há muito o que se possa fazer além de blindar o garoto para que ele não se perca no caminho. O problema é que esta não costuma ser uma preocupação de pais ou agentes.

Sonny Pike nasceu com o futebol bem perto de sua família. Sobrinho de Mark Falco, que teve sua melhor fase pelo Tottenham durante os anos 1980, o menino despontou para a fama na década de 1990, descoberto na infância por seu potencial. E a história não poderia ser pior, depois de tantas campanhas, comerciais e quedas de braço entre agentes. Antes mesmo de saber por qual clube gostaria de jogar, Sonny fazia sua graça e era apontado como o próximo grande craque mundial.

Evidente que não basta só saber como se portar dentro de campo. É preciso querer, ter alguma maturidade e não se deixar levar pela empolgação. Pressionado pelo pai para seguir carreira no esporte, o pequeno Pike era o rosto infantil que representava o que o futebol poderia se tornar na virada do milênio. E qualquer nota sobre o jovem gênio trazia a alcunha e a responsabilidade de um novo Maradona. Aos sete anos, um contrato com o Ajax serviu como incentivo para levar adiante a empreitada.

Sonny tinha um desempenho absurdo nas competições que disputava. Se dizia inspirado em Dennis Bergkamp. E chamou a atenção de diversos olheiros em torneios escolares, excursões para o exterior, se sobressaindo entre milhares de outros meninos que procuravam uma chance. Números não importam muito agora. O que se sabe é que Pike jamais vestiu a camisa de algum time enquanto profissional.

A ganância do pai, Mickey, teve peso maior do que o despreparo de Sonny na caminhada. Em entrevista à rádio inglesa Talk Sport, em 2016, o ex-futuro meia inglês revelou o lado negativo da influência paterna em seu desenvolvimento. Mickey se viu seduzido pela publicidade em torno do filho e trabalhou para aumentar consideravelmente a renda, sem se preocupar com os fatores desportivos e emocionais. Voltamos ao ponto da mina de ouro, da chance de uma vida.

Quando Mickey se separou da mãe de Sonny, as coisas estavam relativamente encaminhadas: o garoto tinha o patrocínio de grandes marcas e até mesmo um seguro de 1 milhão de libras nas pernas. Caso alguma lesão grave o tirasse de campo, a família poderia ficar confortável com a quantia. Em toda essa loucura precoce, o inglês fez uma viagem para Amsterdã, onde defendeu o time infantil do Ajax por alguns jogos. Mas isso nunca foi questão de escolha: Mickey obrigou o filho a aceitar o convite e ele se viu inadaptado na Holanda, apesar de ter mostrado serviço. A passagem pelo Ajax rendeu até uma brincadeira entre os profissionais durante um treino.

Extremamente pressionado para trilhar um caminho de glórias no futebol, Sonny cedeu. E as partidas que fez como teste em equipes da Inglaterra não agradaram ninguém. Nem a ele mesmo, que se sentia deslocado e perdido na vida. O divórcio dos pais foi uma quebra irreparável e o adolescente apresentou quadros de depressão e tendências suicidas, aos 17 anos.

Por causa do pai, Sonny também foi banido por um ano pela Football Association, em 1996. Vinculado ao Leyton Orient, o menino fez uma partida pelo Chelsea, convidado por um dos treinadores juvenis dos Blues. A FA soube da tramoia porque Mickey estava acompanhado de um jornalista do Channel Four, que fazia um documentário sobre as ambições estelares da família Pike. Quando o material foi para a TV, o estrago estava feito. Essa negligência custou caro e foi a primeira grande mancha na vida desportiva de Sonny.

De repente, a atração de TV em torno de uma criança prodígio não vendia mais. Os patrocinadores não queriam embarcar em uma história de fracasso. E Sonny perdeu toda a vontade de viver da bola, entrando para a triste estatística dos garotos que não conseguem ultrapassar a barreira do primeiro contrato profissional. Como se não tivesse feito nada de bom antes, ele foi descartado e não deu o ar de sua graça em qualquer campo minimamente relevante ao redor da Europa.

Rodando por times amadores da Inglaterra, o herdeiro dos Pike viveu anos complicados longe dos holofotes, lutando contra a depressão e afastado do pai, a quem atribui responsabilidade por destruir sua juventude. Em seu curto período como futebolista, Sonny adotou o nome de batismo, Luke, como forma de escapar de qualquer assédio. Mas o público sabia com quem estava lidando e as ofensas e ameaças eram recorrentes.

Depois de abandonar o futebol, em 2006, o ex-novo Maradona dos anos 1990 fez bicos como taxista e carpinteiro. Casado e com dois filhos, vive como um cidadão normal em Londres, sem ter qualquer contato com o pai. Há no futebol a obsessão por encontrar os legítimos sucessores de nossos grandes craques, mas enquanto o dinheiro e a ganância estiver à frente do bem estar de um jovem astro, continuaremos contando histórias bem parecidas com a de Sonny Pike.

Referências: Guardian, When Saturday Comes, Wikipédia, Youtube, The Independent

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