A piada mortal de Luciano Re Cecconi

Fenômeno da Lazio nos anos 1970, Luciano Re Cecconi era um ídolo da equipe campeã italiana em 1974 com participação na Copa do Mundo da Alemanha. Brincalhão, o meia foi vítima fatal do próprio humor em uma situação surreal e concorrente ao Darwin Awards de 1977.

Poucas histórias carregam tamanha dramaticidade após uma piada malsucedida como a de Luciano Re Cecconi. Qualquer dado sobre o perfil deste jogador dará conta de mostrar uma excelente carreira de dez anos, abruptamente encerrada pela morte. E a circunstância foi das mais chocantes.

Não coloquemos o carro à frente dos bois. Luciano nasceu em 1º de dezembro de 1948, na cidade de Nerviano, na Lombardia. Muito cedo, começou sua trajetória no futebol, pelo Pro Patria, em 1967. Dois anos depois, assinou com o Foggia e subiu da Serie B para a Serie A como um dos principais jogadores do elenco. Não demorou para que clubes grandes se interessassem pelo seu futebol. E assim, ele desembarcou na Lazio em 1972, clube pelo qual viveu seu auge.

De anônimo a anjo loiro

Re Cecconi tinha um estilo único e inconfundível: os cabelos claros lhe renderam o apelido de “Anjo Loiro“. E com a bola, o meia também trazia alguma paz celestial à torcida laziale. Homem de marcação, tinha enorme qualidade para encostar no ataque. Em seis anos defendendo os biancocelesti, ele se tornou uma das peças cruciais na arrancada do vice-campeonato em 1973 até o título italiano em 1974. No campo do Olimpico, foi abraçado pela torcida e deixou o local com quase nenhuma roupa. Não poderia ser diferente, em tamanha catarse coletiva como aquela conquista da Lazio.

Naquele ponto, Re Cecconi estava confortável no papel de ídolo. Meses depois, figurou na lista de convocados para a Copa do Mundo de 1974, mas jogou apenas duas vezes e a Itália caiu ainda na primeira fase. As coisas não melhoraram para a Lazio, que entrou em crise após a saída do técnico Tommaso Maestrelli (que lutava contra um câncer) e flertou seriamente com o rebaixamento em 1976.

Ao mesmo tempo em que reinava em campo, Luciano alimentava um personagem controverso fora dele. Parte de um grupo repleto de fanfarrões, o Anjo Loiro era apenas mais um a fazer piadas no momento errado, extrapolando nas brincadeiras de vestiário e ostentando uma fama de sedutor. Pai de dois meninos e marido dedicado, Luciano criou uma persona quando estava ao lado de seus companheiros, uma espécie de maluco sem noção do perigo.

Sabe-se também que alguns daqueles jogadores andavam armados por Roma – e atiravam sem motivo pela cidade – o que ajudou a dividir o elenco em certo ponto. Re Cecconi não era um desses e geralmente sustentava um discurso mais pacífico, influenciando os colegas de maneira positiva. O que não quer dizer que ele não passasse dos limites de vez em quando.

A última piada

Cecconi era um homem culto, mas adorava fazer pegadinhas com seus amigos e familiares. Mais tarde, isso lhe custou a vida

Em 18 de janeiro de 1977, enquanto se recuperava de lesão no joelho, Re Cecconi jantava com o companheiro laziale Pietro Ghedin e outro amigo, Giorgio Fraticcioli. Os três foram visitar uma joalheria famosa em Roma. E provavelmente não sabiam que, dias antes, o local havia sido assaltado, o que causou um estado de alerta nos funcionários e no dono.

Planejando uma de suas brincadeiras casuais, o trio entrou na loja e, desarmado, simulou um assalto, usando blusas para cobrir o rosto. Eis que Bruno Tabocchini, o proprietário, surge com uma arma de grosso calibre para afastar os supostos bandidos. Imediatamente, Ghedin levantou as mãos e anunciou que era uma brincadeira, se rendendo e mostrando o rosto. Re Cecconi, impassível, não interrompeu a pegadinha. A tensão não durou mais do que alguns segundos e Tabocchini disparou contra o meia, acertando-lhe um tiro no peito.

Fraticcioli também se rendeu e contou sobre a brincadeira, mas era tarde demais. Sangrando no chão, Luciano não teve muito mais tempo. Antes de perder a consciência, repetiu desesperado que era “apenas uma piada”, sem qualquer chance de se arrepender do ocorrido. E morreu trinta minutos depois, aos 28 anos de idade, logo depois de adentrar a emergência do Hospital San Giacomo.

A Lazio perdia um ídolo, a família Re Cecconi perdia seu patriarca e o mundo se despedia de mais um humorista de ocasião. Tabocchini chegou a ser detido, mas foi liberado assim que a motivação do assassinato foi revelada: legítima defesa. Afinal, quem em sã consciência finge que assalta uma joalheria? Ghedin e o amigo de Luciano, antes do tiro, não quiseram levar a encenação adiante, pois estavam na mira de uma arma. Isso, claro, não impediu o Anjo Loiro de desafiar a própria mortalidade.

Quarenta anos depois, Luciano Re Cecconi ainda é aclamado como um dos ídolos do scudetto de 1974, e o fim súbito de sua trajetória remete ao saudosismo de quem presenciou os anos áureos de uma figura curiosa. O fim trágico mostra que, para o jogador, o riso foi a prioridade em uma vida curta e marcante.

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