Hans-Günter Bruns poderia ser Maradona, mas acertou a trave

Meia alemão do Borussia Mönchengladbach poderia ter feito o mais memorável entre os gols da Bundesliga, contra o Bayern, mas a façanha foi impedida por um simples e cruel detalhe: a trave.

Ao longo deste século e meio de futebol, já vimos jogadores ficarem marcados por diferentes motivos. Lendas que venceram todas as competições possíveis, atletas promissores que se perderam no caminho, vilões, lesionados crônicos ou mesmo os que em algum momento, desperdiçaram um pênalti ou um gol importante que poderia alterar a história de um clube.

No caso de Hans-Günter Bruns, ainda não se sabe se por azar ou incompetência, dezessete anos como profissional na Alemanha ficaram em segundo plano por causa de um lance fortuito. Não era uma final de campeonato, nem valia título, mas o meia entrou para a história como um notório azarado.

Em 1973, Hans fez a sua estreia no futebol com a camisa do Schalke 04. Naquele momento, o clube de Gelsenkirschen atravessava um momento delicado, após a descoberta do envolvimento de seus jogadores com um escândalo de manipulação de resultado. Três anos depois, o atleta assinou com o modesto Wattenscheid, na segunda divisão local. O bom desempenho rendeu uma contratação pelo Borussia Mönchengladbach, que venceu a Copa Uefa em 1979. Entretanto, Bruns não teve tanto espaço e acabou cedido ao Fortuna Dusseldorf, por empréstimo, retornando em 1980.

Quando chegou para a sua segunda passagem pelo Borussia Park, Hans era outro jogador. Mais completo, mais maduro, em ótima fase. A explosão física ajudava na criação e na aproximação ao ataque. Foi assim que ele garantiu a titularidade e liderou o meio-campo dos Potros ao lado de Lothar Matthäus naqueles primeiros anos da década de 1980.

Em 1º de outubro de 1983, o Borussia brigava pelas primeiras posições na temporada da Bundesliga, quando precisou visitar o Bayern de Munique pela nona rodada da competição. Foi uma tarde miserável para os visitantes, que se viram em papel bem diferente em relação à década anterior, quando peitaram o domínio do timaço do Bayern de Beckenbauer, Rummenigge, Breitner, Meier, Hoeness e Gerd Müller.

Driblando meio mundo

Bruns se consolidou em sua segunda passagem pelo Gladbach, se tornando capitão na segunda metade dos anos 1980. Mas o clube sentiu o peso de não revelar mais craques e perdeu o prestígio dentro da Alemanha

Infelizmente para o Gladbach, o tempo passou. Depois da conquista da Copa Uefa em 1979, o clube amargou uma lenta decadência e perdeu força no cenário nacional para o Hamburgo, o Stuttgart e até mesmo o Werder Bremen. O retrato da irrelevância foi uma goleada sofrida diante do Bayern naquele 1º de outubro. Sem piedade, o time da casa enfiou 4 a 0 no placar, com gols de Lerby, Rummenigge (2x) e Kraus. O único lance mais insinuante do Borussia veio justamente com Bruns, em uma arrancada desde o campo de defesa.

O Borussia já perdia por dois tentos quando o camisa 7 partiu da sua própria linha de fundo com a bola junto aos pés. Driblou o primeiro oponente e partiu em velocidade. Próximo à lateral, Bruns contou com a sorte quando errou a finta, mas a bola acabou batendo no atacante bávaro e voltou para os seus pés. Quando veio o terceiro homem de vermelho, Hans foi rápido para puxar a bola e aplicar um rolinho clássico, por entre as pernas do adversário, ganhando contornos de saga.

Hans se empolgou e chegou até o círculo central, com toda a potência. Alguns momentos de hesitação precederam uma nova arrancada. Era hora de ganhar mais território. A defesa do Bayern foi pega desprevenida em um duelo de três contra três. Hans dava as cartas. Era ele que poderia definir o que sairia daquele magnífico contragolpe, uma ofensiva digna de almanaque. Em um piscar de olhos, Bruns acionou Mill, em meio a dois zagueiros. O atacante devolveu de imediato, lançando Bruns para dentro da área, com apenas um marcador na cola. Era só mandar para a rede. Hans se projetou à frente, armou o chute e mandou a bomba. No gol, Pfaff demorou a sair e nada pôde fazer quando a finalização rasteira passou ao lado de seu corpo. Golaço?

Não. Pfaff não entraria para a história como o arqueiro que sofreu aquele golaço, tal como Peter Shilton ficou marcado por ter sido coadjuvante no lance da Mão de Deus de Maradona. Ou mesmo como todos aqueles ingleses que caíram aos pés de Diego em sua icônica disparada de fintas e genialidade até o gol do século, nas quartas de final da Copa do Mundo 1986. Não. Pfaff ficou do lado sortudo da equação.

A bola de fato passou pelo goleiro belga, mas não tinha como destino as redes do Olímpico de Munique. Caprichosamente, a pelota bateu no primeiro poste e rolou longe da linha até o outro lado. O segundo beijo na trave serviu para que outro Hans, o Pflügler, camisa 4 do Bayern, dominasse e deixasse com Pfaff. O perigo havia passado. E Pfaff não foi vazado naquela partida.

Bruns apenas colocou as mãos na cintura e contemplou sua desgraça. Todo aquele esforço desde a própria linha de fundo acabou em lamento. O Borussia foi goleado e ele provavelmente teve sonhos com o gol perdido durante algum tempo. O Gladbach eventualmente terminou a Bundesliga em quarto lugar e o seu honroso camisa 7 foi premiado com quatro convocações para a seleção alemã em 1984, incluindo uma presença entre os atletas que disputaram a Eurocopa. Entretanto, até nisso Hans deu azar, já que a Alemanha não passou da primeira fase.

Bruns, capitão do Borussia ao fim da década, continuou no clube até 1990 e se aposentou do futebol, sem jamais conseguir outra glória que pudesse apagar o seu lance quase maradonesco. Poderia até não ter sido o gol do século, mas poucos atletas tiveram na trave um inimigo tão implacável quanto Hans. Foi ela que o separou do estrelato naquela tarde de Munique.

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