Uma Juventus apenas para jogadores italianos

Quarenta anos atrás, a Juventus erguia o troféu da Copa Uefa, o seu primeiro na Europa. Diante do Athletic Bilbao, os juventinos vestiram azul e se tornaram a única equipe inteiramente nacional a ser campeã europeia, um feito que parece impossível no futebol moderno.

Já era noite quando Athletic Bilbao e Juventus entraram em campo no San Mamés, naquele 18 de maio de 1977. Os times duelavam pela segunda partida da decisão da Copa Uefa da temporada, e os italianos tinham a vantagem, por terem vencido por 1 a 0 em Turim, gol de Marco Tardelli.

O experiente Giovanni Trapattoni sabia que seria difícil conter o ímpeto dos bascos jogando fora de casa. E que para isso, a missão inicial era ao menos não levar gols, mas caso isso acontecesse, a Juve precisaria balançar as redes para ter mais segurança. Eram tempos bem diferentes e a força juventina se dava quase que exclusivamente pelos grandes atletas italianos que possuía em seu plantel. Como o regulamento da Serie A da época impedia a contratação de estrangeiros, o esforço principal foi encontrar uma equipe sólida e talentosa o bastante para competir fora da Itália.

Trapattoni não teve tantos problemas na montagem daquele grupo. Ao olhar o time titular, vemos alguns dinossauros que passaram pela seleção italiana, como o lendário Dino Zoff, o lateral Claudio Gentile, o líbero Gaetano Scirea, os meias Giuseppe Furino, Romeo Benetti, Marco Tardelli e os atacantes Franco Causio, Roberto Bettega e Roberto Boninsegna. Ainda que não tivesse nenhum representante de outro país, a Juve de 1976-77 era quase uma seleção, base da Squadra Azzurra que se preparava para a Copa de 1978, na Argentina.

Platini comandou o meio-campo da Juve a partir de 1982, vindo do Saint-Etienne. Ele marcou época como o líder do time campeão europeu em 1985

E é isso que diferencia aquela Juve das demais. A partir de 1980, com a abertura gradual do mercado para atletas estrangeiros, sejam europeus, africanos, asiáticos ou sul-americanos, a Velha Senhora virou uma referência em classe e atraiu jogadores badalados na década seguinte. São exemplo desta tendência os meias Michel Platini e Michael Laudrup, que retomaram a tradição de não-italianos vestindo a camisa bianconera.

Ao longo de toda a história das competições europeias, nenhum outro clube italiano conseguiu se sagrar campeão usando apenas atletas nativos na campanha. Nos anos 1960, Milan e Inter dominaram a Copa dos Campeões, mas sempre com algum jogador de outro país entre os titulares. Os milanistas, em 1963, tinham Benítez, Dino Sani e Mazzola (naturalizado italiano, mas nascido no Brasil e parte do time campeão mundial de 1958), enquanto os nerazzurri bicampeões em 1964 e 65 contavam com o brasileiro Jair da Costa e os espanhóis Joaquim Peiró e Luís Suárez.

Mesmo a própria Juventus chegou à sua primeira final da Copa dos Campeões em 1973, contra o Ajax, contando com o mesmo Mazzola que havia passado pelo Milan e o zagueiro alemão Helmut Haller, que entrou no segundo tempo. Ou seja, mesmo se tivesse conseguido derrotar Johan Cruyff e seus colegas, a Juve não entraria para a história como uma equipe inteiramente italiana. Para isso, tiveram de esperar quatro anos até a disputa da Copa Uefa. Credenciada como vice-campeã nacional em 1976, atrás do rival Torino, a equipe alvinegra simplesmente não estava para brincadeira quando entrou no torneio.

Alma velha

Bettega, o responsável pelo gol do título, ainda estava começando a cultivar seus cabelos grisalhos

Pelo caminho, a Juve superou algumas pedreiras e foi crescendo a cada fase. Com muita dificuldade, os italianos passaram por Manchester City e United nas duas primeiras eliminações, somando 2 a 1 e 3 a 1 no agregado, respectivamente. Daí em diante, foi difícil impedir que eles chegassem à final, já que os adversários foram os modestos Shakhtar Donetsk (3 a 1 no agregado), Magdeburg (4 a 1) e AEK (5 a 1). Os destaques eram Benetti, Bettega e Boninsegna, que lideravam a artilharia do time. Na final, tudo mudou de figura. E o Athletic conseguiu igualar o agregado.

A pressão foi intensa. Sem tempo a perder, os bascos partiram para cima dos visitantes, abafando na área e pressionando a valer. Sufocada, a Juventus tinha de rifar a bola de qualquer maneira para não sofrer um gol logo de cara. Em um dos primeiros momentos de controle por parte da Juve, Tardelli recebeu uma bola na intermediária, próximo à linha lateral. Fez um cruzamento alto para o meio da área, onde estava Bettega. O atacante se atirou ao chão e testou firme para vencer o goleirão Iribar, aos sete minutos. Era tudo que a Juve precisava.

Não que o Athletic se rendesse tão facilmente. Quatro minutos depois, com Irureta, o herói das semifinais contra o Barcelona, os rojiblancos empataram. Dani tentou finalizar, mas acertou o colega, que desviou para o fundo das redes de Zoff. Havia esperança e o Athletic estava com a faca entre os dentes para buscar uma reviravolta. Dani chegou a ser derrubado por Gentile dentro da área, mas o árbitro não assinalou o pênalti, apenas escanteio.

Naturalmente, a defesa da Juventus começou a se sobressair, bloqueando todas as tentativas dos mandantes. Scirea e Morini estavam inspirados e não permitiriam que Zoff ficasse exposto para as finalizações do Athletic. Ainda no primeiro tempo, os bascos tiveram um gol anulado em jogada de Dani pela linha de fundo. Ele tocou para Lasa, que completou, mas o bandeira viu toque de mão de Dani no momento do domínio.

O segundo gol do Athletic saiu quando restavam pouco mais de doze minutos para o final. Escanteio cobrado na área juventina, Carlos Ruiz, que havia entrado pouco antes disso, acertou uma cabeçada fatal. O Athletic ficava mais perto de roubar a taça dos rivais. Um gol separava os alvirrubros da glória, em uma saga que tinha tudo para ser bem sucedida.

Zoff fez apenas mais uma defesa, a Juve se segurou bem e não passou mais sufoco. Dentro da casa do inimigo, vestindo o azul da Itália e representando como nunca a tradição do futebol de seu país, a equipe de Trapattoni comemorou a sua primeira glória internacional, falando apenas um idioma nos vestiários.

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