Jacques, Bernard, Christophe e o maior escândalo do futebol francês

O império do Olympique Marseille começou a cair logo após o título europeu contra o Milan. Após um jogo contra o Valenciennes pelo Campeonato Francês, os marselhenses acharam que escapariam impunes, mas um acerto para vender o resultado da partida trouxe graves consequências para o clube.

Em 26 de maio de 1993, Milan e Marseille prometiam uma espetacular final da Liga dos Campeões. De um lado, a dinastia milanista buscava o título depois de dois anos de espera. Do outro, os franceses queriam apagar a impressão deixada na decisão de 1991, quando foram derrotados pelo Estrela Vermelha. Ambos contavam com esquadrões em campo e técnicos de respeito.

Não surpreendeu muita gente o fato do Marseille ter ficado com a taça, graças a um gol histórico de Basile Boli. Até hoje, o clube marselhense é o único representante de seu país a erguer um troféu na Liga dos Campeões. O placar de 1 a 0 serviu para emplacar o sonho que há muito tempo era sustentado pelo empresário Bernard Tapie, o homem do dinheiro por trás do sucesso arrebatador do OM em solo nacional e europeu.

Por trás da fortuna de Tapie, um empresário famoso na França, estava uma empresa responsável por salvar empresas da falência. Entre 1990 e 93, ele foi dono da Adidas, que atravessava momento complicado. E coincidiu de ser também o presidente do Marseille, cargo que ocupava desde 1986. Não era a primeira vez que uma equipe via seu sucesso turbinado por um grande investimento repentino em jogadores. O Monaco e Racing Club Paris, ainda nos anos 1980, foram exemplos memoráveis dentro da França, embora nestes dois casos, a dinheirama não tenha sido revertida em tantos títulos quanto se esperava.

Para o Marseille, a Europa era a grande obsessão do projeto e eles chegaram rapidamente ao objetivo final, mesmo com o percalço de perder a primeira decisão europeia em 1991, nos pênaltis, contra o Estrela Vermelha. Dois anos depois, tiveram outra chance, com mais maturidade e um time consideravelmente mais forte. Às vésperas desta decisão, em Munique, o Marseille tinha um compromisso despretensioso contra o Valenciennes, pelo Campeonato Francês. À aquela altura, o Marseille era tetracampeão nacional e estava em busca do penta.

O acordo

Foi aí que Tapie resolveu mexer alguns pauzinhos. Pediu a Jean-Jacques Eydelie, um de seus jogadores mais respeitados, que contatasse alguns jogadores do Valenciennes. A ideia era pedir aos adversários que não jogassem duro ou oferecessem grande desafio em 20 de maio, pois qualquer entrada ríspida poderia colocar em risco os titulares na final europeia. Pior que isso: um resultado positivo serviria ao OM para consolidar o título francês sem precisar depender de uma vitória contra o Paris Saint-Germain, rival direto, na penúltima rodada.

Eydelie conversou com Christophe Robert, Jacques Glassmann e Jorge Burruchaga para garantir que o acordo fosse cumprido. Cada um deles, assim como o resto do time do Valenciennes, receberia uma quantia em dinheiro. Quando a bola rolou no estádio Nungesser, o único gol dos 90 minutos foi marcado por Alen Boksic, do Marseille, para garantir o placar de 1 a 0.

Entretanto, houve certa demora para que os dois times voltassem do intervalo. Robert saiu lesionado ainda no primeiro tempo, mas o problema era muito maior do que uma simples contusão forjada. Quando o jogo acabou, Glassmann contou a verdade.

Jacques

Jacques Glassmann nunca foi um jogador de ponta na França. Sempre defendeu equipes pequenas equipes, sem nenhum destaque. Zagueiro de origem, começou a sua carreira em 1978, pelo Strasbourg, e passou por Mulhouse, Tours, Valenciennes e Maubeuge antes de sua aposentadoria, em 1995. Na verdade, ele só ficou famoso por seu papel em todo o escândalo do Marseille, em 1993, quando já tinha 30 anos de idade.

O que o Marseille de Tapie não contava era que dois dos três envolvidos por parte do Valenciennes dessem para trás. Glassmann, ainda no intervalo da partida, denunciou ao árbitro que havia sido contatado por Eydelie, mas que recusou qualquer acordo financeiro. Depois disso, em entrevista a repórteres locais, curiosos sobre o que havia acontecido nos vestiários, o defensor disse com todas as letras: “Eles tentaram nos comprar. Fale com Burruchaga e Robert, pois eles também foram contatados.” Burruchaga, sem saída, admitiu que inicialmente aceitou os valores e o trato, mas que mudou de ideia depois e não ficou com nenhum dinheiro.

O grande culpado pelo lado do Valenciennes, então, acabou sendo Christophe Robert, que foi investigado logo após a revelação de Glassmann. A polícia francesa achou uma grande quantia de dinheiro (250 mil francos) enterrado na casa de uma tia do jogador. A punição foi severa: dois anos de banimento, o que rendeu a Robert uma transferência bizarra para o Ferro Carril Oeste, da Argentina. Ele só retornou em 1995.

Pode-se pensar que Glassmann foi considerado como um herói logo de cara, como o responsável pela descoberta da corrupção do Marseille, mas não foi bem assim. Jacques encerrou a carreira em 1995, sem grande alarde e apontado como um traidor, um dedo-duro. Durante seus últimos dois anos como profissional, foi recebido com vaias e xingamentos por onde quer que passasse para jogar futebol. A Fifa, sabendo disso, se aproveitou do momento e premiou o zagueiro com um troféu Fair Play após a sua despedida dos gramados. Nada disso poderia reparar o abuso moral a que ele foi submetido por ter apontado o acordo com o Marseille.

Christophe e Bernard

Robert, que saiu fingindo lesão, negou por quatro semanas o seu envolvimento, até que foi preso e confessou, explicando como se deu o acerto. O jogador pediu que a sua esposa fosse até o hotel onde estava o time do Marseille, na véspera, para pegar o dinheiro. E eles combinaram de enterrar a quantia no quintal de uma tia de Christophe, para que ninguém desconfiasse. Em 1995, de volta da Argentina, Robert assinou com o modesto Louhans-Cuiseaux, na segunda divisão francesa. Ainda defendeu o Nancy e o Saint-Etienne, onde encerrou sua trajetória como campeão da Ligue 2, em 1999.

As ordens de Bernard Tapie para aquele jogo contra o Valenciennes foram claras: “Não queremos que eles ajam como idiotas e nos quebrem antes do jogo contra o Milan“. E assim, Eydelie tomou as rédeas da negociação, juntamente com o diretor esportivo Jean-Pierre Bernès. A Federação Francesa levou a sério a denúncia de Glassmann e prometeu investigar a fundo o ocorrido.

O Marseille foi campeão europeu já sob enorme suspeita. Tapie, poucos dias após a conquista, dizia que não havia a menor prova que sustentasse a acusação de Glassmann. Mas isso aconteceu antes de Robert abrir o bico. E depois disso, mais gente começou a falar. Mark Hateley, ex-atleta do Marseille e que defendia o Rangers na ocasião, contou que houve um pedido dos franceses para que ele não atuasse no encontro entre as duas equipes, ainda na fase de grupos, mas o inglês não acatou. A consequência inicial para o Marseille foi o rebaixamento no Francês e a perda do título nacional de 1992-93. A Fifa, em conjunto com a Uefa, impediu que os franceses disputassem o Intercontinental contra o São Paulo ao fim do ano e ainda baniu o OM da Liga dos Campeões seguinte, quando defenderiam o título.

O castelo de Tapie ainda demorou alguns meses para ruir. Como ele era um ministro do governo do presidente François Mitterand, a imunidade impediu que ele fosse punido logo após o desenrolar do inquérito. Entretanto, o privilégio foi revogado e ele foi condenado por corrupção ativa e suborno de testemunhas, com pena de oito meses de prisão. Os jogadores que participaram do episódio apenas foram suspensos, mas com exceção de Glassmann, puderam retomar a carreira posteriormente.

Tapie pagou por todas as irregularidades do Marseille em seu período mais glorioso. A Federação Francesa puniu o clube não só pela sua oferta ao Valenciennes, mas por outros casos de irregularidade financeira. Falido e obrigado a jogar pelo menos duas temporadas na segunda divisão, o Marseille só se reconstruiu em 1996, com ajuda de Robert Louis-Dreyfus, que assumiu a Adidas e o controle da agremiação, sucedendo Bernard.

Curiosamente, Tapie achou uma forma de se manter em evidência, mesmo banido do futebol e falido: entrou para o mundo do cinema e estrelou um filme em 1996 chamado “Hommes, femmes, mode d’emploi“. O longa-metragem recebeu nota 6,1 no IMDB.

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