O grande Athletic que dominou o futebol espanhol em 1984

Predestinada, a equipe do Athletic Bilbao treinada por Javier Clemente jogou duro contra os rivais e garantiu um histórico bicampeonato espanhol com direito a uma dobradinha com a Copa do Rei. Os bascos peitaram o domínio dos grandes com uma geração inesquecível.

Ao longo de sua história, o Athletic Bilbao permanece intocável como um dos únicos participantes de La Liga a nunca ter sido rebaixado. Oito vezes campeão espanhol, o time do País Basco guarda com certa nostalgia as lembranças do ano de 1984, quando venceu pela última vez o troféu mais importante do futebol da Espanha. Não só por isso aquela conquista da Liga foi tão importante. Em seu segundo bicampeonato, os Leões também foram buscar o título da Copa do Rei, conseguindo uma icônica dobradinha.

A década de 1980 foi muito proveitosa para os rivais bascos. Em 1981 e 82, a Real Sociedad de Jose Luis Orbegozo tomou conta do país com dois títulos de ponta a ponta pela Liga, superando Real Madrid e Barcelona, respectivamente. Quando a dupla de gigantes tentava recuperar o posto e a soberania a partir de 1983, apareceu o Athletic para pescar outras duas edições do campeonato.

Clemente, o mestre por trás da fase dourada do Athletic

O elenco era forte e se baseava em pratas da casa, como manda a tradição do clube: o goleirão Zubizarreta, o lateral-direito Urquiaga, os beques Goikoetxea e Liceranzu, os meias Elgezábal, Sola, Gallego, Sarabia; além dos atacantes Noriega, Argote e Salinas.

Treinado por Javier Clemente, o Athletic não amaciava para ninguém. Depois de vencerem a corrida contra o Real Madrid por apenas um ponto em 1983, os rojiblancos iniciaram a campanha vencendo o Zaragoza e o Salamanca (goleada no San Mamés por 6 a 3). O primeiro contratempo foi o duelo com o Barcelona na rodada seguinte, em jogo marcado pela pancada violentíssima de Goikoetxea em Maradona.

Dois duros golpes

Goikoetxea, o vilão que serviu aos planos de Clemente para fazer do Athletic bicampeão

Em 24 de setembro de 1983, no Camp Nou, o craque argentino teve seu tornozelo quebrado por um lance brutal. Goikoetxea visou apenas o adversário em um carrinho por trás, sem necessidade alguma. Dois anos antes, contra o mesmo Barça, Goiko tirou Schuster de combate com uma entrada desleal que danificou para sempre o joelho do alemão. Apesar do desfalque sério, o Barcelona não se abalou e venceu 4 a 0, deixando uma impressão de que o Athletic não teria forças para combater os favoritos. E Goiko, pela truculência, levou sete jogos de suspensão.

A goleada mexeu com o Athletic, que não venceu os dois jogos seguintes, ante o Atlético de Madrid e o Sevilla. No jogo contra os andaluzes, outra surra: os sevillistas levaram a melhor por 4 a 1. Sem o general Goikoetxea na zaga, a defesa dos Leões parecia fadada a entregar o ouro. A reação foi lenta, com uma vitória simples contra o Osasuña. O time parecia estar engrenando, mas estagnou com dois empates contra Mallorca e Espanyol. Mesmo oscilante, o Athletic reencontrou seu estilo agressivo e conseguiu uma série de seis vitórias contra Valencia, Cádiz (duas vezes), Real Sociedad, Zaragoza e Salamanca, sofrendo apenas dois gols neste período.

Na virada para o segundo turno, eles já estavam na ponta novamente. E quando o time engrenava, era difícil segurar. Foram apenas mais três derrotas (Barcelona, Atlético e Real Betis) até o fim do campeonato e quatro rodadas fora da liderança, disputada de maneira acirrada com o Real Madrid de Juanito, Santillana e Stielike.

Na rodada 27, em triunfo por 1 a 0 contra o Murcia, o Athletic subiu para a dianteira e não saiu mais. Mesmo lutando ponto a ponto e somando duas vitórias a mais que o adversário, o plantel madridista treinado por Alfredo Di Stefano não foi capaz de vencer a disputa. No segundo confronto direto, em 31 de março de 1984, os rojiblancos venceram por 2 a 1 em San Mamés, gols de Goikoetxea e Dani. A derrota para o Betis na jornada seguinte não ameaçou a campanha, já que os Leões venceram seus três últimos jogos pelo mesmo placar de 2 a 1 contra Málaga, Valencia e Real Sociedad.

Três no páreo para apenas uma taça

O dérbi basco na última rodada, aliás, poderia decidir os rumos da competição. Caso a Real Sociedad arrancasse um empate na casa do inimigo, os madridistas ficavam com a taça se triunfassem no encontro com o Espanyol. Licenrazu abriu o placar em San Mamés, fazendo a festa da torcida.

No Sarriá, os Periquitos saíram na frente e tornaram a tarefa do Real ainda mais complicada. Apenas no segundo tempo os blanquillos foram buscar o empate. O problema é que o Barcelona, que derrotava o Atlético no Camp Nou, também podia ser campeão, já que alcançava o Athletic em pontos e havia vencido os dois confrontos diretos.

Quando a Real Sociedad empatou o clássico com Uralde, aos 68 minutos, a atmosfera no San Mamés ganhou contornos de drama. Simultaneamente, o Real Madrid somava um ponto crucial fora de casa, o suficiente para se proclamar campeão em caso de empate do Athletic. Só restava aos Leões uma reação para vencer a Real Sociedad, pois o título dependia disso. Aos 79, Licenrazu testou firme para as redes e deu números finais ao clássico basco: 2 a 1 para o Athletic, causando euforia nas arquibancadas.

Mesmo com o gol de Butragueño, aos 83 minutos da vitória madridista no Sarriá, a tabela favoreceu os alvirrubros. Ambos somaram 49 pontos, mas coube ao Athletic comemorar seu icônico bicampeonato, ampliando para quatro anos a soberania dos clubes do País Basco. Na temporada seguinte, o Barcelona ficou com o caneco e a partir de 1986 o Real Madrid iniciou uma arrancada até o penta.

Não foi só aquilo que o Athletic conseguiu em 1984. Para coroar um ano excelente, a equipe de Clemente fez a dobradinha e também faturou a Copa do Rei, em cima do Barcelona. O Santiago Bernabéu lotou para um jogo memorável, com todo um significado por trás. No último encontro entre Maradona e Goikoetxea, o argentino, recuperado, se vingou do zagueiro fazendo os dois gols da vitória catalã dentro de San Mamés. O Barça não deu chances para os bascos na Liga. Mas em uma final com campo neutro, ninguém podia prever o desfecho.

Em 5 de maio de 1984, Athletic e Barça fizeram o último confronto daquela temporada, valendo a taça da Copa do Rei. Serviria de consolo aos blaugrana vencer o torneio, mas os rojiblancos não queriam entregar a copa de bandeja. Aos 14 minutos da etapa inicial, saiu o único gol da partida: Endika recebeu um bom passe pelo alto, matou no peito, dominou e ajeitou para mandar o chute. A bola correu mansinha no canto da meta defendida por Urruti. Ao fim do jogo, no entanto, uma briga monstruosa ofuscou o espetáculo, com Maradona sendo o catalisador do confronto.

Quando  a pancadaria cessou, o Athletic entrou para a história, igualando os próprios feitos de 1930, 1931, 1946 e 1956. Uma conquista colossal, sobretudo se levarmos em conta como o futebol local ficou restrito a Real Madrid e Barcelona desde então. Viva Clemente e viva o leão basco, o campeão da Espanha em 1984.

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