O ano em que o Olimpia impulsionou a glória do futebol paraguaio

Apenas um time paraguaio percorreu a longa estrada até o título da Libertadores. Campeão da América em 1979, o grande Olímpia colocou o seu país no mapa do futebol e ainda fez um ensaio para o título dos paraguaios na Copa América, ao fim do ano.

A primeira edição da Libertadores, em 1960, teve o Peñarol como vencedor, em final contra o Olímpia, em dois jogos. Os carboneros levaram a melhor com apenas dois jogos, após uma vitória em casa e um empate fora. Era um indício de que os paraguaios dariam muito trabalho ao longo da história da competição. De fato deram, mas somente o Olimpia, entre todos os clubes paraguaios, conseguiu chegar até o último estágio do torneio e lutar pela taça.

O Decano participou de sete finais em sua história, vencendo três e perdendo outras quatro. Desde os primórdios, sabe-se que a equipe alvinegra traz consigo uma enorme parcela do orgulho do futebol paraguaio, subestimado pelas outras forças continentais. Mas em 1979, este papel de coadjuvante mudou de uma vez por todas. Credenciado como campeão nacional em 1978, o time treinado pelo craque Luís Cubilla precisava reagir depois de campanhas ruins nas edições anteriores da Libertadores.

Os primeiros passos

Fazendo valer uma campanha inspirada do capitão Talavera, de Villalba, Isasi, Kiese, Torres, Aquino e o goleiro Éver Almeida, o Olimpia estreou diante do Sol de América, com vitória por 2 a 1, em 23 de março de 1979. Até aí, nenhuma surpresa. Na rodada seguinte, os alvinegros arrancaram um grande resultado em Cochabamba, contra o Jorge Wilstermann, por 2 a 0. Talavera e Isasi definiram o jogo para os visitantes.

A terceira rodada, contra o Bolívar, reservou a única derrota da primeira fase, pelo placar de 2 a 1. Kiese marcou o gol solitário dos paraguaios. Em duelo de conterrâneos, na jornada seguinte, o Olimpia levou a melhor outra vez sobre o Sol de América, fora de casa, graças a um gol de Delgado. Para decretar a classificação, uma bela exibição no Defensores del Chaco: 4 a 2 em cima do Jorge Wilstermann, de maneira incontestável. Isasi e Villalba marcaram dois tentos cada. Encerrando a participação na chave, o Olimpia surrou o Bolívar e deu o troco em ritmo alucinante. Três gols a zero, fora o baile: Villalba anotou um e Isasi fez os outros dois. Vítima de um bombardeio, o time boliviano mal viu a cor da bola.

À espera da final

Quando avançou ao triangular semifinal, o Olimpia teve o Guarani e o Palestino pelo caminho. Mas não se intimidou e começou batendo no Bugre em Assunção. Villalba e Paredes garantiram os primeiros dois pontos dos alvinegros na chave, em placar de 2 a 1. Miltão diminuiu para os campineiros. Na viagem ao Chile, o Olimpia também não teve pena do Palestino e impôs uma vitória por 2 a 0 no território adversário, praticamente garantindo a participação em mais uma final. Talavera foi o homem do jogo, responsável pelos dois gols.

Em casa, com tranquilidade, o Decano atropelou novamente o Palestino e comemorou com antecipação a vaga: Kiese, Talavera e Varas (contra) definiram o marcador. O último jogo contra o Guarani, em Campinas, teve empate em 1 a 1, mas já não valia nada. Os quatro duelos foram mera formalidade: o Olimpia não tinha como não liderar a chave com um desempenho tão superior aos demais, chegando ao gol adversário sem a menor dificuldade. Fosse por meio de troca de passes, dribles em velocidade ou cruzamentos, o time de Cubilla demonstrava ter amadurecido bastante na transição para a segunda fase.

Matando um gigante

Em 22 de julho de 1979, o Olimpia encarou o Boca Juniors em casa, pela primeira partida da decisão. Do outro lado, os xeneizes vinham embalados por dois títulos consecutivos em 1977 e 78. O futebol argentino, na época, tomava conta da Libertadores. Estudiantes, Independiente e Boca Juniors acumularam conquistas em série, impondo uma longa hegemonia. Na edição de 1976, o Cruzeiro de Raul, Nelinho, Jairzinho, Palhinha e Roberto Batata ousou romper este domínio ao derrotar o River Plate. Três anos depois, o Olimpia desafiou os bicampeões do Boca e fez a festa em plena Bombonera.

Não foi necessário um desempate. Em Assunção, o Olimpia chocou a América do Sul ao castigar os boquenses com uma atuação sublime. Abarrotado, o Defensores del Chaco contou com apoio maciço da torcida alvinegra. Papeis no gramado, muito barulho e pressão em cima dos visitantes: o campeão estava na lona. Logo aos dois minutos, Aquino colocou o Olimpia em vantagem.

Sem dar descanso aos defensores argentinos, o Decano seguiu martelando. Em falta do meio da rua, Piazza mandou um chute forte. A bola quicou no gramado e traiu Gatti, que falhou feio e aceitou um frangaço. Era tudo que os paraguaios precisavam. Bastava segurar um empate em Buenos Aires e a taça iria finalmente ganhar o nome e o escudo do Olimpia em sua base.

Cinco dias depois, em 27 de julho, o Boca se preparou para tentar a virada. A defesa paraguaia funcionou bem, sem dar espaços à ofensiva rival. Apesar do perigo manifesto, o barbante da meta de Éver Almeida permaneceu intocável e o placar não saiu do zero. Melhor para os visitantes, que finalmente descobriram qual era o gostinho de levantar a taça.

A América paraguaia

Motivado pelo sucesso do Decano na Libertadores, o Paraguai iniciou em agosto a sua campanha na Copa América. Entre os convocados pelo técnico Ranulfo Miranda, despontavam como titulares os campeões continentais Paredes, Solalinde, Torres, Kiese, Talavera, Aquino e Isasi. A base da seleção correspondia à espinha dorsal da formação de Luis Cubilla no Olimpia. O destaque, no entanto, ficava com o meia Julio Cesar Romero, o Romerito, ídolo do Fluminense.

Valente, o Paraguai liderou um triangular com Bolívia e Uruguai, venceu o Brasil nas semifinais e passou pelo Chile de Caszely e Véliz na decisão, em três partidas. No primeiro confronto, vitória tranquila por 3 a 0 (dois de Romerito e um de Morel), em Assunção. O Chile respondeu em Santiago, com Rivas, provocando o desempate. Não houve gols no tempo normal e tampouco na prorrogação, mas o Paraguai ficou com a taça da Copa América, graças aos três gols marcados na ida. Ironicamente, a festa da seleção também se deu em Buenos Aires, mas desta vez no José Amalfitani, casa do Vélez Sarsfield.

O ano de 1979 no futebol sul-americano pertence ao Paraguai e é lembrado como a última grande glória nacional. E o Olimpia tem enorme responsabilidade neste feito histórico.

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