O Nero moderno que incendiou o próprio estádio na Inglaterra

O que você sabe sobre o Doncaster Rovers? Que a modesta equipe inglesa nunca disputou a elite nacional, que tem um ex-integrante do One Direction como entusiasta e que já teve o estádio incendiado a mando do próprio presidente? Aprofundamos essa história maluca sobre Ken Richardson, uma espécie de Nero golpista dos tempos modernos.

Suetônio e Dião Cássio sustentaram em vida a teoria de que o grande incêndio de Roma, em 64 a.c, foi um ato iniciado por Nero, que tramava redesenhar a cidade a seu gosto. Se isso é totalmente verdadeiro, jamais saberemos, tendo em vista o contraponto com a  postura do próprio Nero de voltar às pressas para Roma a fim de oferecer abrigo e ajuda aos desamparados.

O incêndio em Roma durou cinco dias e, até hoje, as pessoas tendem a apontar Nero como o responsável, ainda que não se tenha completa certeza do contexto do incidente. O que ajuda a incriminar o imperador é outro relato de Suetônio e Dião Cássio, dando conta de que Nero tocava pacientemente sua lira enquanto via a cidade ser destruída pelas chamas. Ainda assim, muito vago.

Ken Richardson

Aí temos Ken Richardson, um homem que não tem nada de Nero – além da loucura – e que ficou famoso por suas atitudes controversas no fim do século XX. Aos sessenta e poucos anos, o mandatário do Doncaster Rovers foi o catalisador de um grande desastre no estádio do clube, o Belle Vue. Mas vamos tratar de contextualizar tudo antes de dar mais detalhes.

O ano era 1995. Richardson estava no comando do Doncaster, que disputava a quarta divisão inglesa, com sérias dificuldades financeiras. O empresário surgiu na primeira metade daquela década como uma espécie de redentor do clube, investindo em longo prazo para tentar fazer dos Rovers uma equipe de elite. Exceto que ele não planejava gastar muito para isso.

A ganância de Richardson virou uma das marcas do projeto, estagnado e fuzilado por críticos e torcedores. O grande plano do dono envolvia a construção de um novo estádio. Porém, essa ideia jamais saiu do papel por falta de recursos. Ken, que já tinha histórico como pilantra no ramo de turfe, trocando dois cavalos de seu haras para enganar apostadores, armou uma de suas peripécias mais audaciosas em Belle Vue. Inaugurado em 1922, o estádio era de pequeno porte, mas muito querido pela torcida.

Qualquer dirigente dotado de um cérebro funcional tentaria montar um plano com a prefeitura local, de forma que o projeto fosse executado de maneira conjunta. Uma reforma, talvez? Bem, o Doncaster havia acabado de ser rebaixado e estava vivendo uma fase terrível, afundado na quarta divisão – a última profissional – e com alta rotatividade de jogadores. Em algumas partidas, os Rovers tiveram de emprestar uniformes do Sheffield United, tamanha escassez de verba. Resumindo: mesmo com promessas de grandeza e boa gestão, Richardson quase acabou com a agremiação.

O golpe e o ressurgimento

Em junho de 1995, veio a cartada de mestre. Como não tinha dinheiro para construir um estádio novo, Richardson tentou se beneficiar de um incêndio que consumiu toda a bancada principal do Belle Vue. O fogo causou danos em torno de 100 mil libras. Desta forma, os Rovers teriam obrigatoriamente de jogar em outro lugar, impulsionando os planos de seu mandatário.

Ele só não contava com o fato de que a circunstância do incêndio fosse revelada, nove meses depois. Três homens atearam fogo no Belle Vue. Um deles era Alan Kristensen, ex-oficial da aeronáutica britânica. Alan contou com dois cúmplices que simplesmente chegaram às instalações do estádio, jogaram gasolina e atiraram fósforos. Do nada.

Quando a investigação encontrou o celular de Kristensen nos escombros da arquibancada, tudo ficou muito estranho. Incriminado pela burrice de deixar cair seu aparelho na cena do crime, Kristensen abriu o bico para as autoridades, tentando diminuir sua pena. E contou também que recebeu 10 mil libras de Richardson para atear fogo no acanhado estádio do Doncaster. Morria ali o plano do magnata de levar o clube para outro local. Ken pretendia vender o terreno para empreiteiras e levantar alguma grana para o estádio novo. Agora a ligação com Nero faz sentido, não?

Em 1999, Richardson recebeu uma sentença de quatro anos de prisão como mandante do crime. Kristensen pegou um ano e os outros dois apenas cumpriram nove meses em regime fechado. A arquibancada principal foi reformada e reinaugurada em 1998. Mas o Belle Vue não teve vida longa. Um novo incêndio (este sim foi acidental) em 2004 condenou a estrutura. Dois anos mais tarde, o estádio foi demolido e os Rovers mudaram para a arena multiuso do Keepmoat Stadium, com capacidade para 15 mil espectadores.

O Doncaster perdeu o status de membro da Football League em 1998, sendo rebaixado como lanterninha da divisão, sofrendo 33 derrotas em 46 jogos e acumulando o saldo de -83 gols. Um novo investidor do ramo de equipamentos cirúrgicos assumiu a missão de devolver o time à Football League. Objetivo alcançado com louvor.

Hoje, com esperanças renovadas, um estádio decente e uma gestão profissional, os Rovers estão na terceira divisão inglesa, sob o comando do treinador Darren Ferguson, filho de Sir Alex. Nada como um dia após o outro. Um caso clássico de equipe que renasce das próprias cinzas.

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