A grande virada na carreira de Ally McCoist

Rejeitado por Alex Ferguson antes de se tornar profissional pelo St. Mirren, Ally McCoist deu a volta por cima, adaptou seu jogo e chegou ao posto de maior artilheiro da história do Rangers, com muitos títulos e um papel importante no dérbi da Old Firm.

Quando se é juvenil, são muitas as possibilidades de sucesso antes do passo crucial de um menino até o futebol profissional. A cabeça tem um papel fundamental no desenvolvimento de um jovem talento do esporte, o que pode definir o que ele terá sido quando se aposentar: uma promessa perdida ou um craque de nível mundial.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu com o pequeno escocês Alistair McCoist, em seu tempo como atleta da categoria de base do St. Mirren, aos dezesseis anos. Nenhum jogador está pronto com esta idade, mas alguns estão mais crus do que os outros. Acontece que, em 1978, o comandante do time profissional do St. Mirren era ninguém menos que Alex Ferguson, um homem predestinado a caminho da glória desportiva por Aberdeen e Manchester United.

Fergie viu alguns treinos de McCoist naquele período, antes de assinar com o Aberdeen, no segundo semestre do ano. E rejeitou o garoto, por julgar que ele era pequeno demais para ser centroavante, um problema que anos depois foi a grande pedra no caminho de uma boa relação entre Fabio Capello e Vincenzo Montella, na Roma. Estes pequenos erros de análise acabam sempre se virando contra os treinadores. Costumamos atribuir a eles alguma falha no critério por não enxergar o talento em alguns jogadores. Mas ninguém sabe ao certo qual é o peso que a rejeição exerce na mentalidade de um garoto.

McCoist poderia muito bem ter ficado desiludido e desistido do futebol para fazer outra coisa da vida. Mas vencedores sempre se formam a partir de uma grande frustração. Aquele foi o divisor de águas na saga de Ally, que assinou logo depois com o St. Johnstone para iniciar sua carreira, em 1979. E precisou de apenas três jogos para marcar seu primeiro gol, o início de uma história incrível de superação e títulos. Muitos títulos.

Gatos pretos e o retorno à Escócia

O centroavante já era uma realidade em 1981, quando aceitou a proposta do Sunderland para atuar na Inglaterra, o lugar onde os melhores atletas escoceses atuavam. Foram dois anos de aprendizado e o mérito de ter chegado como o atleta mais caro dos Black Cats até aquele dado momento custando 400 mil libras, uma fortuna nos anos 1980. Mas ele não experimentou das frutas mais doces em Tyneside.

O período na Inglaterra serviu para amadurecer ainda mais, por meio do sofrimento. McCoist teve temporadas discretas e não conseguiu causar o impacto que esperava com a camisa do Sunderland. Depois de apenas oito gols, tomou o caminho de volta para a Escócia, desta vez para defender um grande: em 1983, o Rangers batia à sua porta e ele não poderia recusar. Torcedor dos Blues desde menino, Ally realizava um sonho logo após outra grande decepção.

Foram quinze anos de serviços, as primeiras taças da sua longa carreira, além das juras de amor feitas a cada gol. Logo de cara, o camisa 9 deslanchou, marcando 20 vezes em sua temporada inaugural pelo clube de Glasgow. Bicampeão da Copa da Liga em 1984-85, McCoist sabia que estava no lugar certo. E brilhar seria questão de tempo. De mera promessa, o goleador se converteu em “Super Ally” em 1986, quando emplacou uma ótima temporada de 26 gols.

A hegemonia na Liga demorou quatro anos para tomar forma, mas uma vez que o Rangers de McCoist e do técnico Graeme Souness deslanchou, o Celtic teve enormes dificuldades para impedir o domínio da liga local. De 1989 a 98, o lado azul de Glasgow enfileirou nove temporadas seguidas como campeão escocês, para apenas ver a magia se desfazer na despedida de McCoist, em condição frágil por ter lutado contra sérias lesões.

Ferguson certamente deve ter repensado quando disse não a Alistair, lá naquele longínquo ano de 1978. Por critério de estatura, Fergie dispensou um campeão. McCoist levantou dez vezes o título de campeão nacional, além de nove troféus da Copa da Liga e um da Copa da Escócia, em quinze anos vestindo a camisa que lhe fez famoso e eterno no coração da torcida. Em 1992 e 93, conseguiu o prêmio da chuteira de ouro da Europa, com destaque para o ano de 1993, quando emplacou 49 tentos. A longa carreira do artilheiro se encerrou com o recorde de gols pelo Rangers: 355, em 581 partidas.

Os números poderiam ter sido mais generosos se ele não tivesse sofrido com duas fraturas na perna nos anos 90. A primeira, em 1993, pela Escócia, tirou Ally de combate até a final da Copa da Liga, contra o Hibernian, quando ele saiu do banco de reservas e fez o gol do título, de bicicleta.

O dérbi particular de Ally

A importância de McCoist para o Rangers também se dá pelo fato de que ele tinha aptidão especial para marcar contra o Celtic. Em 55 dérbis da Old Firm, Ally anotou 27 gols, isolando-se no topo da lista dos artilheiros do maior clássico escocês. Entre os gols mais memoráveis, está o da semifinal da Copa da Escócia em 1992, quebrando um jejum de onze anos sem conquistas dos Blues no torneio. Outro tabu que incomodava era de não conseguir marcar contra o Celtic na Copa da Escócia desde 1973.

Se McCoist é sinônimo de gols em clássicos e títulos para o Rangers, é justo que seu maior momento no dérbi seja a final da Copa da Liga de 1984. Em um belíssimo jogo, os azuis venceram os rivais por 3 a 2, com um triplete de Ally, em grande tarde. Foi o primeiro título dele com a camisa do clube, o que sempre traz certa nostalgia para a torcida.

Alistair também serviu com certo brilho a seleção da Escócia. Convocado pela primeira vez em 1986, esteve na Copa do Mundo de 1990 e em duas Eurocopas. Na edição de 1996 do torneio continental, foi o responsável pelo único gol dos escoceses, contra a Suíça, na primeira fase.

Em 1998, quando fazia sua última temporada pelo Rangers, foi cotado para disputar uma última Copa do Mundo, mas o técnico Craig Brown preferiu deixa-lo de fora. A Escócia caiu na primeira fase, em um grupo que ainda tinha Brasil, Noruega e Marrocos.

No segundo semestre, McCoist deixou o Rangers e fez mais três temporadas pelo Kilmarnock, mantendo o bom nível, até se aposentar em 2001, justamente contra o Celtic, em uma vitória por 1 a 0. Ele se lesionou no segundo tempo e precisou sair, ovacionado pela torcida e pelos adversários que tanto castigou durante seus quinze anos em Ibrox Park.

Mas se alguém um dia perguntar quando é que descobriram que Ally McCoist seria um jogador estupendo, a resposta está nestes quase nove minutos de vídeo abaixo, um recorte objetivo do momento em que ele subiu alguns degraus para alcançar o status definitivo de ídolo.

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