Redefinindo o conceito de inferno astral com Daniel Zitka

No pior dia da sua vida, o goleiro tcheco Daniel Zitka sofreu uma lesão grave e ainda contou com uma boa dose de azar enquanto defendia o Anderlecht. A carreira do arqueiro nunca mais foi a mesma depois disso.

Qual foi o pior dia da sua vida? Aquele em que teve de lidar com uma perda dolorosa, o que se sentiu incapaz de encarar todos os desafios diários ou o que acumulou em pouco tempo uma série de problemas insolucionáveis? Existe uma palavra que pode definir bem o que é tropeçar em vários obstáculos ou ser alvo de uma punição divina sem explicação: azar. É ele que sempre vem à tona quando nada dá certo e você se pergunta onde foi que errou para chegar até ali.

Nem sempre há só uma resposta para isso. Ou então, o mistério permanece quando falhamos em achar qualquer explicação lógica e razoável para o que passamos. Nesse contexto, está a história de Daniel Zitka, goleiro tcheco e que viveu seus melhores anos com a camisa do Anderlecht. Formado como profissional em 1994, teve longa carreira por equipes pequenas no cenário europeu.

A vida de Daniel só começou a engrenar de fato quando ele se mudou para a Bélgica. Após três anos servindo o Lokeren, de 1999 a 2002, ele chamou a atenção do Anderlecht e se converteu em titular da equipe, mesmo com ampla concorrência. Foram oito anos brilhantes com a equipe bruxelense. Até que tudo foi revirado por um golpe de má sorte.

Um sonho não dura para sempre

Ser goleiro não quer dizer que você está destinado a ser um Yashin ou um Deola. Existe uma grande área cinzenta entre os melhores e os piores. Daniel Zitka esteve no meio disso, sem se destacar tanto ou falhar vergonhosamente. Ele cumpriu com o seu papel sem alarde: tetracampeão belga e campeão da Copa da Bélgica, o tcheco virou sinônimo de segurança para a sua torcida.

Depois dos trinta anos, Zitka encontrou a felicidade e o reconhecimento profissional. Em 2007, recebeu a honraria de ser eleito o melhor goleiro da Liga Belga, o que pavimentou seu caminho até a seleção da República Tcheca, ganhando uma vaga entre os convocados para a Eurocopa de 2008. Andando entre as nuvens, Daniel não viveria o sonho por muito mais tempo.

O calendário marcava a chegada do dia 22 de novembro de 2008. O Anderlecht enfrentava o Dender, fora de casa, pelo Belgão. Era só mais uma noite de futebol para Daniel Zitka, um dia como qualquer outro. Os visitantes faziam 2 a 0 no placar, com Gillet e Frutos. Moleza, mais três pontos para a bagagem.

Aos 88 minutos, bagunça na área do Anderlecht. Zitka saiu pelo alto para tentar bloquear o ímpeto de Van Eede, mas errou o alvo. Ninguém poderia esperar o que veio depois: Zitka bateu com o rosto na cabeça do atacante rival e ainda caiu em cima da própria perna esquerda. De imediato, sabia-se que era um problema grave. Sangrando, o arqueiro dos violetas dizia que havia quebrado a perna. Logo se viu que perdera também dois dentes da frente no choque.

O atendimento foi rápido. Os médicos correram até o local para ver se estava tudo bem com o arqueiro. Apesar da dor intensa, Zitka manteve a calma. Mais tarde, em bateria de exames, foi constatada fratura na fíbula, que absorveu todo o peso da queda. Levado para os vestiários, Daniel ainda teve outro infortúnio: foi derrubado da maca no meio do caminho, dando um toque sutil de humor ao seu pesadelo. Tudo que podia dar errado, deu.

O retorno foi demorado e Zitka só retornou ao gol em agosto de 2009, perdendo a posição para Silvio Proto. Desprestigiado e sem ritmo, em função do longo tempo de inatividade, teve seu contrato rescindido e foi liberado para negociar com outro clube. Acertou com o Sparta Praga, em 2010, mas não conseguiu se estabelecer como titular. Pudera: aos 35 anos, o corpo já não se regenerava como antigamente.

Zitka se aposentou em 2012, aos 37 anos, sem nem sequer completar dez jogos com a camisa do Sparta. Tantos anos como goleiro, muitos títulos pelo Anderlecht, e ainda assim, lembraremos Daniel apenas por seu inferno astral particular em Denderleeuw…

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