O Real Madrid sobrenatural que conquistou o bi da Copa UEFA

Todo mundo sabe que o Real Madrid é o maior vencedor da Liga dos Campeões e que provavelmente ainda ampliará seu vasto salão nobre com taças europeias. Mas o que você sabe sobre a história do clube na Copa Uefa? O bicampeonato no torneio em 1986 desafiou até mesmo o mais cético dos madridistas.

Nos anos 1980, nenhum espanhol conseguiu ficar com a principal taça europeia: Real Madrid e Barcelona focaram em outras frentes como a Copa e a Recopa UEFA. Sobretudo na primeira metade da década, a Liga Espanhola foi dominada por Real Sociedad e Athletic Bilbao, que juntos faturaram quatro títulos consecutivos entre 1981 e 84. Vice-campeão nacional em 1983-84, ficando atrás do Athletic Bilbao, o Real foi encaminhado para a Copa Uefa da temporada seguinte.

Viradas alucinantes, parte I

O plantel era treinado por Amancio Amaro, ídolo merengue que atuou nos anos 60 e 70. Com apenas dois estrangeiros à disposição (Valdano e Stielike), Amancio apostou suas fichas em um quinteto que marcou época no Santiago Bernabéu: Butragueño, Pardeza, Míchel, Vázquez e Sanchís, todos na casa dos 20 e poucos anos. Além da citada “Quinta del Buitre“, o Real tinha o zagueiro Camacho, o meia Juanito e o atacante Santillana como talentos em sua empreitada.

Para dar largada ao seu primeiro título na Copa Uefa, o Real venceu o Innsbruck, da Áustria, sem grande dificuldade. Com um placar de 5 a 0 (Míchel roubou a cena com dois gols) na ida, a vaga estava praticamente garantida. Mesmo uma derrota na volta, por 2 a 0, não abalou a confiança dos espanhóis. Depois disso, o Real não teve mais vida fácil na competição. Encrencado com o Rijeka, da Croácia, foi para a lona com uma derrota por 3 a 1 fora de casa. Atordoado, o time de Amancio precisava de uma volta por cima. Juanito, Santillana e Valdano comandaram o Real no Bernabéu, e de maneira inspirada tiraram o resultado necessário da cartola.

Ao longo da campanha, era comum ver o Real em situação complicada. A agonia se repetiu nas oitavas, contra o Anderlecht. Os belgas impuseram um 3 a 0 em Bruxelas e provavelmente cantaram vitória antes da hora. Eles só não esperavam que Butragueño (3x) e Valdano (2x) fizessem história na resposta por 6 a 1 dentro do Bernabéu. Mais uma vez, os madridistas foram nocauteados e levantaram para dar o troco, com juros e correção monetária. Sanchís marcou o outro gol da partida.

Na fase seguinte, não houve drama. O duelo acirrado com o Tottenham classificou o Real graças a um gol contra de Perryman em Londres. Um empate sem gols em Madri serviu para que eles avançassem às semifinais. O que não necessariamente trouxe sossego: neste intervalo, o clube trocou de técnico, sacando Amancio para promover Luis Molowny ao cargo.

A Internazionale era a próxima vítima a caminho do topo da montanha. Brady e Altobelli colocaram os italianos em vantagem no San Siro. O placar de 2 a 0 contra um grande assustou parte da torcida do Real. Por outro lado, havia a confiança de que tudo seria contornado no alçapão do Bernabéu. E foi. Santillana anotou dois gols e Míchel fechou a conta: três bolas na rede italiana, nenhuma na espanhola. Merengues na final.

Inverteu-se o roteiro para a decisão contra o modesto Videoton, da Hungria. Com um triunfo convincente por 3 a 0 fora de casa (Michel, Santillana e Valdano), o jogo de volta se transformou em mera formalidade. Dentro dos próprios domínios, o Real foi derrotado por 1 a 0 e levantou a taça diante de sua torcida. Era o fim de uma caminhada extenuante e que colocou algumas vezes em dúvida o potencial daquele plantel.

 Viradas alucinantes, parte II

Lambendo as feridas da temporada anterior, o Real de Molowny mandou Stielike ao Neuchatel Xamax e trouxe o grande Hugo Sánchez. A aposta deu muito certo. Se a torcida pensava que a montanha russa de emoções ficou no passado, se enganou. Novamente classificado para a Copa Uefa como defensor do título e quinto colocado no Espanhol em 1984-85, o Real sofreu logo de cara contra os gregos do AEK.

Um revés simples por 1 a 0 em Atenas provocou a primeira virada da campanha. Sem piedade, os espanhóis aplicaram 5 a 0 nos visitantes. Butragueño, Chendo, Valdano e Sánchez marcaram. O primeiro gol da noite foi contra, marcado por Georgamlis. Na fase seguinte, o agregado de 2 a 1 do jogo de ida contra o Chornomorets Odessa serviu para que os comandados de Molowny fossem para as oitavas de final.

O Borussia M’Gladbach não era o mesmo rolo compressor dos anos 1970. Mas ainda trazia certo perigo. Foi com enorme surpresa que o público testemunhou o placar de 5 a 1 na Alemanha. Completamente rendido, o Real apanhou dos Potros e mal viu a cor da bola. Gordillo fez o gol de honra em Düsseldorf e a defesa do título estava em xeque. Dificilmente alguém toma uma goleada daquelas e sobrevive para contar a história. Mas entre todas as qualidades do Real Madrid de 1986, a capacidade de não se dar por vencido era a mais fascinante.

Em 11 de dezembro de 1985, o Santiago Bernabéu aplaudiu seus heróis naquela noite que marcou um eletrizante 4 a 0. Valdano e Santillana, com dois gols cada, comandaram um verdadeiro espetáculo. Graças a Gordillo, os merengues continuaram no torneio. Os suíços do Neuchatel Xamax se apresentaram para o duelo nas quartas. Do lado deles, um velho conhecido: Stielike, que reencontrava os companheiros para defender a camisa rubro-negra.

O veterano alemão só não foi bem tratado por Juanito, que deu uma cusparada no seu rosto no jogo de volta. Neste confronto em especial, o Real quase provou do próprio veneno ao vencer a ida por 3 a 0 (Sánchez, Míchel e Butragueño) e ser derrotado na Suíça por 2 a 0. Foi por pouco.

Outra semifinal, outro encontro com a Internazionale. A partida de 1985 ainda ecoava na cabeça dos nerazzurri, que entraram com sangue nos olhos para se vingar dos seus algozes. Na partida de Milão, Tardelli fez dois gols e levou a torcida local ao delírio. O problema é que Valdano diminuiu o estrago restando três minutos para o fim. A Inter ampliou com gol contra de Salguero, aos 89, 3 a 1. Desenhava-se um novo drama.

Um raio cai duas vezes no mesmo lugar? A Inter foi para o duelo em Madri com a necessidade de administrar sua vantagem e não repetir os erros do ano anterior. E conseguiu conter as investidas do adversário até os 43 da primeira etapa, quando Sánchez abriu o placar. Gordillo ampliou e estava garantindo mais uma classificação para o Real. Eis que Brady diminuiu e colocou os italianos no jogo, dois minutos depois. Se for para perder, que perca lutando. Sánchez marcou o terceiro, novamente de pênalti. O agregado estava empatado, provocando mais dois tempos de 30 minutos. Não havia unha intacta nas arquibancadas do Bernabéu.

Santillana abriu caminho para o triunfo, de cabeça, aos 93. E se encarregou de fechar o caixão dos italianos aos 108, aproveitando a completa desorganização do sistema defensivo interista. Com passe de Sánchez, o capitão colocou o Real Madrid na sua segunda decisão consecutiva da Copa Uefa. Arrasada, a Inter colecionava mais um duro golpe em sua confiança.

Foram mais dois jogos até o título. Diante do Colônia de Allofs e Littbarski, o Real passou o trator dentro do Bernabéu em 30 de abril de 1986, repetindo o placar elástico que conseguira contra a Inter na semifinal: 5 a 1, mas desta vez a virada aconteceu no mesmo jogo. Allofs abriu o placar e a resposta foi um atropelamento com gols de Sánchez, Gordillo, Valdano (2x) e Santillana. Não havia adversidade preocupante demais para o Real que não pudesse ser revertida.

E assim, sem cerimônia, sete dias depois, os espanhóis visitaram os alemães para levantar a taça. Bein e Geilenkirschen foram às redes e honraram o Colônia em uma vitória por 2 a 0. Mesmo com todas as suas falhas e apagões, o Real não entregaria a taça sem lutar incessantemente. Imortal, a equipe merengue fardou uma combinação roxa e entrou para a história como um dos campeões mais surreais do futebol moderno. Nem tanto pela sua agressividade e persistência, mas pela magia com que cada capítulo foi escrito até a consagração.

Aquela geração não teve a mesma sorte para mostrar grande desempenho na Copa dos Campeões. Mas se você perguntar a um madridista com mais de quarenta anos sobre aquele período, ele dirá orgulhoso que viu raios e trovões saírem dos olhos de Santillana, Butragueño, Juanito e cada um que marcou um gol naqueles dois anos peculiares de aficção madridista.

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