Quando o mundo conheceu o feitiço de José Mourinho

No comando do Porto, José Mourinho saltou do título da Copa Uefa até a Liga dos Campeões de maneira surpreendente. Em duas temporadas extremamente vitoriosas, o treinador fez seu nome como Mister Europa e entregou uma geração pronta para grandes desafios no futebol mundial.

José Mourinho nunca foi um jogador destacado em sua curta carreira. Os sete anos como profissional serviram muito mais para demonstrar sua inclinação como líder. Aposentado em 1987, ele retornou ao esporte na década seguinte, como assistente e intérprete de Bobby Robson no Porto. A convivência com o lendário técnico inglês rendeu boa parceria que durou até os tempos de Barcelona, em 1996-97.

O interesse de José pela tática fez dele um aliado importante para Bobby até 1997. O Barcelona resolveu trocar de comandante e promoveu a chegada do holandês Louis Van Gaal. Mourinho, no entanto, não seguiu Robson até Eindhoven. Mais acostumado à atmosfera dos vestiários, ele permaneceu no Barça e se preparou para lançar sua carreira como treinador. Anos depois, Mourinho recebeu um convite do próprio Bobby para assumir o Newcastle e inverter os papeis com o ex-chefe. Mas recusou para tentar ser bem sucedido em sua empreitada pessoal.

De número dois a Special One

Bobby Robson e Mourinho formaram boa parceria no Porto. Seis anos depois de partir para o Barça, o português voltou e fez história sozinho

O início, claro, não foi fácil. Depois de assumir o Barcelona B e o time titular em algumas ocasiões específicas, José retornou a Portugal para comandar o Benfica. O trabalho ia bem, até que uma mudança na presidência provocou a saída do titular e seu assistente, o ex-zagueiro Mozer. Foi no União Leiria que Mourinho se destacou e conduziu a modesta equipe ao quarto lugar na Liga Portuguesa em 2001-02. Isso serviu para atrair o interesse do Porto, que não havia feito boa campanha na temporada anterior.

A geração que Mourinho tinha em mãos era, no mínimo, promissora. Portugal vinha de um fiasco na Copa do Mundo de 2002, mas algo podia ser aproveitado no elenco portista. De cara, o impacto do novo chefe levou o clube a uma temporada fantástica com títulos nas três frentes disputadas: a Liga Portuguesa, a Taça de Portugal e a Copa UEFA. Com Vítor Baía, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Secretário, Pedro Emanuel, Deco, Costinha, Alenichev, Maniche, Derlei, Postiga e Jankauskas, Mourinho tinha em mãos a espinha dorsal do que seria a seleção portuguesa depois de sua consagração. Foi com estas peças que ele alcançou uma incrível tríplice coroa fechando a saga com uma vitória por 1 a 0 contra o seu ex-time, o União Leiria, na Taça de Portugal.

Antes disso, o Porto varreu a Liga vencendo com 86 pontos, nove a mais do que o Benfica. O troféu continental, o mais importante deste triplete, foi conquistado diante do Celtic de Henrik Larsson, em 20 de maio de 2003. Disputada no Estadio de La Cartuja, em Sevilha, a decisão do campeonato europeu colocou frente a frente dois times com tradição, mas que nunca haviam conquistado a Copa Uefa.

Em um jogo dramático, os Dragões venceram na prorrogação e o atacante brasileiro Derlei marcou duas vezes. Deco, na armação, também teve papel crucial, dando a assistência para Alenichev marcar o segundo gol do Porto. Larsson, que buscou o empate para os escoceses em duas ocasiões, foi o destaque alviverde. A estrela de Derlei voltou a brilhar na prorrogação, restando cinco minutos para o fim, resolvendo a questão em Sevilha. Festa em azul e branco.

Um degrau acima

Mourinho chegou onde queria, mas ainda faltava a cereja do bolo. O Porto que quase repetiu a Tríplice Coroa em 2003-04 tinha algumas peculiaridades. Reforçados por Carlos Alberto (vindo do Fluminense), Sérgio Conceição, Benny McCarthy e Pedro Mendes, os Dragões planejavam fazer um grande papel na Liga dos Campeões. Na Liga Portuguesa, novo título com boa margem em relação ao Benfica. Entretanto, os Encarnados se vingaram levando a Taça de Portugal, com vitória por 2 a 1 sobre seus arquirrivais na prorrogação.

Quando o Porto teve a chance de retornar à Champions, o sorteio não foi tão generoso. Ao lado de Real Madrid, Marseille e Partizan, os lusitanos saíram para o mata-mata com a segunda posição, somando 11 pontos, três a menos que os madridistas. Entrosado, o elenco mostrou grande evolução ao longo da campanha, sobretudo ao segurar o Manchester United nas oitavas de final. Com um empate em 1 a 1 em Old Trafford, Mourinho alfinetava Alex Ferguson e chocava a Europa, se classificando pela regra do gol fora. Era só o começo de uma história inesquecível para os portistas.

A equipe portuguesa deixou o Lyon e o Deportivo pelo caminho, naquela edição que foi a mais surpreendente da era moderna. Monaco, Chelsea, Porto e Deportivo foram os quatro semifinalistas, o que inevitavelmente provocaria um título inédito. Os galegos tiraram a Juventus e o Milan, enquanto o Monaco eliminou o Real Madrid e o primeiro Chelsea endinheirado da Era Abramovich. Tudo podia acontecer. Em dois jogos acirrados, o Porto levou a melhor sobre o Deportivo com apenas 1 a 0 no agregado, salvo por Derlei, autor do gol capital no Riazor.

Desde 1987 o Porto não disputava uma final de Champions. Do outro lado, o Monaco vinha em grande forma, liderado pelo baixinho Giuly e por outros ícones alternativos da época, como Rothen, Evra, Ibarra e Morientes. Um bom time de Didier Deschamps, sem dúvida, mas que chegou cru para o último estágio em Gelsenkirschen, em 26 de maio de 2004.

 

O Porto sabia exatamente como abrir caminho até o gol. Incisivo e muito bem armado na defesa e no meio-campo, o time de Mourinho se apresentou no último ato de uma peça que vinha sendo ensaiada desde a temporada anterior, quando ele chegou do União Leiria com uma ideia diferente de futebol. Com paciência e frieza, os Dragões estudaram bem o oponente antes de executar os golpes fatais na Veltins Arena.

Carlos Alberto fez o primeiro, aos 39 da etapa inicial. O Monaco reagiu ao longo do segundo tempo e ofereceu algum perigo. O gol seguinte veio com Deco, numa falha grotesca de posicionamento da defesa monegasca: em duelo de três contra três, o meia teve espaço para receber dentro da área e pensar o próximo passo. Antes de ser desarmado, Deco colocou no cantinho da meta de Roma para ampliar e praticamente decidir o confronto. Três defensores do Monaco apenas olharam o chute e o balançar da rede.

Alenichev fechou a conta. O russo dominou um bom passe de Derlei e ficou livre na área do Monaco para mandar um foguete, na saída de Roma. Foi uma verdadeira aula de contragolpe. O Porto explorou com sucesso todos os espaços deixados em campo e nocauteou o rival com certa folga. Não é todo dia que vemos uma final terminando em 3 a 0, o que ajuda a explicar como o time de Mourinho estava pronto para aquele momento.

Mourinho foi aclamado como o mestre por trás da arrancada do Porto. Aquele foi o último jogo dele à frente da equipe. Contratado pelo Chelsea, o português era a peça ideal para o plano de dominação traçado pelos ingleses e seu magnata russo.

Desde então, Mou nunca mais foi tratado como azarão. Apesar dos percalços  e polêmicas por Real Madrid e Chelsea, na segunda passagem, ele nunca deixou de ser um campeão. Sua ressurreição pelo Manchester United é também a reinvenção de um estilo vencedor que antes usava os jogos mentais e provocações como muletas. O novo José é uma figura mais calma, pacífica e prudente, conforme se aproxima da fase final de sua impressionante trajetória como treinador.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *