Platini e o canto do cisne do grande Saint-Etienne

Michel Platini liderou o Saint-Etienne ao título em 1981, encerrando um período dourado para os alviverdes. A conquista da Ligue 1, por margem estreita em relação ao Nantes, representou o fim de toda a glória do maior campeão nacional da França.

Quando a década de 1980 estava começando na França, não havia quem não apostasse no Saint-Etienne como favorito para levar o título. Aqueles eram tempos em que o Paris Saint-Germain ainda dava seus primeiros passos na elite, que o Olympique de Marseille tentava engrenar com estrangeiros qualificados e que Nantes, Bordeaux e Monaco é que ofereciam resistência ao domínio dos Verts. 

De 1964 a 81, o Saint-Etienne conquistou nove de seus dez títulos, batalhando quase sempre contra o Nantes, sob o comando do excêntrico presidente Roger Rocher. Um homem que fez fortuna como empresário . Para se ter uma ideia da força dos Verts naquela fase, eles engataram duas ótimas sequências de títulos em duas ocasiões: o tetra de 1967 a 70 e o tri de 74 a 76. Como processo natural de evolução, este time chegou até a final da Copa dos Campeões Europeus em 76, mas perdeu para o Bayern de Munique em uma final memorável. 

Foram cinco anos como coadjuvante enquanto Nantes, Monaco e até mesmo o Strasbourg foram campeões. A máquina do técnico Robert Herbin dependia do talento de Michel Platini para vingar. O meia, que chegou em 1980 ao clube depois de ótimas temporadas pelo Nancy, tinha 26 anos e vivia grande momento. Ao lado dele, outras estrelas como Johnny Rep, Jacques Santini e Patrick Battiston davam força ao elenco de Herbin, bem entrosado e sedento por retomar o trono de grande campeão.

Se em 1974 o Saint-Etienne se tornava o maior vencedor da Liga, com sete títulos, ultrapassando o lendário Stade de Reims dos anos 1950 e 60, em 1981 a missão era abrir vantagem em relação ao Marseille, que seguia o mesmo caminho. E assim, começou a arrancada para o décimo troféu. Vestindo uma das camisas mais belas de sua história, um verde característico com listras finas na horizontal, os Verts formavam um batalhão competente da defesa ao ataque e a marca da campanha foi a solidez na retaguarda, que concedeu apenas 26 gols em 38 jogos.

O campeonato definitivo

A  busca ao décimo troféu não começou bem. O Saint-Etienne perdeu seus dois primeiros jogos como visitante, levando uma surra do Bordeaux na estreia (3 a 0) e caindo diante do Bastia por 2 a 1. Bernard Lacombe, um dos maiores artilheiros da Ligue 1, se consolidou como o carrasco, com dois tentos na rodada inicial. Alain Giresse completou o placar para os girondinos. Já na derrota contra o Bastia, um certo Roger Milla consolidou a vitória magra dos Bleus. 

Herbin, que conhecia bem seus jogadores e estava desde 1957 no clube, quando começou como atleta, promoveu uma verdadeira revolução nos vestiários. Era hora de mostrar seriedade. A reação começou na quarta rodada, com uma boa vitória por 4 a 1 sobre o Nancy (Platini marcou dois). Era o que o grupo precisava para recuperar a confiança. Daí em diante, vários atropelamentos devolveram o Saint-Etienne ao topo. Foram dezesseis rodadas até que eles fossem derrotados novamente, contra o Tours, em pleno estádio Geoffroy Guichard, por 2 a 1.

Bem arrumado e com a cabeça no lugar, o time de Herbin fez muitas vítimas enquanto crescia na competição. Goleou o Angers, o Valenciennes (com outro show de Platini, que marcou duas vezes), dominou o Metz e o Sochaux, todos por margem de três gols ou mais. Nos duelos diretos contra o Nantes, dois empates que demonstraram o equilíbrio da batalha entre eles. Até a 38ª jornada, eles alternaram três vezes de posição. O Nantes chegou a se manter por seis rodadas no topo, mas um empate dos Canários contra o Strasbourg, na rodada 29, devolveu a liderança ao Saint-Etienne.

A derrocada do Nantes foi fatal. Na reta final, em nove jogos, eles somaram apenas três vitórias e viram os alviverdes se distanciarem. Os repetidos empates adiaram o sonho do sexto título, posteriormente conquistado pelo Nantes em 1983. Não que Platini e seus colegas não tenham tropeçado, afinal, foram mais quatro empates e uma derrota antes da consagração. Entretanto, quando precisou mostrar serviço, o Saint-Etienne sobrou, vencendo seus três últimos confrontos.

Platoche: o motorzinho que foi o artilheiro do clube por duas temporadas seguidas

A briga estava restrita entre os dois líderes, enquanto Bordeaux e Monaco estavam mais desgarrados. Na última rodada, foi confirmada a taça para os Verts, com um triunfo contra o Bordeaux, por 2 a 1, dois de Platini. Michel acabou a competição com 20 gols, quatro a menos do que o artilheiro, Delio Onnis, do Tours. Com a conquista, ficou difícil para qualquer outro clube alcançar a marca dos dez campeonatos. O Marseille, que chegou mais perto nos anos 2000, parou nos nove.

Na temporada seguinte, Platini aumentou seu número de gols para 22, mas mesmo com desempenho parecido na tabela, o Saint-Etienne ficou com o vice, somando um ponto a menos do que o Monaco. Foi o suficiente para que a Juventus fizesse uma proposta aos franceses para levar o grande camisa 10 embora. Na Itália, Platini mostrou ser um dos melhores do mundo até a sua aposentadoria, em 1987.

A crise

Rocher, de cachimbo, ao lado do grande técnico dos Verts, Robert Herbin

Para o Saint-Etienne, perder seu maestro foi decisivo para o declínio. Mas o tumulto na gestão foi o grande fator a destruir todo o sucesso que havia sido alcançado sob o comando de Herbin. Escândalos financeiros e fraudes levaram o presidente Roger Rocher para a cadeia. Sem ele, a agremiação perdeu força e parou de investir em novas contratações. Com a saída de Herbin, em 1983, para o Lyon, os maiores campeões da França foram rapidamente ao inferno.

Rebaixados em 1984, os Verts estavam beirando a falência quando retornaram à elite em 1986. Uma lenta recuperação permitiu que eles ficassem até o fim da década de 1990 na primeira divisão. Até que uma nova crise, em 1996, trouxesse outro descenso. Cada vez que caía, a equipe demorava mais tempo para retornar. Dois anos na primeira, três na segunda e quatro temporadas na terceira ocasião. Um verdadeiro drama para quem dominava o país até os anos 80.

Condenados a passear pela Ligue 2, os decacampeões simplesmente não conseguiam se livrar de encrencas. A última, em 2001, que manchou definitivamente a reputação no cenário nacional, envolvia passaportes falsos para jogadores estrangeiros, em um esquema que contava com diretores do clube como intermediários. Desde 2005, o Saint-Etienne se firmou na elite. E apenas em 2013 conseguiu levantar outro troféu, pela Copa da Liga, vencendo o Rennes por 1 a 0, gol do atacante brasileiro Brandão.

Recuperar o respeito de antigamente é a missão mais árdua que o Saint-Etienne encara desde a sua fundação. Nunca mais haverá outro Platini, o velho Herbin já está aposentado e com quase 80 anos de idade e a categoria de base também já não produz tantos craques importantes. Tudo mudou para os Verts, e para pior. A luz no fim do túnel é a presença recorrente na Liga Europa, o que é um indício de que novamente se respira ar saudável nas arquibancadas Geoffroy Guichard.

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