Silenzi, o italiano que foi pioneiro e flopou na Premier League

Antes da era bem sucedida dos italianos no Chelsea, Andrea Silenzi abriu as portas para os jogadores de seu país na Premier League. Contratado pelo Nottingham Forest com muita expectativa, flopou com força e até hoje é lembrado como uma grande decepção na Inglaterra.

Itália e Inglaterra estreitaram bastante a relação entre seus clubes nos últimos anos. Pouco mais de duas décadas atrás, a Premier League ainda caminhava para o sucesso que representa hoje, e jogadores italianos foram peças importantes neste processo. Inicialmente, pode-se pensar que Gianluca Vialli, Gianfranco Zola Roberto Di Matteo e Pierluigi Casiraghi foram os primeiros representantes da Itália no Campeonato Inglês. Mas o pioneiro ainda pode causar certa estranheza ou desconhecimento: o atacante Andrea Silenzi.

No que concerne a Premier League como um conceito relativamente novo de gerir o futebol inglês, a liga de elite, fundada em 1992, permitiu o ingresso de jogadores de outros países que não fossem Escócia, Irlanda e Irlanda do Norte. Antes disso, eram raros os sul-americanos e até mesmo europeus de nacionalidades variadas. A Premier League é também um exemplo de como a globalização influenciou na maneira de pensar o futebol, nos tempos em que o mercado internacional se transformava rapidamente.

Nesse contexto, Andrea Silenzi pode ser considerado muito importante dentro de um recorte histórico que inclui a força e a tradição do futebol italiano como forma de ensinar um pouco aos ingleses, que precisavam de um verdadeiro choque cultural em seus primeiros anos de Premier League.

Il Pennellone

Silenzi já tinha uma carreira longa quando foi contratado pelo Nottingham Forest, em 1995. Revelado pelo Lodigiani, em 1985, passou por Arezzo, Reggiana e Napoli até se acertar com a camisa do Torino. Grandalhão e dono de uma cabeleira invejável, o atacante ganhou o carismático apelido de “Escovão” em seus tempos de Toro. Andrea, no entanto, possuía certa dificuldade de movimentação e tinha a finalização como único destaque entre seus fundamentos. Um centroavante caneludo, se preferir.

Silenzi guarda com carinho a lembrança de um certo jogo decisivo em sua vida. Na final da Copa da Itália de 1992-93, contra a Roma, foram dele os gols que salvaram o Toro de levar uma virada inacreditável. Em Turim, o time da casa abriu vantagem por 3 a 0 e praticamente colocou a mão no caneco antes mesmo da partida de volta, na capital, com gols de Benedetti (contra), Cois e Fortunato.

Entretanto, a Roma conseguiu reagir e quase buscou a virada no agregado, com um triplete de Giannini, que abriu o placar e ainda fez mais dois gols, todos de pênalti. Silenzi, o herói inesperado, empatou ainda no primeiro tempo. Quando as duas equipes voltaram do intervalo, os romanistas deram um banho de futebol, abrindo 3 a 1. O desastre parecia iminente para o Toro, mas Silenzi diminuiu e deu uma margem segura aos colegas. Giannini e Mihajlovic devolveram as esperanças à Roma, mas a goleada parou por aí. Em virtude dos gols fora de casa, marcados por Silenzi, o Torino se sagrou campeão em uma das finais mais emocionantes da história da Copa da Itália. Aquela foi a última conquista do Torino.

Dentre tantos jogadores talentosos para se levar aos clubes ingleses, Silenzi foi o escolhido para puxar a fila, ser o pioneiro, o primeiro de muitos a realizar o intercâmbio na Terra da Rainha. Credenciado por uma convocação para a seleção nacional e pela própria taça da Copa da Itália em 1993, o grandão até chegou a sonhar com a Copa do Mundo em 1994, mas a ambição talvez fosse alta demais para o seu futebol. Aos 30 anos, assinou o contrato que mudou a sua vida. Era tudo ou nada.

Língua estrangeira

O Nottingham Forest também não era mais o mesmo de antigamente. Rebaixado em 1993, o clube experimentou de um sucesso estrondoso entre os anos 1970 e 80, mas sem Brian Clough, as coisas seguiam o rumo da decadência. Sem grandes astros, o Forest de Frank Clark ressurgiu após um ano e voltou à Premier League, para ficar em terceiro lugar na tabela. O trabalho não se repetiu em 1995-96, mas sem sustos. O Forest se firmou na nona posição da Liga, capitaneado por Stuart Pearce. Na Copa Uefa, os Reds voaram até as quartas de final, mas caíram diante do Bayern de Munique de Jürgen Klinsmann.

Silenzi, que teoricamente seria um dos goleadores do time, não se adaptou como se esperava e rapidamente levantou dúvidas sobre a sua chegada. Prometeram aos ingleses um Casagrande italiano e entregaram um atleta completamente diferente. Mesmo com boa experiência, Silenzi não se adequava ao elenco dos Reds e suas chances foram diminuindo com o tempo. Vinte jogos foram suficientes para acabar com as suas chances no clube. Neste interim, Silenzi balançou as redes apenas duas vezes. Quando planejava iniciar a sua segunda temporada no City Ground, acabou emprestado ao Venezia, em 1996, para disputar a Serie B, mas também não se encaixou.

A ideia era retornar ao Forest, que trocava de treinador e poderia oferecer mais chances ao seu experiente atacante. Com Dave Bassett no cargo, a situação só piorou para o italiano. Antes de fardar novamente pelo clube inglês, Silenzi teve seu contrato encerrado por Bassett, que não o queria de volta de forma alguma. A diretoria foi forçada a cedê-lo ao Reggiana, onde Andrea viveu grande fase nos anos 1980. Os tempos mudaram e ele não tinha mais o vigor e a juventude de outrora. Desde o fiasco no Forest, ele só desceu a ladeira. Não que o clube tivesse feito muito melhor: sob o comando de Bassett, o Forest foi novamente rebaixado após uma campanha de lanterninha.

Mais algumas temporadas decepcionantes depois, por Ravenna e Torino, Silenzi sofreu com o rebaixamento do Toro em 2000, o que praticamente selou o seu fim como atleta. Ele ainda fez sete jogos com a camisa do Ravenna na temporada seguinte, mas não balançou as redes e encerrou sua trajetória como o breve goleador que subiu ao céu por meio da Copa da Itália e sete anos depois ia ao inferno com a mesma camisa.

Quem dera essa fosse a única pintura triste da carreira de Andrea Silenzi, o pioneiro italiano da Premier League que teve seu contrato rasgado para não voltar ao Nottingham Forest.

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