Como Rafa Benítez redimiu o Valencia de sua própria sina

Três anos serviram para que Rafa Benítez tirasse o Valencia do papel de derrotado para devolver a equipe nos trilhos. Bicampeão espanhol e vencedor da Copa Uefa, o treinador saiu do Mestalla como o herói que mudou o panorama da equipe alvinegra.

Em 2004, o Valencia não sabia exatamente o que era ser um forte candidato ao título na Europa. No início da década, em 2000 e 2001, a equipe espanhola naufragou no último estágio da Liga dos Campeões, sofrendo derrotas dramáticas para Real Madrid e Bayern de Munique, sob o comando do argentino Héctor Cúper.

Rafa Benítez ainda era um técnico promissor no cenário espanhol e vinha de um bom trabalho pelo Tenerife. Depois de várias recusas, o Valencia achou um substituto adequado para Cúper, que deixou o cargo depois do vice-campeonato europeu. Benítez assinou no segundo semestre de 2001 e mudou os rumos do clube, trazendo novo padrão de jogo.

Aimar, o grande talento do Valencia de Benítez

Cúper montou a base do plantel, mas não conseguiu entregar sequer o sonhado título espanhol. Havia uma sensível diferença entre o estilo de Cúper e Benítez: o primeiro representava uma liderança mais autoritária e falhava na hora H. Rafa, por outro lado, se aproximava dos jogadores e tinha uma ótima relação com todos eles, o que facilitava na hora de transmitir seus conhecimentos para o campo em forma de táticas ou jogadas ensaiadas.

Rafa começou a conquistar a torcida de imediato. Em 2002, ao fim de sua primeira temporada, levantou a Liga Espanhola superando o Deportivo com larga vantagem. Os 75 pontos (contra 68 dos galegos) mostraram que os Che não estavam para brincadeira. A prova disso foi o baile contra o Liverpool na Champions de 2002-03, pela fase de grupos. Em grande forma, os espanhóis somaram 16 pontos e deixaram os Reds a ver navios. Entretanto, a campanha valenciana acabou contra a Internazionale, nas quartas de final.

O elenco fortíssimo dispunha de uma ótima geração jovem mesclada com jogadores de sucesso na década anterior como Cañizares, Ayala, Pellegrino, Albelda, Baraja, Vicente, Angulo, Rufete, Kily González, Aimar, Ilie e Carew. Em comparação a Real Madrid e Barcelona, o Valencia não era nenhum milionário ou uma constelação de craques, mas a dedicação de cada peça igualou os termos de disputa.

Em 2002-03, apesar da boa participação na Champions, os alvinegros não fizeram uma temporada sólida na Liga Espanhola e acabaram em quinto lugar, ganhando apenas uma vaga para a Copa UEFA. A frustração foi logo esquecida com um voo alto no torneio continental. Reforçado com Ricardo Oliveira e Momo Sissoko, o Valencia de Benítez começou tirando o AIK na primeira fase. Ricardo Oliveira e Salva fizeram os gols nas duas vitórias por 1 a 0.

Aos poucos, o time engrenou. As dificuldades de percurso serviram para amadurecer ainda mais o espírito competitivo. Tirando Maccabi Haifa, Besiktas, Gençlerbirligi e Bordeaux, o Valencia se viu em um duelo caseiro nas semifinais.

Diante do Villarreal de Riquelme, Belletti e Coloccini, o Valencia só conseguiu marcar uma vez, justamente para assegurar sua passagem para a decisão. Na ida, em El Madrigal, empate sem gols. Mista, de pênalti, salvou os Che no Mestalla.

Se para o Valencia as duas derrotas em finais de Champions serviram para ensinar alguma lição, o Villarreal também aprendeu bastante com aquele confronto. Nos anos seguintes, o Submarino Amarelo de Riquelme, Forlán e Sorín fez excelentes campanhas e alcançou a semifinal da Liga dos Campeões em 2006, perdendo para o Arsenal de Henry.

Hora de ser campeão

Em Gotemburgo, na Suécia, a Copa Uefa chegava ao seu desfecho, no dia 19 de maio. Valencia e Marseille, uma final digna entre dois grandes. Do lado francês, Barthez e Drogba eram os destaques de uma equipe operária treinada por José Anigo. Motivado pelo segundo título espanhol em três anos, Benítez colocou em campo a sua melhor formação possível.

Os dois times criaram chances, mas o Valencia era bem superior. Pouco antes do intervalo, Barthez derrubou Mista dentro da área e fez pênalti. O árbitro Pierluigi Collina não hesitou e deu cartão vermelho ao goleiro. O reserva Gavanon entrou e não passou nem perto de pegar o pênalti cobrado por Vicente. Em vantagem numérica, os espanhóis apenas exploraram os buracos deixados no campo pelo Marseille.

Ainda no começo da segunda etapa, Mista recebeu na área e fuzilou Gavanon, fechando a conta. O Valencia levantava seu primeiro título europeu desde 1980, quando bateu o Arsenal na decisão da Recopa. Rafa, o responsável pela reação, subia ao posto mais estimado entre todos os treinadores que já passaram pelo banco dos Morcegos.

Apesar de conseguir uma dobradinha histórica, Benítez pediu demissão em junho de 2004, por divergências com o presidente Jesus García Pitarch. O Liverpool o recebeu de portas abertas. Na temporada seguinte, à frente dos Reds, Rafa conseguiu expandir seu domínio vencendo a Liga dos Campeões, naquela que foi a famosa final do Milagre de Istambul, contra o Milan.

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