O esquema dos apagões na Premier League dos anos 90

Quedas de energia recorrentes na Inglaterra levantaram grande suspeita no fim dos anos 90. Após investigação, foi constatado que havia um esquema municiado por um grupo chinês do ramo de apostas esportivas.

O Atlético Mineiro vencia o Newell’s Old Boys por 1 a 0 no segundo tempo da partida de volta semifinal da Libertadores de 2013. A vantagem simples não bastava para a classificação. Era preciso marcar mais um gol, no mínimo, para pelo menos levar a disputa para os pênaltis. Cuca mexeu no time e tirou o volante Pierre para promover a entrada de Luan. Segundos depois, os refletores do Independência se apagaram. A madrugada se aproximava em Belo Horizonte.

Quem via de fora, sabia que a artimanha havia sido proposital, uma tática suja para frear o avanço do adversário, que controla as ações ofensivas. A energia foi religada após alguns minutos, esfriando completamente os ânimos dos argentinos. O Galo, então, conseguiu o segundo gol, com Guilherme, nos acréscimos da segunda etapa. Nos pênaltis, os atleticanos garantiram a vaga para a decisão, que posteriormente os consagrou como campeões continentais diante do Olimpia, no Mineirão.

A prática não era exatamente uma novidade. Em 1977, a Ponte Preta usou deste mesmíssimo recurso de desligar os refletores enquanto perdia em casa por 1 a 0 para o Botafogo de Ribeirão Preto, valendo vaga na semifinal do Campeonato Paulista. O documentarista Igor Ramos conta que o árbitro Marcio Campos Sales aguardou os trinta minutos protocolares antes de cancelar a partida, mas nada dos refletores reacenderem.

O duelo foi remarcado, e, neste intervalo, o Botafogo acabou perdendo as chances de classificação para a fase seguinte. Ainda que isso não tivesse acontecido, eles sofreram uma derrota na revanche contra a Ponte, no Moisés Lucarelli, por 2 a 0, com portões fechados e sem torcida. O crime compensou e foi admitido muito tempo depois por jogadores da Macaca. Mas não houve nenhuma punição ao clube campineiro.

O gol do curto-circuito

Na Inglaterra, onde a moral e o fair play são levados à sério (ou deveriam), tantos anos depois, os apagões viraram tema de uma investigação séria das autoridades locais. Tudo começou em novembro de 1997, durante um encontro entre West Ham e Crystal Palace, pela Premier League. O Palace vencia por 2 a 0, mas amoleceu e concedeu o empate durante a segunda etapa.

Hartson diminuiu para os Hammers e pouco depois, os torcedores locais viram um belo gol do jovem Frank Lampard. O futuro craque corria para comemorar com os torcedores atrás do gol quando tudo ficou escuro. Suspense em Londres. Os refletores apresentaram algum problema e simplesmente não funcionavam mais. Trinta minutos depois, a situação permaneceu a mesma e o árbitro David Ellery decidiu por cancelar a partida. Até aí, tudo normal.

Não havia se passado nem um mês do problema em Upton Park, quando houve outro caso semelhante, em dezembro de 1997. O Wimbledon recebeu o Arsenal em Selhurst Park e empatava sem gols até o intervalo. Os times faziam os primeiros movimentos da etapa complementar quando as luzes falharam e proporcionaram um apagão. Irritado, o presidente dos Wombles, Sam Hammam, tratou o fato como um desastre, já que, somada ao incidente de novembro em Upton Park, esta falha elétrica criou um clima de desconfiança no futebol inglês.

A quem interessava que os refletores apagassem? Aos mandantes? Mas como sustentar esta tese se eles estavam apenas empatando? Não era exatamente uma situação favorável para que diretores do Wimbledon ou do West Ham emulassem a tal Ponte Preta de 1977. De repente, a Premier League se viu envolvida em mais um escândalo. Três anos antes, o goleiro Bruce Grobbelaar (então no Liverpool) e mais dois atletas de equipes de elite foram acusados de manipulação de resultados.

Quem fala muito, dá bom dia a cavalo

The Valley, casa do Charlton Athletic, em Londres

A suspeita cresceu e os apagões demoraram a acontecer novamente. Foi apenas em fevereiro de 1999 que a quadrilha por trás do plano deu um passo em falso. Um dos guardas responsáveis pela segurança dos circuitos elétricos, Roger Firth, contou a um colega que havia sido subornado com 20 mil libras para causar um curto na iluminação do estádio The Valley, casa do Charlton Athletic, em uma rodada contra o Liverpool, também pela Premier League.

O que Firth não esperava era que seu colega fosse alertar a polícia. Antes mesmo de colocar o esquema em prática, o segurança foi preso e a partida transcorreu normalmente. Era então o momento de descobrir quem estava dando ordens para causar as quedas de energia. Firth não fez cerimônia e entregou rapidamente à polícia os nomes de um grupo asiático do ramo de apostas. O chinês Wai Yuen Liu e os malaios Eng Hwa Lin e Chee Kew Ong, assim como Firth, foram presos. Mas ainda havia outra questão em aberto: Como eles faziam aquilo?

Minutos antes da bola rolar para Charlton e Liverpool, policiais encontraram um aparelho eletrônico que causava um curto circuito nas torres de iluminação, algo que poderia ser visto apenas em operações de espionagem. Em posse de um controle remoto, Firth permitiu o acesso de terceiros à caixa de força dos estádios para que a sabotagem ocorresse. Assim que recebesse um comando, ativaria o dispositivo à distância. Boom, luzes apagadas. Eventualmente, os ingleses descobriram que não se tratava apenas de um grupo asiático despretensioso: um dos presos da quadrilha tinha ligações com a tríade chinesa.

Na Ásia, os mercados de aposta permitiam que os clientes fizessem previsões específicas de acontecimentos. Por exemplo: o placar exato do jogo antes de interrupções como quedas de energia ou invasões de campo por parte da torcida. O que também indicava que muitos apostadores se beneficiavam de acordos obscuros para garantir que suas apostas rendessem algum dinheiro.

Na Inglaterra, existe uma proibição expressa para esta conduta e qualquer empresa se recusa a criar linhas de apostas ou probabilidade para eventos (odds) como lesões de determinados jogadores em um minuto x, diferente das regras asiáticas. Entretanto, como os valores envolvidos nestas transações não são grandes, as autoridades preferem não vasculhar a fundo a estrutura do futebol local. A Football Association (FA) proíbe que qualquer jogador aposte ou se envolva em qualquer tipo de atividade relacionada.

Indigestão

O último caso célebre de apostas que saíram pela culatra na Inglaterra foi o de Wayne Shaw, goleiro reserva do Sutton. Aos 45 anos, o arqueiro foi filmado comendo um lanche no banco de reservas, em derrota por 2 a 0 contra o Arsenal, na Copa da Inglaterra. O problema é que havia uma aposta rolando na empresa SunBets, que pagava 8 para 1 caso Wayne comesse um pedaço da torta. Ele havia sido alertado disso e resolveu pregar uma peça nos amigos. No dia seguinte, Shaw foi demitido do clube, por ter deixado evidente sua ligação com a casa de apostas e manchado a imagem da agremiação.

Muito embora a palhaçada da torta não tivesse qualquer interferência no resultado, o goleiro-comediante teve de sair de cena com a imagem arranhada. Mas nada que causasse suspensão ou prisão, justamente por não se tratar de algo grave.

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