O Colo-Colo que se redimiu de sua maior frustração continental

Treinado pelo croata Mirko Jozic, o Colo-Colo de 1991 superou o trauma de ter perdido a final da Libertadores de 1973 e se remontou para honrar o grande time de Carlos Caszely. O título daquele ano foi a cereja no bolo de uma geração predestinada.

Em 1973, o Colo-Colo não conseguiu superar o Independiente na decisão da Libertadores. Na ocasião, o Rojo estava estabelecendo uma hegemonia que durou quatro anos e a equipe liderada por Carlos Caszely e Leonardo Véliz não suportou a pressão de lutar contra um grande campeão. Apesar da fantasia proporcionada pelo Cacique setentista, famoso pela agressividade e por suas goleadas, o clube falhou em levar a Copa para Santiago. E não teve outra chance de provar seu valor com aqueles jogadores.

A redenção veio quase duas décadas depois, com outra geração igualmente vitoriosa. A solução para o banco de reservas vinha da Croácia: Mirko Jozic, um especialista em formar equipes de base. Campeão mundial sub-20 com a Iugoslávia, em 1987, Mirko ficou conhecido como o responsável pelo lançamento uma talentosíssima turma de jogadores, mas eles infelizmente não puderam demonstrar pleno potencial pela seleção em virtude da Guerra dos Bálcãs e da dissolução da Iugoslávia. Meses depois, o croata foi procurado por dirigentes do Colo-Colo para ser coordenador da base e aceitou o convite.

Jozic e a arrancada

A primeira função de Jozic era basicamente observar novas promessas e desenvolver o futebol de jogadores abaixo dos 20 anos. Desde 1972 ele não trabalhava com profissionais, mas a chegada ao Cacique mudou os rumos de sua carreira. Em 1988, Mirko voltou à Croácia para reencontrar a família, que não se mudou com ele para o Chile. Como as tensões nos Bálcãs se tornaram insustentáveis sob a gestão de Milosevic, o treinador foi novamente contratado pelo Colo-Colo, mas agora como substituto de Arturo Salah, no time principal, em setembro de 1990. E os alvinegros nunca mais foram os mesmos.

O novo chefe mudou o jeito de jogar e deu resultado. Campeão chileno em 1990, o Colo-Colo disputou a Libertadores de 1991 e foi até o final. A espinha dorsal do time era composta pelo goleiro Morón, os defensores Margas e Garrido, o volante e capitão Pizarro, os meias Yañez, Espinoza e Peralta, os atacantes Barticiotto, Dabrowski e Martínez, sem falar no talismã Pérez, que apareceu para decidir justamente no último jogo. A disciplina tática fez do Colo-Colo um adversário duríssimo no ano de 1991.

Ao lado do Deportes Concepción, da LDU e Barcelona de Guayaquil, o Cacique largou com um empate sem gols com os seus conterrâneos do Concepción, fora de casa, em fevereiro de 1991. Na virada para março, o time de Jozic recebeu o Barcelona e fez bonito, vencendo por 3 a 1. Triunfos consecutivos contra o Concepción e a LDU (2 a 0 e 3 a 0) colocaram os alvinegros em ótima condição para avançar de fase. Mais dois empates fora de casa diante dos equatorianos serviram para que o Colo-Colo ficasse com a primeira colocação. Rumo à fase final.

O sangue dos campeões

Nas oitavas, os chilenos superaram o Universitario do Peru graças a uma vitória por 2 a 1 em Santiago. Pela fase seguinte, um atropelamento contra o Nacional: Martínez, Dabrowski (2x) e Espinoza destruíram o Bolso em casa. Mesmo com uma vitória por 2 a 0 em Montevidéu, os uruguaios não conseguiram encostar no agregado. O desafio maior, no entanto, veio contra o Boca Juniors, nas semifinais. A equipe de Latorre e Batistuta acabou não sendo páreo para os pupilos de Jozic. Na ida, vitória boquense por 1 a 0, gol de Graciani.

A revanche marcou a imposição da esquadra colocolina diante dos visitantes. Irresistível, o Cacique castigou o Boca com o placar de 3 a 1, com gols de Martínez (2x) e Barticiotto. A atuação foi no limite, com muita agressividade e várias chances de gol criadas pelos mandantes no Monumental David Arellano. A defesa xeneize simplesmente não conseguiu lidar com a carga.

Ao fim da partida, uma invasão de campo irritou os visitantes, que partiram para a pancadaria. A polícia entrou com alguns cachorros no gramado e tentou conter o ânimo dos argentinos. Nesta hora, o goleiro Montoya foi mordido por um dos cães, revoltando a delegação boquense. Depois de muitos socos e pontapés trocados, o confronto ficou conhecido como “Batalha de Macul” e marcou um episódio lamentável na história dos dois clubes.

A barbada de Santiago

Na final, o Colo-Colo teve a chance de desafiar o então campeão Olimpia para buscar a taça. Em 29 de maio, no Defensores del Chaco, empate sem gols. Tudo seria resolvido no calor do Monumental, em Santiago. Sem Martínez, expulso na ida em Assunção, Jozic resolveu promover a entrada de Pérez, o substituto com a responsabilidade de jogar os 90 minutos mais importantes de sua vida.

Em 5 de junho de 1991, não demorou para que o Cacique tomasse conta do jogo em seus domínios. Aos 12, o iluminado Pérez marcou o primeiro, em lance de oportunismo dentro da área. A troca de passes do Colo-Colo era em ritmo vertiginoso e o Olimpia não conseguiu acompanhar os ataques. Cinco minutos após o primeiro gol, Barticiotto desceu pela direita e cruzou para a área. Pérez matou no peito, enganou o defensor e fez um senhor golaço para encaminhar o título chileno. Ao longo da segunda etapa, a pressão colocolina deu resultado para fechar a noite: Herrera recebeu passe de Barticiotto e consolidou os vencedores da edição de 1991 na Libertadores.

Referências: O Futebólogo, Puntero Izquierdo, Wikipedia, Ogol, RSSSF, Youtube e Conmebol

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