A saga do Independiente que teve o mais longo reinado na Libertadores

Tetracampeão sul-americano entre 1972 e 75, o Independiente alcançou a marca de seis títulos no período de onze anos. O reinado do Rojo rendeu a alcunha de “Rey de Copas” e o clube é até hoje o maior vencedor da Libertadores.

Quando o Independiente iniciou a década de 1970, o grande time do continente vestia vermelho e branco: o Estudiantes de Osvaldo Zubeldía emplacou três conquistas seguidas com um futebol eficiente e a intimidação como fator determinante para o seu sucesso dentro de campo. Para o Rojo, encarar a disputa da Libertadores não era uma novidade: em 1964 e 65, a equipe de Avellaneda bateu Nacional e Peñarol na decisão para levantar seus dois primeiros títulos

1972: O longo caminho até a terceira taça

Pastoriza e Pavoni levantam a taça do tri do Independiente, dentro de La Doble Visera, em Avellaneda

Na década seguinte, rompendo com a hegemonia dos pincharratas, o Independiente voltou a fazer da Libertadores o seu quintal. Em quatro conquistas consecutivas, alcançou seu sexto troféu em campanhas curtas, aproveitando do regulamento que favorecia os campeões.

Para se ter uma ideia: os outros concorrentes, se chegassem à final, disputariam 12 partidas ao todo. Os campeões da edição anterior, que já saíam no triangular semifinal, disputariam apenas seis ou sete, incluindo fase de grupos e finais, caso houvesse partida de desempate. Essa distorção não explica de forma isolada o que foi o Independiente de Comisso, Pastoriza, Maglioni, Pavoni e Sá que chegou ao campeonato como vencedor da Liguilla Pre-Libertadores na Argentina.

Naquela época, com poucos participantes, a disputa era acirrada e envolvia equipes que tinham os principais jogadores sul-americanos, formando a base de suas seleções. O Independiente passou invicto pela fase de grupos em 1972, ao lado de Rosario Central, Santa Fe e Atlético Nacional, com quatro vitórias e dois empates. Na segunda fase, o desafio complicou ainda mais contra São Paulo e Barcelona. Após empate com o Barcelona, fora, e uma derrota para o Tricolor, o Rojo garantiu a vaga na final dando o troco nos paulistas, por 2 a 0, gols de Balbuena e Mírcoli.

A decisão foi contra o Universitario do Peru, resolvida em apenas dois jogos. O primeiro duelo, em Lima, teve empate sem gols. Aquela Libertadores foi ganha em Avellaneda, no dia 24 de maio. Outro fato curioso: esta foi a única conquista comemorada dentro do estádio do Independiente. Os mandantes deram a volta olímpica com um triunfo por 2 a 1, graças a dois gols de Maglioni. Festa em La Doble Visera, a cancha mais temida dos anos 1970 no futebol sul-americano.

1973: O maior da América

Bochini e Bertoni: dois astros em formação com a camisa vermelha

Sem Pastoriza, que saiu para o Monaco, o Independiente começou a dar oportunidades para os mais jovens. Foi o caso de Bertoni, vindo do Quilmes, (18 anos) e Bochini (19), revelado na base, que deram o ar da graça ao longo da curta campanha em 1973. Os dois tiveram papel crucial nos dois últimos títulos daquela década.

Com o mesmo enredo da edição anterior, o Rojo pegou um grupo desafiador nas semifinais: San Lorenzo e Millonarios. Na estreia contra os colombianos, derrota por 1 a 0, gol solitário de Soto. Mas os comandados de Roberto Ferreiro foram buscar uma reação no triangular. Pavoni e Balbuena devolveram a derrota ante o Millonarios, por 2 a 0, e na sequência seguraram um empate contra o San Lorenzo, dentro do Viejo Gasómetro, por 2 a 2. A definição da vaga foi em cima do mesmo Ciclón, agora em Avellaneda. Giachello fez o único gol da noite e classificou o Independiente para a finalíssima de 1973.

Vencedor da outra chave, o Colo-Colo de Caszely ofereceu um embate duríssimo que necessitou de três jogos para coroar o campeão. Em Avellaneda, 1 a 1, empate com o gosto amargo do gol contra de Sá. A cidade de Santiago, que estava prestes a viver a brutal ditadura de Pinochet, instaurada em setembro daquele ano, não foi o lugar mais receptivo que o elenco argentino teve a oportunidade de conhecer.

Antes da bola rolar, as autoridades trancaram os vestiários visitantes e os jogadores do Rojo foram obrigados a passar pelo meio da torcida adversária. Levaram tapas, cuspidas, socos e ouviram vários xingamentos. O espírito competitivo, no entanto, estava vivo e reapareceu em campo, com um empate em 0 a 0, segurando ao máximo o ímpeto do Cacique. Quem quisesse bater o Independiente, teria de fazê-lo na bola.

O Centenario de Montevidéu foi a casa da partida de desempate, em 6 de junho de 1973. Os dois times estavam fervendo para os últimos 90 minutos. E foi o Independiente que derramou o sangue adversário, vencendo por 2 a 1, na prorrogação. Mendoza abriu o placar, Caszely empatou, mas Giachello foi o herói, dando o quarto título sul-americano ao clube de Avellaneda. O Independiente se tornava o time mais vencedor da Libertadores, superando o Estudiantes e o Peñarol, que ostentavam três taças.

1974: O penta é logo ali

Ser campeão mais de uma vez é saber se impor diante das adversidades. O Independiente de 1974, já com Bochini e Bertoni ocupando papéis centrais, superou dois times interessantíssimos no triangular semifinal: o Peñarol e o Huracán de César Luis Menotti, fenômeno do futebol argentino em 1973. A estreia, contra o Globo, teve um empate suado em 1 a 1, gols de Brindisi e Bochini. Em Montevidéu, o Rojo foi buscar uma vitória incrível diante dos carboneros, por 3 a 2, com dois gols de Balbuena e um de Bertoni.

Só um desastre tiraria a vaga dos tetracampeões. Em casa, o Independiente surrou o Huracán por 3 a 0 e colocou um dos pés na sua terceira decisão consecutiva. Bastou um empate em 1 a 1 contra o Peñarol para assegurar a invencibilidade. Entretanto, o Rojo conheceu o mais duro de seus oponentes em quatro anos: o São Paulo. Entre 12 e 19 de outubro de 1974, a Libertadores foi disputada em mais três encontros de tirar o fôlego.

No Pacaembu, o Tricolor de Waldir Peres, Pedro Rocha, Chicão e Mirandinha levou a melhor sobre o Rojo. O placar apertado por 2 a 1 teve o primeiro gol marcado pelos visitantes: Saggiorini botou medo na torcida local. Entretanto, Rocha e Mirandinha viraram para o São Paulo. O troco veio dias depois, em La Doble Visera, por 2 a 0. Bochini e Balbuena garantiram a vitória roja. Assim como em 1973, o Independiente voltou para Santiago a fim de buscar a taça. O Estádio Nacional lotou para prestigiar o campeão da temporada. De pênalti, Pavoni elevou o nome do Independiente mais uma vez. Aquele foi o único golpe necessário para derrubar o São Paulo no Chile.

1975: Simplesmente invencível

Bertoni, Galván, Ruiz Moreno, Bochini e Giribert: o Rojo fantástico que beliscou o hexa

Pedro Dellacha, técnico campeão sul-americano em 1972, reassumiu o comando do Independiente para a última das quatro taças nos anos 70. O Rojo não se cansava de vencer e queria superar a própria marca. À aquela altura, a quarta conquista seria um recorde e uma façanha histórica na competição. Para ser o único tetra, o grupo de Dellacha precisava se superar. O rendimento do Rojo na fase semifinal não foi exatamente um primor.

O Independiente encontrou o Rosario Central e o Cruzeiro no triangular. Desta vez, um tríplice empate fez com que o saldo de gols fosse o critério de desempate em um grupo equilibradíssimo. O Central bateu no Rojo por 2 a 0 no Gigante del Arroyito. Depois, dentro do Mineirão, o Cruzeiro de Nelinho e Roberto Batata castigou os argentinos por outro 2 a 0. Tudo parecia perdido, só uma reviravolta incrível salvaria a pele dos Diabos Vermelhos.

A briga de foice continuou nas últimas rodadas e os comandados de Dellacha enfim se recuperaram: 2 a 0 contra o Central (gol contra de Pascuttini e um de Bochini) e um histórico 3 a 0 ante o Cruzeiro, em Avellaneda. Pavoni, Bertoni (gol olímpico) e Ruiz Moreno fizeram os gols da tarde, salvando milagrosamente o Independiente da eliminação. O terceiro gol, de Ruiz Moreno, foi crucial neste objetivo.

Se o jogo tivesse terminado em desvantagem de apenas dois gols, o Cruzeiro se qualificaria para enfrentar a Union Española. Entretanto, a Raposa não conseguiu reagir nos 15 minutos finais e teve de esperar mais um ano até conquistar o tão sonhado troféu da Libertadores. Os três candidatos somaram quatro pontos, mas como o Independiente levou apenas quatro gols, a vaga ficou para Bochini e seus colegas.

Fora de casa, o Rojo não se comportava da mesma forma. Na decisão contra a Union Española, uma derrota por 1 a 0 na primeira partida devolveu o clima de insegurança. O troco veio em La Doble Visera, pelo placar de 3 a 1. Marcaram Rojas, Pavoni e Bertoni. O desempate foi marcado para o Defensores del Chaco, em Assunção, em 29 de julho de 1975. Sem dar chances ao rival, o Independiente marcou 2 a 0 com Ruiz Moreno e Bertoni. Não houve resposta dos chilenos. A América do Sul tinha um rei absoluto, com seis conquistas, sendo quatro consecutivas. Ninguém jamais igualou este feito.

A geração se desmontou e o clube revelou novos jogadores para a década seguinte. Bochini, o maestro da camisa 10, liderou o Rojo a mais uma vitória na Libertadores, em 1984, contra o Grêmio. O meia se aposentou em 1991 com o status de maior jogador da história da agremiação de Avellaneda. Outro mérito que dificilmente será igualado é que o Independiente, único hepta, não perdeu nenhuma das sete finais que disputou.

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