O combustível secreto dos anos dourados de Clough no Forest

Qual é o verdadeiro combustível dos campeões? Motivação, coragem ou álcool? O Nottingham Forest de Brian Clough tem uma relação estreita com a bebida, desde o primeiro título europeu, conquistado em 1979, até o fundo do poço, em 1993. A fama de alcoólatra perseguiu o técnico mesmo depois de sua aposentadoria.

Brian Clough, no alto de sua genialidade e seu caráter bem humorado, demorou para abandonar o alcoolismo. Sempre visto com taças, seja as de prata ou as cheias de whisky, o treinador passou pelo menos 30 anos de sua vida entre um copo e outro e isso lhe custou caro. Quase dois anos depois de um transplante de fígado, o memorável comandante do Nottingham Forest caiu em virtude de um câncer no estômago. Mesmo com todo esse contexto da luta contra o vício, a cervejaria Castle Rock, de Nottingham, lançou em 2016 uma tulipa de cerveja especial em homenagem a Clough.

Em setembro de 2004, morria um ícone do futebol simples, das tiradas irônicas e das façanhas inigualáveis. Clough colocou Derby County e Nottingham Forest no mapa dos campeões ingleses e ainda acrescentou ao seu legado dois títulos europeus com os Reds, em 1979 e 80, acompanhado por diferentes bebidas. Nos tempos de Derby, por exemplo, os diretores do clube precisaram trancar os armários de bebida para que Brian e seu parceiro Peter Taylor não esgotassem o estoque, algo que Taylor admitiu anos depois, já no Forest. A saga deste time, aliás, provavelmente não seria a mesma entre 1975 e 93, não fosse por uma ajudinha do álcool.

1978: A arma secreta contra o Liverpool

Logo na primeira fase da Copa dos Campeões, em 1978-79, o Forest estreava contra o defensor do título, o Liverpool, que botava medo em qualquer time ao redor do mundo. Mas no primeiro jogo entre os eles, os comandados de Clough venceram por 2 a 0 e conseguiram enorme vantagem. Bastava decidir tudo em Anfield, o alçapão que fervia quando Kenny Dalglish dominava a bola. Aquele time de Bob Paisley parecia invencível.

A caminho de Liverpool, a delegação estava tensa para o jogo de volta. O time pegou a estrada e os jogadores não trocavam sequer uma palavra, tamanha tensão envolvida. Afinal de contas, o Forest ainda era apenas um intruso entre os campeões nacionais e estava prestes a fazer o grande jogo de sua história, por um torneio europeu, contra um dos maiores times que o esporte já viu.

Clough percebeu a situação e mandou o ônibus parar em um pub no meio do caminho. Ordenou que todos os atletas tomassem ao menos um copo de cerveja. Assim que chegaram ao hotel, pouco antes de dormir, Clough deu outra ordem: um copo de vinho, para resolver de vez o problema da ansiedade. No dia seguinte, pisando nas nuvens, o elenco segurou um empate sem gols contra o Liverpool e avançou. Meses depois, se sagrou campeão europeu contra o Malmö, em Munique.

1979: Porre de champagne na véspera

Irresistível, o Forest de Clough também conquistou a Copa da Liga em 1979, em cima do Southampton. Como em qualquer outra final, o time foi convocado para uma preleção especial de Brian, na véspera. Já era noite no hotel onde a delegação estava hospedada, em Londres. Cloughie reuniu titulares e reservas no seu quarto e trancou a porta. Mas assim que o último homem se acomodou, veio a surpresa: o treinador estava ao lado de uma caixa de champagne e disse que ninguém sairia sóbrio dali.

Obviamente, alguns se recusaram, como John O’Hare, que preferia um pouco de Bitter. Clough, sem pestanejar, saiu do quarto e voltou com várias doses da bebida. A proposta deu certo e os jogadores de vermelho passaram uma noite tranquila para encarar a decisão. O jogo, no entanto, foi complicado: Birtles marcou duas vezes e Woodcock, que havia sido carregado até a cama, anotou o terceiro. O Forest venceu por 3 a 2, de virada, e se sagrou campeão em Wembley

1991: O suco amargo de Sheringham

Teddy Sheringham estava buscando reconhecimento no cenário inglês quando assinou com o Nottingham Forest em 1991. Formando uma dupla de ataque com Nigel Clough, filho de Brian, o artilheiro conseguiu números elogiáveis com a camisa dos Reds. Depois de arrebentar pelo Millwall, Sheringham provou um pouco do que era ser comandado por Cloughie.

Depois de uma dura partida contra o Everton, em casa, na abertura da temporada, Teddy estava sentado nos vestiários e precisava se hidratar. Um funcionário do clube trouxe uma bandeja com vários copos de suco de laranja. Assim que viu a oportunidade, o atacante pegou um deles e bebeu rapidamente para matar a sede. Por alguns instantes, ele prendeu a respiração e sentiu o baque: era uma mistura (desequilibrada) de vodka com suco. Sheringham não teve dúvidas de que pegou o copo de Brian por engano, apesar do chefe nunca ter admitido que a bebida fosse dele.

Naquela temporada, o Forest conseguiu um honroso oitavo lugar, mas a decadência e os problemas extracampo de Clough se provaram letais. Em 1993, na despedida do treinador, os Reds foram rebaixados. E ele nunca mais treinou outra equipe.

Referências: Guardian, Daily Mirror, “Nobody ever says Thank you” (Jonathan Wilson, Wikipédia, oGol

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