Susic, o grande ídolo do PSG na era das vacas magras

Ser o grande ídolo de um clube fora de seu país requer muita dedicação, talento e predestinação. Safet Susic deixou a antiga Iugoslávia para brilhar no futebol francês com a camisa do Paris Saint-Germain. Contudo, o clube não vivia uma fase de riqueza para premiar o craque como ele merecia.

Muito antes da sua fase milionária liderada por Zlatan Ibrahimovic, o Paris Saint-Germain ainda era apenas um clube jovem em busca de um lugar ao sol no futebol francês. Fundado em 1970, a equipe parisiense nasceu com o plano de dominar a Liga local, mas só conseguiu o objetivo de fato quando contou com um investimento pesado e grandes nomes do esporte mundial.

Ibrahimovic, hoje no Manchester United, está para o PSG como Pelé está para o Santos, ainda que não haja nenhuma ligação com a sua origem como atleta. A questão gira em torno da importância do sueco para os parisienses, que até poderiam ter sido campeões sem ele, mas a projeção fica um pouco complicada se imaginarmos outro atacante de alto nível no lugar de Zlatan, tetracampeão nacional. Coincidentemente, sem ele, o Monaco disparou e tomou do PSG o trono de campeão da Ligue 1.

Voltamos no tempo. O ano é 1982. Depois da Copa do Mundo na Espanha, o PSG fechou uma contratação dupla para a temporada: o bósnio Safet Susic, do Sarajevo, e o atacante holandês Kees Kist, que vinha do Alkmaar. Susic, aos 28 anos, chegava como uma peça para comandar o meio-campo e preencher o vazio da saída de Osvaldo Ardiles, que retornava ao Tottenham após um ano e meio. A negociação pelo craque do Sarajevo não foi das mais fáceis. A Federação Iugoslava tentou barrar a sua saída, em represália ao fraco desempenho no Mundial em 1982. Foram meses até que o PSG conseguisse dar um final feliz à novela.

Naquela época, sabia-se muito pouco de atletas vindos de países periféricos. Por mais que a Iugoslávia estivesse em evidência pelas várias participações em Copas do Mundo, não era como se os franceses fossem buscar nos vizinhos um craque para o futuro. Susic, que já era maduro, representava uma aposta. E ninguém sabia o que ele poderia render de verdade.

O campeão chegou

O bósnio foi um divisor de águas no PSG. Em sua segunda década de vida, o clube se impôs e começou a investir em novos ídolos. O ano de 1983 representa, acima de tudo, o bicampeonato na Copa da França. Em 1982, os parisienses venceram o poderoso Saint-Etienne de Michel Platini na final, após penalidades.

Com Susic de maestro, os rouge-et-bleu fizeram a dobradinha contra o Nantes na temporada seguinte, em duelo de conterrâneos: Safet enfrentava o atacante Vahid Halilhodzic, um velho conhecido de seleção iugoslava. Susic deixou apenas um gol na final (3 a 2), mas a classificação nas semifinais pode ser quase que inteiramente atribuída a ele, que anotou um triplete contra o Tours.

A torcida se encantava com a capacidade do bósnio em parar o tempo com a bola colada aos pés. Ele não se intimidava com as pancadas recebidas e jogava de maneira extremamente agressiva, sem poupar dribles ou chutes de longa distância. Safet abaixava suas meias na altura da canela e partia rumo ao campo ofensivo. Foram nove gols em seu primeiro ano, impulsionando o sucesso na Copa e o terceiro lugar na Liga.

O PSG ganhou fôlego. A dupla Luis Fernandez-Susic rendeu bastante no meio, facilitando a armação de jogadas para o ataque, até então dominado por Alain Couriol e Dominique Rocheteau. Com esse quarteto, a equipe tentava se firmar no pelotão dos candidatos ao título nacional. A espera pela primeira taça na Liga, um sonho desde a fundação, não durou muito.

Em seu auge físico, Susic tinha trejeitos e qualidades muito parecidas com Lionel Messi. Se quisesse, poderia driblar três ou quatro antes de deixar um companheiro na cara. A potência física permitia as longas arrancadas e poucos conseguiam desarmá-lo durante esse pequeno intervalo de tempo entre o domínio e o passe. Não raro, Susic era marcado por mais de um jogador.

O Papa

O estrelato aguardava Susic no Parc des Princes. Em 1986, ele conduziu a equipe ao seu primeiro troféu na Liga, anotando dez gols e colaborando com outras tantas assistências. Na longa campanha até a glória, o PSG bateu o Nantes na tabela por três pontos (56 x 53), encaixotando 66 gols como a melhor marca ofensiva da competição. Se lá atrás a defesa não era das mais sólidas, Susic cuidava para que o time estivesse sempre na ponta dos cascos quando subia para atacar.

Dois anos após a conquista, Safet se envolveu em uma briga com o técnico Eric Mombaerts, sendo afastado do elenco na parte final da temporada. O PSG ia mal e já havia demitido Gérard Houllier do comando. O reflexo do caos interno foi a péssima 15ª colocação na Liga. O bósnio chegou a cogitar uma transferência, mas a chegada do novo treinador, Tomislav Ivic, ajudou em sua renovação de contrato.

Veterano e motivado, Safet liderou o PSG rumo ao segundo lugar na Liga, provando que Mombaerts estava errado em afastá-lo. Foi aí que o camisa 10 recebeu a alcunha de “Papa” pela imprensa. A torcida, claro, adotou. O craque ganhou poderes inimagináveis em seu retorno, recebendo também em 1990 a faixa de capitão, uma grande honra que premiou seu esforço.

A idade, no entanto, estava sendo implacável. Sem potência ou força física para fazer suas mágicas, o jogador sofreu para se adaptar à fase como trintão, mas eventualmente fazia da bola o seu iô-iô. O desempenho mais contido e cerebral rendeu uma última convocação para Mundiais. Presente como titular na Copa de 1990, aos 35 anos, deixou sua marca contra os Emirados Árabes Unidos, ainda na primeira fase. Os iugoslavos caíram nas quartas, contra a Argentina de Diego Maradona.

Depois disso, o PSG só teve o seu maestro por mais um ano. Dez gols e 37 jogos depois, Safet Susic se despedia deixando um legado campeão no Parc des Princes. Com o forte investimento do Canal Plus, o clube mudava de patamar e passava a ser um destino atraente para estrelas de nível mundial. Susic não saiu de Paris e preferiu acertar com o Red Star, que jogava a segunda divisão, em 1991. Até hoje, ninguém superou a sua marca de 95 assistências.

Dali em diante, o PSG alçou voos mais altos e foi buscar outro título francês em 1994, a Recopa Uefa em 1995, da Copa da Liga em 1998 e outros três títulos da Copa da França, apenas nos anos 1990. Raí, Leonardo, Weah, Ginola, Valdo, entre outras estrelas que desembarcaram na cidade-luz ao longo da década, apenas colheram os frutos plantados na Era Susic.

O bósnio permaneceu irretocável como o maior estrangeiro que o PSG já havia visto, até que um certo Zlatan pisou pela primeira vez na cidade-luz. O resto, como se sabe, é história.

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