Sangue na grama: A lesão que abalou o futebol alemão nos anos 1980

Um carrinho violento dado por Norbert Siegmann em Ewald Lienen trouxe o caos para o futebol alemão. Acusado de incitar a violência em campo, o técnico Otto Rehhagel, do Werder Bremen, virou o ícone de uma polêmica arrastada no início da década de 1980.

Quem é o verdadeiro culpado por um carrinho desproporcional em um colega de trabalho? Quem responde por uma entrada violenta que tira sangue do rival em um lance banal de jogo? O técnico, que dita o ritmo e a dureza da marcação, ou o jogador que teoricamente apenas segue ordens e pode acabar ultrapassando o limite entre a dureza e a crueldade?

Werder Bremen e Arminia Bielefeld jogavam pela segunda rodada da Bundesliga, em 14 de agosto de 1981. Aos vinte minutos de partida, o zagueiro Norbert Siegmann, do Werder, entra de sola para tentar barrar o avanço do meia Ewald Lienen, do Arminia. O que parecia uma jogada normal acabou deixando um rastro inesquecível de horror.

As travas da chuteira de Siegmann acertaram a coxa de Lienen, abrindo uma fenda na pele e nos músculos do jogador, que teve seu osso do fêmur exposto. Uma imagem agressiva e chocante que dificilmente sai da memória de quem vê, mesmo que por um clipe.

Aos fatos: Siegmann, o autor da grosseria, só levou cartão amarelo. Lienen, com dores e sem acreditar muito no que estava acontecendo, se levantou e andou diretamente ao encontro de Otto Rehhagel, comandante do Werder Bremen. Rehhagel, na visão de Lienen, era o responsável pela brutalidade do Werder, ainda que o lance de Siegmann seja mais um exemplo de irresponsabilidade, não necessariamente de violência.

Depois de alguns instantes de discussão árdua (até mesmo os médicos do Arminia estavam assustados com a marca do golpe de Siegmann), Lienen foi retirado de campo para ser tratado e passou um bom tempo de molho no hospital, enquanto a sua ferida cicatrizava. Pouco importa, mas o placar daquele jogo foi de 1 a 0 para o Werder, gol de Norbert Meier.

Siegmann se defendeu na imprensa dizendo que a ordem não veio de Rehhagel e aquele carrinho, por mais impiedoso que tenha parecido, foi algo do jogo. Lienen discursava da cama do hospital contra a violência no futebol, e o quanto aquilo que lhe havia acontecido era grave e inaceitável.

O meia do Arminia alegou também que era claro que o Werder estava sendo instigado a usar de agressividade excessiva contra os adversários. “As pessoas precisam saber que os defensores nem sempre visam a bola nestas divididas. E que eles tem consciência do risco de lesionar um adversário. Isso é querer levar vantagem acima do conceito do fair play“, disse Ewald.

O caos em Bielefeld

A discussão aqueceu a cobertura da imprensa na época, que tratou o caso como uma batalha particular contra as táticas sujas de intimidação e desarme. Lienen entrou com um processo para pedir uma medida disciplinar da Federação Alemã a Rehhagel, que se defendeu: “O episódio acabou. Se você está envolvido nesta profissão, deve saber que está sujeito a lesões como aquela. Milhares de outras divididas não acabarão da mesma forma, é claro, mas vejo que somos inocentes neste caso, o que se confirmou nos tribunais.

Não foi bem assim que o público enxergou o desenrolar da atitude de Siegmann. Enquanto Lienen ficou mais de um mês fora de combate para se recuperar da horrorosa lesão na coxa, Rehhagel também pagou o preço. No jogo de volta entre Arminia e Werder, em Bielefeld, no dia 23 de janeiro de 1982, o clima estava pesado. Foi preciso policiamento extra, e a investigação pré-jogo evitou um grande desastre: dois torcedores foram detidos portando armas como uma faca e um revólver, provavelmente para atacar o técnico do Werder.

Por precaução, Otto entrou no gramado com escolta policial e usou um colete à prova de balas por baixo do casaco. Sob vaias e a hostilidade dos torcedores do Arminia, ele conduziu o Werder a outra vitória diante dos rivais, desta vez por 2 a 0, gols de Norbert Meier. Rehhagel escapou ileso de agressões, pois estava bem protegido contra qualquer eventualidade. Isso, claro, não quer dizer que ele não tenha ficado com o papel de vilão, algo que alimentou durante tantos anos dentro da Alemanha.

Lienen esteve em campo pelo Arminia no returno contra o Werder, mas não houve nova crise com Siegmann, que não foi escalado pelos alviverdes. Em 1983, Ewald voltou ao Borussia M’Gladbach e ficou no clube por quatro anos, até assinar com o Duisburg, onde encerrou sua trajetória, em 1992. Na temporada seguinte, assumiu como técnico do próprio Duisburg, iniciando uma longa carreira no cargo.

Apesar da enorme competência e da façanha de ter feito o Werder campeão ao fim da década, Otto Rehhagel continua sendo uma das figuras mais controversas do futebol alemão. Seu grande mérito ainda é o de ter levado a Grécia ao topo na Eurocopa de 2004, contrastando com o perfil autoritário e político nos bastidores, o que rendeu a expressão ottocracia naquela época.

Otto sempre foi um homem de muitas convicções, e ainda que não admita, pode ter sido o gatilho de Siegmann naquela entrada infeliz em Lienen, um dos momentos mais marcantes da história recente da Bundesliga. Quem diria que um carrinho supostamente despretensioso iria gerar tantos problemas…

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