O clássico dos Países Baixos que tirou a Holanda da Copa de 1986

Antes de montar a equipe campeã europeia de 1988, a Holanda sofreu com duas ausências seguidas em Copas do Mundo. Em 1985, na repescagem continental para a Copa do México, a Laranja Mecânica foi eliminada pela vizinha Bélgica em um clássico de tirar o fôlego.

A Holanda não estava preparada para encarar competições grandes sem seus principais craques dos anos 1970. A transição de gerações pode até ter revelado o fantástico trio com Gullit, Van Basten e Rijkaard, mas os craques demoraram a amadurecer e mostrar serviço. Depois da final da Copa de 1978, os holandeses não tinham uma equipe tão competitiva assim, o que culminou em ausências em todo um ciclo de torneios internacionais entre 1982 e 86.

Na própria Eurocopa de 1980, a participação foi restrita à primeira fase, sem nenhum impacto. Depois disso, mirando uma vaga na Copa de 1982, a Laranja Mecânica ficou em quarto lugar no grupo, em disputa acirrada que teve Bélgica e França qualificadas. A Irlanda ainda ficou na frente dos holandeses, por um ponto de diferença. Ambas tiveram de esperar até 1990 para retornar a um Mundial.

Se a relação de rivalidade com a Bélgica cresceu ao longo da década de 1980, duas partidas do ano de 1985 ajudaram bastante neste contexto. Novamente lutando pelo mesmo objetivo, as seleções vizinhas fizeram dois jogos pela repescagem para a Copa do México, em 1986. Na fase de grupos, três dos sete segundos colocados teriam de disputar repescagem. Dois deles jogavam entre si, enquanto o terceiro encarava uma seleção da Oceania. Melhor para a Escócia, que fez a pior campanha entre os vice-campeões das chaves e encarou a Austrália, vencendo no agregado com tranquilidade.

Reencontro

Em tese, a geração treinada por Rinus Michels não era pouca coisa. Os holandeses tinham aprendido com os fracassos anteriores e precisavam dar uma resposta à torcida. Mas a classificação ficou por um fio. Michels precisou se afastar temporariamente para operar o coração e a Holanda foi comandada neste intervalo por Leo Beenhakker. Jogadores como Van Basten, Gullit, Kieft, Rijkaard e van de Kerkhof inspiraram os novos tempos da Laranja Mecânica. Mas ainda faltava certa maturidade e um bocado de sorte.

Do outro lado, a Bélgica desfrutava de seu auge desportivo. Seus clubes ganharam força e a seleção era um reflexo disso. Liderada em campo por Vercauteren e Ceulemans, a equipe dos Diabos Vermelhos vinha de um vice-campeonato na Eurocopa de 1980 e de uma boa campanha na Euro 1984. Era natural que os belgas fossem apontados como ligeiramente favoritos, com toda a experiência internacional e uma boa safra de jogadores. Scifo, Grun, Gerets e o goleirão Pfaff eram as esperanças de um bom papel.

Em 16 de outubro de 1985, as duas seleções fizeram o primeiro dos dois jogos da repescagem para México-1986. Os belgas receberam os rivais em Bruxelas, no estádio Constant Vanden Stock. O golpe inicial nos holandeses foi a expulsão de Kieft, com menos de dez minutos, em uma dividida de cabeça com Vercauteren, que simulou ter sido agredido e conseguiu enganar o árbitro. Com um homem a mais, a Bélgica tomou conta das ações e fez o gol da vitória aos 20 minutos, obra do próprio Vercauteren, em uma bomba de canhota da entrada da área. A Bélgica estava em vantagem e iria sentir a atmosfera hostil de Roterdã no jogo seguinte. Questão de vida ou morte.

Administrando cedo demais

A partida tensa de Bruxelas foi apenas o primeiro capítulo da repescagem para a Copa de 1986. O reencontro em Roterdã foi ainda mais emocionante

Mais do que buscar vingança por 1982, quando viu de longe a sua vaga na repescagem ser ocupada pelos Diabos Vermelhos, a Holanda queria retribuir a derrota imposta em Bruxelas. Marcado pelo incidente com Kieft, Vercauteren era o personagem da partida. Ele faria outro gol para classificar seu país ou os mandantes conseguiriam uma reviravolta?

O primeiro tempo foi tenso. O frio de Roterdã não era o clima mais convidativo e a Holanda se lançou ao ataque para abrir vantagem o quanto antes. Beenhakker estava sem cartas na manga e resolveu colocar um atacante a mais para apoiar Houtman. Sem Van Basten, a opção foi apostar em Van Loen, que entrou na vaga do zagueiro Van de Korput e desequilibrou a formação. Era matar ou morrer e a ideia era pressionar o máximo possível a defesa belga liderada pelo jovem Grun, em noite inspirada.

Eventualmente, o abafa deu resultado e Houtman cabeceou para abrir o placar no De Kuip, aos quinze minutos da etapa final. De Wit cruzou da esquerda e o atacante subiu mais do que seu marcador para igualar o agregado. Doze minutos depois, veio o segundo gol, o objetivo principal da noite para Beenhakker.

Gullit fez uma jogadaça pela direita e cruzou. A retaguarda belga espirrou o taco duas vezes. A bola caiu no meio da área e contemplou um homem de laranja no rebote: De Wit acertou um chutaço de primeira, no ângulo, deixando a Holanda perto da Copa do Mundo. Ironicamente, foi aí que começou a derrocada. Beenhakker tomou a decisão de administrar o resultado, ainda que faltassem pouco mais de vinte minutos de jogo. O treinador fechou a sua defesa e mandou Gullit para a função de líbero, convidando a Bélgica ao ataque.

Pela Holanda, Van Breukelen vinha construindo um muro debaixo das traves, mas seus colegas de defesa estavam claramente sentindo o peso da decisão. Os visitantes tramaram um ótimo contragolpe e chegaram até a ponta direita da área, com Gerets. Grun – o líbero que subiu ao ataque como trunfo do treinador Guy Thys – recebeu passe pelo alto e subiu para testar. Van Breukelen, que não saiu por indecisão, apenas viu Grun voar para dar números finais ao confronto, aos quarenta minutos. Golpe de morte.

Desta vez, não houve resposta. Retraída demais no campo de defesa por ordem do seu comandante, a Holanda não teve como buscar o terceiro e definitivo gol que lhe carimbaria o passaporte ao México. Consciente, a Bélgica apenas gastou tempo até o apito final. Desolado, Beenhakker não quis ficar em campo para ver o clima de desolação total, descendo rapidamente para os vestiários pouco antes do encerramento do duelo.

Anos depois, nas Eliminatórias para a Copa de 1998, Bélgica e Holanda caíram novamente no mesmo grupo. A Holanda ficou com a vaga direta e os belgas tiveram de passar por repescagem para participar do torneio. Como num golpe do destino, o sorteio colocou as vizinhas na mesma chave durante o Mundial, ao lado de México e Coreia do Sul. Desta vez, quem riu por último, riu melhor: a Holanda assegurou a liderança e viu os belgas afundarem apenas em terceiro lugar.

1 pensamento em “O clássico dos Países Baixos que tirou a Holanda da Copa de 1986”

  1. Esqueceu-se de mencionar a disputa na Copa de 1994. Ambas caíram no mesmo grupo. A Bélgica ganhou a partida por 1 X 0.partida excepcional de Michel Preud’homme.

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