Eu fumo sim, e estou correndo. Tem gente que não fuma e está morrendo

Jogadores fumantes são raridade no século XX. Beber, fumar e estar fora do peso não são hábitos aceitáveis no futebol moderno e de alta exigência física. Mas Theo Janssen rompeu com o ideal do jogador atlético e fez sua carreira com características de peladeiro.

Foi-se o tempo em que o jogador de futebol podia ter um perfil mais relaxado, tomar uma cervejinha descompromissada e fumar alguns bons cigarros sem ser incomodado pela patrulha dos hábitos saudáveis. Mais do que isso: qualquer craque que se proponha a aparecer bebendo, ainda que em folga, será encarado como um degenerado. Basta ver a reação do grande público quando vazam fotos deste tipo.

Diferentemente de décadas atrás, quando um jogador podia compensar sua inaptidão física com muito talento e visão, Sócrates fez sua fama como um craque de nível mundial, sem abandonar seu estilo de vida. Ele nunca escondeu de ninguém que era um homem inseparável da bebedeira e do trago. Mas quando pegava a bola em campo, a boemia era rapidamente esquecida com um ou dois toques geniais do Doutor.

Na Holanda, terra de Johan Cruyff, o ídolo que secretamente fumava cigarros durante o intervalo da final da Copa do Mundo em 1974, o último representante dos renegados do tabaco foi Theo Janssen, ao menos é o que se sabe publicamente. Meia revelado pelo Vitesse e com passagens campeãs por Twente e Ajax, Janssen nunca gostou de hipocrisias e fez questão de manter seu comportamento, mesmo em evidência no cenário nacional.

Quando Theo iniciou sua jornada, em 1998, o esporte já estava em uma irreversível transição para a era dos superatletas. A exigência não parecia tão grande quando Theo saía da juventude. A energia e a vontade de vencer não paravam em obstáculos que ele encontrava em seus primeiros anos. Em quase dez temporadas com a camisa aurinegra do Vitesse, Janssen foi lentamente conquistando moral por seu desempenho. Bom passador e distribuidor de jogo, se manteve entre os titulares até começar a sofrer com lesões, em 2004.

Um rápido empréstimo ao Genk não serviu para aplacar o pessimismo que se abatia sobre sua vida. Como forma de encarar o estresse de estar sempre fora de campo e tratando problemas físicos, Janssen desenvolveu o hábito de fumar, e isso jamais se desassociou de sua imagem. Algum tempo depois, em 2008, acabou dispensado pelo Vitesse, sob o comando de Aad de Mos. Não reunia condições ideais de ajudar os companheiros, na visão do seu treinador.

Theo foi buscar outros ventos e assinou com o Twente, aos 26 anos, sem grandes expectativas. A fratura na canela, ainda nos tempos de Vitesse, deixou sequelas que ele jamais superou completamente. Mas de alguma forma, o canhoto lutava e perseverava contra a dor.

A volta por cima e os percalços

Mais do que lutar contra dores crônicas, Janssen mostrou ter comportamento difícil. O perfil temperamental e por vezes inconsequente quase lhe custou caro: em 2009, sem sequer completar um ano pelo Twente, o meia se envolveu em um acidente automobilístico e o laudo apontou presença de álcool no sangue. O passageiro, um ex-goleiro e amigo de Theo, ficou em coma por quase uma semana e perdeu uma das orelhas. Por consequência, Janssen ficou dois meses suspenso pelo clube.

Aquele era um período peculiar e vitorioso para o Twente. A agremiação de Enschede vivia grande fase, com um time consistente e brigando pelo título, que não conquistava desde 1926. Janssen era o cérebro do time de Steve McClaren, ao lado do atacante Bryan Ruiz. Em 2010, os Tukkers se sagraram campeões da Eredivisie e levantaram a Copa da Holanda no ano seguinte, quando Janssen foi eleito o melhor jogador do país por sua participação fundamental no título.

A grande fase rendeu um contrato com o Ajax, que poderia ser o sonho de qualquer jogador na Holanda. Mas não era assim que Janssen enxergava seu plano como futebolista. Natural de Arnhem, já havia realizado grande parte de suas ambições quando jogou pelo Vitesse, seu time do coração. Antes de embarcar para Amsterdã, fez uma exigência ao técnico Frank De Boer: só assinaria se pudesse fumar e isso estivesse previsto no contrato.

Sem a mínima intenção de travar as conversas, o técnico acatou e permitiu a cláusula esfumaçada no acordo. O Ajax contratava o melhor jogador do país, e também um dos maiores opositores ao protótipo quase robótico de preparação física. Não que os amsterdameses não soubessem quem estavam contratando. Janssen fez questão de deixar claro que não abandonaria o cigarro.

Convicção

Com a camisa 16, desfilou pelo Ajax em 2011-12 e assegurou seu posto de titular. Marcou oito gols e se consolidou como maestro da equipe campeã holandesa, servindo como apoio para o promissor Christian Eriksen. Acima de tudo, jogar bem era uma missão que ele levava muito a sério, justamente para manter o controle sobre a persona extracampo. Enquanto passou pelo Ajax, Janssen admitiu algumas vezes que não largava o cigarro e que adorava beber em folgas. Mas como isso nunca atrapalhou a sua rotina de treinamentos e sua entrega, o profissionalismo não entrou em pauta.

“Tem muita gente que fuma. Qual o problema? Elas são más pessoas por isso? Eu não escondo nada de ninguém. Fumo e bebo. Bebo muito. Os meninos de hoje que fazem isso não conseguem admitir e tentam disfarçar“, dizia Theo, sem nenhum medo de represálias.

O problema é que, apesar das vitórias na Liga, ele não estava tão feliz. Antigamente, pelo Twente, era o elo entre o meio e o ataque, com liberdade ofensiva total. Mas De Boer preferiu recuá-lo para a função de volante, engessado no esquema de marcação e sem poder cruzar muito a linha do círculo central. Somente depois que o treinador entendeu o erro que estava cometendo é que o Ajax pôde ter o seu craque 100% comprometido e adaptado em campo. Este detalhe se provou decisivo na arrancada vitoriosa na Liga.

Após uma temporada e poucos jogos amistosos, Janssen deixou Amsterdã para retornar a Arnhem, pelo Vitesse, em 2012. Mais dois anos e poucas atuações (em virtude de uma lesão no joelho) abreviaram e encerraram uma carreira honrosa para Theo. Em 2014, ele acenou com a aposentadoria e deixou o legado do último fumante assumido do futebol moderno.

Exemplos como o de Wojciech Szczesny e Radja Nainggolan podem até ser mais representativos enquanto fumantes, mas estes dois provavelmente não quiseram enfrentar diretores em busca de um acordo tácito que permite conciliar o futebol com o fumo. Esta regalia, no caso, foi e será por muitos anos uma exclusividade de Janssen, que fez por merecer sua exceção.

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