O ritual que deu forças ao Chile na Copa do Mundo de 1962

Para encarar sua primeira grande participação em Mundiais, o Chile não quis ser apenas um mero anfitrião. Preparada para os desafios que viriam pela frente, a seleção chilena fez uma série de rituais antes das partidas, apreciando especiarias nacionais de seus adversários. A tática estava dando certo, até que o Brasil apareceu pelo caminho.

Acertou quem disse que o Chile é freguês do Brasil desde os primórdios da bola de couro. Em 1962, quando recebeu a Copa do Mundo, a Roja se impôs por meio de muita disciplina, seguindo os ensinamentos do lendário treinador Fernando Riera. Aquele Mundial, apesar da dolorosa derrota nas semifinais contra o Brasil, traz boas lembranças aos chilenos, que fizeram um excelente papel.

Saindo de um grupo complicadíssimo, o Chile ficou com o segundo lugar e ganhou a chance de disputar as partidas de mata-mata. Com a força de sua torcida, a seleção da casa empolgou e sonhou em repetir o feito da Suécia, que disputou a final quatro anos antes, em seus domínios.

Conhecendo o inimigo

Para traçar este caminho memorável em sua história no futebol, o Chile encarou o torneio de 1962 de uma maneira diferente, quase como um experimento antropológico. Por ordem de Riera, antes do jogo contra a Suíça, na estreia, os atletas comeram vários pedaços de queijo. A ideia era fazer com que eles se aproximassem dos rivais por meio de especiarias tradicionais de cada país. O grupo 2 também contava com a Alemanha Ocidental e a Itália, duas campeãs mundiais. A batalha pela consagração dos pupilos de Riera começou bem: em 30 de maio de 1962, o Chile castigou a Suíça e venceu por 3 a 1, gols de Leonel Sánchez (2x) e Jaime Ramírez.

O ritual funcionou de alguma forma. A comilança se repetiu para a segunda rodada, contra a Itália. Na véspera, a delegação jantou um bom prato de macarronada antes de pegar os bicampeões do mundo. O problema é que o clima já não estava muito amistoso. Jornalistas italianos relatavam as condições precárias das instalações de imprensa e provocaram o povo chileno dias antes do confronto com insultos que cidadão nenhum ignoraria, reportando que “as ruas estavam infestadas de prostitutas e a sociedade local se orgulhava de ser miserável”. Ignoraram, no entanto, que o país ainda se recuperava de um terrível terremoto em 1960, o maior já registrado na história da humanidade.

Em face disso, os jornais do Chile rebateram as acusações e ofensas no mesmo nível, chamando os italianos de “mafiosos, fascistas e drogados”. Isso só piorou a atmosfera para a partida, que foi disputada em Santiago. O time de Riera tentou ficar alheio a estas questões, mas o primeiro golpe veio cedo: aos 12 minutos, Giorgio Ferrini foi expulso pelo lado da Squadra Azzurra. A partir desse momento, vários pequenos episódios de violência se se acumularam e viraram uma bola de neve que passou por cima do espetáculo. O Chile venceu por 2 a 0 (Ramírez e Jorge Toro), mas a briga manchou completamente o lado desportivo.

A Batalha de Santiago

Socos na cara, chutes na cabeça e outras agressões foram rotina ao longo dos 90 minutos, com péssima condução do árbitro Ken Aston. Pronta para bater e intimidar, a Itália esqueceu completamente o futebol e partiu para a ignorância contra os donos da casa, que não aceitaram as pancadas de maneira passiva. Sánchez, depois de levar dois ou três pontapés na linha de fundo, revidou com um murro na cara de Mario David.

A Itália terminou a partida com uma derrota significativa e dois jogadores expulsos: David (após uma voadora na cabeça de Sánchez) e Ferrini foram para o vestiário antes mesmo do intervalo. O Chile não apanhou calado, mas saiu impune e não teve nenhuma baixa disciplinar. Por fim, Sánchez protagonizou outro gesto vingativo, quebrando o nariz de Humberto Maschio. E isso foi tudo.

Quatro anos mais tarde, o árbitro inglês Ken Aston inventou os cartões amarelo e vermelho em virtude de um duelo igualmente violento entre Inglaterra e Argentina na Copa de 1966. O sistema foi implementado oficialmente pela Fifa na Copa do Mundo de 1970, no México.

O Chile já estava classificado com as duas vitórias e fez apenas um confronto protocolar contra os alemães. Não houve relato de nenhuma bebedeira de cerveja ou um jantar à base de chucrute. E o placar foi desfavorável: 2 a 0 para os visitantes, com gols de Horst Szymaniak e Uwe Seeler. Pela frente, nas quartas de final, o adversário dos donos da casa foi ainda mais duro: a União Soviética, campeã europeia de 1960 e com um temido esquadrão liderado pelo goleiro Lev Yashin e pelo atacante Valentin Ivanov.

Depois de algumas doses de vodka para apaziguar os ânimos, o Chile entrou em campo na cidade de Arica e fez a sua parte, vencendo os soviéticos por 2 a 1. Sánchez e Eladio Rojas marcaram os gols da vitória, ainda no primeiro tempo. A URSS chegou a oferecer certa dificuldade com o gol de Igor Chislenko, após a abertura do placar, mas os esforços foram insuficientes para barrar o ingresso da Roja ao grupo dos quatro melhores do torneio. Riera manteve a sua filosofia para a semifinal diante do Brasil.

Fim de festa

Vavá comemora um de seus dois gols contra o Chile. A saga dos anfitriões acabava diante da camisa canarinho

Entre tantas opções possíveis para representar a cultura brasileira, a delegação chilena optou por incluir o café no banquete da véspera. Muito pouco para quem queria derrubar os defensores do título. Mesmo sem Pelé, lesionado ainda na fase de grupos contra a Tchecoslováquia, o Brasil era superior. Tantas estrelas na equipe de Aymoré Moreira fizeram a diferença em um jogaço no Estádio Nacional de Santiago. Garrincha e Vavá fizeram dois gols cada e eliminaram os donos da casa. Com a derrota por 4 a 2, o Chile saía de cabeça erguida de uma campanha inesquecível.

O terceiro lugar conquistado contra a Iugoslávia, por 1 a 0, foi o ponto final de uma Copa mística para o Chile e que teve seus altos e baixos até o encerramento. Riera, o mestre por trás da campanha e dos rituais, saiu do país para treinar o Benfica e iniciou uma jornada no comando de tantos outros clubes ao redor do mundo.

Nas suas últimas três participações em Copas (1998, 2010 e 2014), o Chile foi eliminado pelo Brasil. O quadro se agravou com a derrota por 3 a 0 na última rodada das Eliminatórias para a edição de 2018, na Rússia. Com ou sem café na véspera, essa relação entre Brasil e Chile continua tendo apenas um mestre.

Referências: Fifa, Guardian, Wikipédia, Youtube, BBC

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