O último beijo nas redes do Sarriá

Casa do Espanyol por mais de setenta anos, o Sarriá abrigou um dos momentos mais tristes da história do futebol brasileiro, em 1982. Quinze anos depois da fenomenal atuação da Itália de Paolo Rossi, o estádio catalão fechou as portas e teve Iván Campo como o seu último goleador.

Paolo Rossi condenou o Brasil a chorar para sempre quando demoliu o sonho de que a Seleção de 1982 fosse campeã em solo espanhol. O jejum brasileiro de fato demorou mais alguns anos para acabar, diante da própria Itália, mas ninguém esquece o pequeno carrasco e nem o nome do estádio onde ele brilhou com tanta força naquela Copa do Mundo.

O mais incrível é que o Sarriá teve 74 anos de vida e é impossível não apontar aquele Brasil e Itália como o duelo mais marcante que já aconteceu naquele gramado. O triangular C do Mundial, equivalente à segunda fase, teve todos os seus jogos no Sarriá, marcando encontros entre Brasil, Itália e a Argentina.

À parte deste fenomenal trio de gigantes, o gigante de concreto na Catalunha recebeu uma final peculiar da Copa Uefa, onde o mandante Espanyol foi derrotado pelo Bayer Leverkusen, que conquistava sua primeira taça. No mais, a Olimpíada de 1992, em Barcelona, precisou do Sarriá em cinco partidas na primeira fase, e só. Foi essa a contribuição da casa dos Periquitos para o futebol internacional.

Para os espanhóis, o local tem certa importância para a liga local: foi lá que saiu o primeiro gol de toda a história do Campeonato Espanhol, em 1929, marcado por José Prat, em vitória por 3 a 2 do Espanyol contra o Real Union Club. Ofuscado pela presença e pela mística do Camp Nou, o Sarriá sempre foi o segundo estádio catalão, assim como o Espanyol nunca se incomodou de viver à sombra do Barça, autoproclamando-se como “uma minoria maravilhosa”.

Em 1997, a situação financeira do clube era dramática e o Sarriá precisou ser vendido a investidores. Pelos doze anos seguintes, o Espanyol jogou no Olímpico de Montjuic, até que o novo e moderno Cornellà El-Prat foi inaugurado em 2009. E a história acaba quase da mesma forma como começou, ao menos em La Liga, naquele ano de 1929.

O placar do último jogo do Sarriá foi o mesmo: 3 a 2 para o Espanyol, contra um combalido Valencia que ofereceu uma disputa ferrenha e um golaço de Iván Campo.

Iván Campo, 77′

Era a última rodada da Liga em 1996-97, as arquibancadas e o campo estavam lotados. O Espanyol de Torres Mestre e Pocchettino não fez boa campanha, mas não estava mais arriscado de rebaixamento, abrindo boa vantagem para os times na zona de descenso. Três anos antes, eles retornavam de uma queda inesperada para a segunda divisão.

Aos 27 minutos, Vlaovic abriu o placar para os Che, de pênalti. Seria uma mancha na história do Espanyol encerrar as atividades de seu estádio com uma derrota em um jogo que não valia nada? Para os torcedores que esperavam uma última grande apresentação, os gols de Ouedec, Pralija e Cobos (todos na segunda etapa) serviram como deleite. De virada, os periquitos reverteram a desvantagem em pouco tempo, precisaram apenas de 12 minutos depois da volta do intervalo. Rendido, o Valencia criava pouco e não levava perigo. Até a arrancada de Iván Campo.

Iván, um volante/zagueiro habilidoso, começou a carreira em 1992 pelo Logroñés e passou alguns anos defendendo o Alavés antes de estrear no Valencia. Naquela temporada de 1996-97, era apenas o oitavo jogo em que Campo era escalado. E não fez feio. Depois daquele dia, ele trilhou carreira por Mallorca, Real Madrid, Bolton, Ipswich e AEK Larnaca, virando um ícone para os fãs de futebol alternativo em sua passagem pela Premier League.

Mostrando evolução e certa aptidão para longas arrancadas, ele partiu com a bola dominada desde a sua intermediária, deixando dois marcadores para trás antes de fazer um passe para Fernando, que devolveu e deixou o colega em ótima condição. Apenas o goleirão Toni vinha pela frente, completamente maluco, fora da área. Mas Iván optou por dar um chute alto, acertando com perfeição a meta catalã, desprotegida.

As redes do Sarriá nunca mais balançaram. Com a batida de Campo, veio também o fim dos 74 anos de fervorosa torcida, onde uma certa minoria maravilhosa se encontrava periodicamente para saudar o orgulho catalão. Não esqueçamos que o Sarriá, antes de mais nada, serviu de palco para a consagração de seus donos, nas duas conquistas da Copa do Rei, em 1929 e 40.

O Espanyol nunca levantou uma Liga, mas isso pouco importa. As quatro taças da Copa do Rei (as outras vieram em 2000 e 2006) fazem parte de um imaginário que não se deixa abalar pela falta de projeção desportiva. É preciso ser desapegado das vitórias e da esperança para poder compreender e amar por completo o Espanyol, seja no Sarriá, no Olímpico de Montjuic ou no Cornellà El-Prat.

Quem visita o terreno onde era localizado o Sarriá, na Passatge de Forasté, de número 23, verá uma série de prédios, um ginásio pequeno, várias quadras de tênis e uma piscina anexada, uma rua coberta por árvores. Uma simples placa recorda o que se vivia ali antes de 1997. Estádio, mesmo, só na lembrança.

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