Os cinco anos que fizeram de Otto Rehhagel o rei de Bremen

Otto Rehhagel construiu um grande legado no Werder Bremen ao longo dos anos 1980. Superando a fama de vice, o treinador reinou ao emplacar cinco temporadas incríveis com a equipe alviverde, que deixou de ser um time irrelevante para dominar o país em seu auge.

Quando assumiu o Werder Bremen em 1981, Otto Rehhagel ainda era um técnico em busca de um trabalho consistente para se firmar no futebol alemão. Ele já havia passado por um bom número de clubes em nove anos de carreira, mas apenas em 1980 levantou sua primeira taça, a da Copa da Alemanha com o Fortuna Dusseldorf.

Otto esteve no banco do Saarbrucken, do Kickers Offenbach, do Werder Bremen, do Borussia Dortmund e do Arminia Bielefeld naqueles primeiros anos ditando regras e ordens do banco de reservas. Ao assinar pela segunda vez com o Werder, o ex-zagueiro deu um passo que mudou completamente a sua vida.

Otto ao lado de Thomas Schaaf, ídolo que dedicou sua carreira como jogador e treinador ao Werder

O momento exigia mudança. Depois de uma goleada vexatória sofrida quando treinava o Dortmund, em 1978, Otto ficou com má fama na Alemanha. O placar de 12 a 0 imposto pelo Borussia M’Gladbach jamais foi desassociado de Rehhagel, que respondeu ao episódio tornando as suas equipes muito mais sólidas defensivamente, um reflexo do que ele havia sido enquanto jogador. Era este o grande trunfo do Werder, que por muito tempo foi o time campeão com menos gols sofridos na história da Bundesliga, algo apenas superado pelo Bayern em 2008.

O Werder não era uma potência local, mas também não era uma equipe desprezível. Campeão alemão em 1965, nos primeiros anos de formação da Bundesliga, os alviverdes tiraram o máximo que podiam da Era Rehhagel. Depois de três vice-campeonatos entre 1983 e 86, o Werder se cansou de ser apenas uma mancha no retrovisor de seus oponentes.

Erguendo um campeão

A base já era sólida quando o Werder iniciou a temporada de 1987-88. Liderado por Thomas Schaaf, Dieter Eilts, Mirko Votava, Karl-Heinz Riedle e Frank Ordenewitz, o elenco reagiu e deu um passo adiante para tomar a coroa do Bayern, que era o tricampeão nacional naquele momento. Foi uma temporada memorável em Bremen, com a saga do título pela Bundesliga e campanhas sólidas na Copa Uefa e Copa da Alemanha, nas quais o clube alcançou as semifinais. Em ambas as competições, o Werder foi eliminado pelos campeões Bayer Leverkusen e Eintracht Frankfurt.

A distância na tabela da Bundesliga em relação ao Bayern foi razoável. Quatro pontos de vantagem, que incluíam apenas quatro derrotas e 22 gols sofridos. Os bávaros, que tentaram se opor aos comandados de Otto, brigaram até a 13ª jornada. Depois disso, o Werder não saiu mais do topo. Em dois duelos entre os líderes, uma vitória para cada lado. O único vexame da temporada foi a goleada do Hamburgo, no Weserstadion, por 4 a 1, na penúltima partida. Mas mesmo neste ponto, o título já estava praticamente garantido.

Após a conquista, foram três anos de espera por mais um troféu. O elenco ganhou alguns reforços de grande valor como os atacantes Klaus Allofs (Bordeaux) e Wynton Rufer (Grasshopper). O Werder perdeu duas finais seguidas da Copa da Alemanha até a edição de 1991, quando saiu de uma longa fila. Em uma decisão tensa contra o Colônia, um empate em 1 a 1 chamou as penalidades. Na hora de colocar a bola na marca da cal e balançar as redes, os alviverdes foram mais eficientes, vencendo por 4 a 3, após erros de Rudy e Littbarski. A taça inédita abriu caminho para a disputa da Recopa Uefa na temporada seguinte.

Quando começou a saga europeia, o Werder goleou sem piedade os romenos do Bacau, por 11 a 0 no agregado. Depois, Otto e seus comandados tiraram o Ferencvaros, o Galatasaray e o Club Brugge até a final contra o Monaco. Em Lisboa, no Estádio da Luz, o Werder se sagrou campeão europeu no dia 6 de maio, vencendo os monegascos por 2 a 0. Klaus Allofs abriu o placar e o neozelandês Rufer marcou o gol que Pelé não fez, aplicando um memorável drible da vaca no goleiro Ettori.

Uma virada para a história

A turma de Bremen esperou um tropeço decisivo do Bayern até a última rodada da Bundesliga em 1992-93

A arrancada não parou na Recopa. Em 1993, Otto elevou novamente o nome da cidade de Bremen ao topo da Bundesliga. O terceiro troféu alemão dos alviverdes veio em outra batalha contra o Bayern, mas desta vez por margem mínima e de virada. O que faz deste título uma peça histórica é que o Werder não foi líder em nenhuma das 33 jornadas anteriores, ficando na dianteira apenas no último e crucial momento.

Diferentemente do Bayern, que liderou de ponta a ponta em 33 rodadas, o Werder fez o seu dever na despedida da temporada, vencendo o Stuttgart por 3 a 0, fora de casa. Com gols de Bernd Hobsch (2x) e Thomas Wolter, o Werder ultrapassou o adversário por um ponto e levou a melhor no apagar das luzes, dependendo do desfecho de Schalke-Bayern.

Com contornos de drama, os líderes foram ultrapassados após o empate em 3 a 3, definido quando restavam cinco minutos para o apito final. Os bávaros venciam por 3 a 2 e ensaiavam a festa quando Aleksandr Borodyuk empatou para os azuis-reais, aos quarenta da etapa complementar. Com o resultado, os comandados de Rehhagel chegaram aos 48 pontos e o Bayern de Erick Ribbeck estagnava nos 47.

A torcida werderaner ainda vibrou com um último título para encerrar a fase dourada sob o comando de Rei Otto, apelido dado pela imprensa ao treinador. A Copa da Alemanha em 1993-94, conquistada contra o Rot-Weiss Essen, teve gosto especial. No caminho até a final, o Werder tirou o rival Hamburgo com uma vitória por 3 a 0 na fase de oitavas.

Quando chegou a hora de buscar a taça, em Berlim, os alviverdes não tiveram problemas para derrotar a modesta equipe de Essen por 3 a 1. Dietmar Beiersdorfer, Andreas Herzog e Rufer, de pênalti, foram os autores dos gols que renderam a última conquista do clube na Copa da Alemanha.

Outros reinados

Foram catorze anos de serviço pelo Werder, o que serviu para que Otto se convertesse em lenda na cidade de Bremen com o caneco da Copa da Alemanha em 1994. Ele ficou por mais duas temporada e assinou com o Bayern, em 1995, mas durou apenas um ano em Munique, sem conquistar nenhum campeonato e entrando em rota de colisão com os jogadores.

O treinador ainda conseguiu duas façanhas em sua carreira: subiu o Kaiserslautern da segunda divisão em 1997 e logo em seguida conquistou a Bundesliga, em 1998. O último grande ato de Rehhagel foi liderar a envelhecida e defensiva Grécia até ao título da Eurocopa em 2004, contra os anfitriões portugueses. Contestado por sua conduta autoritária dentro dos vestiários, Otto Rehhagel pode até não ser o treinador mais querido do futebol alemão, mas certamente é um dos maiores feiticeiros da era moderna.

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