A legião holandesa que levou o Mechelen à glória

Entre os campeões da extinta Recopa Uefa está o meteórico belga Mechelen. Vencedora do torneio em 1988, a modesta equipe teve três anos inesquecíveis no fim da década de 1980, quando contava com um contingente holandês no elenco. Apesar da façanha, o auge durou pouco para eles.

Quando se aposta alto no futebol, o sucesso pode ter vida curta. O oxigênio para as vitórias, se dependente do dinheiro, corre grande risco de acabar em um piscar de olhos. O pulo do gato quase sempre acontece quando algum investidor se propõe a colocar valores significativos para fortalecer um time. Por outro lado, se os títulos não vêm ou uma grande crise se abate sobre a equipe, o desfecho é o mesmo: decadência e irrelevância.

O Mechelen é um grande exemplo de sucesso fugaz. Durante os anos 1970, a equipe belga transitou entre a primeira e a segunda divisão, sem qualquer projeto de recuperação. Em 1983, quando subiu e contou com o aporte financeiro do presidente John Cordier, as coisas começaram a mudar. O mandatário era um empresário bem sucedido no ramo da tecnologia da comunicação. Sua companhia, a Telindus, estava indo muito bem na bolsa de valores em 1982, ano em que ele assumiu a presidência do Mechelen.

A aposta de Cordier no clube rendeu frutos rapidamente. O desempenho nacional melhorou e em 1987 os Malinois conquistaram a Copa da Bélgica, o primeiro troféu em quase quarenta anos. Mas para explicar essa melhora, é preciso voltar um pouco no tempo, para 1986, quando foi contratado o maestro responsável por fazer o Mechelen engrenar: Aad de Mos, holandês que tinha curta carreira como treinador, mas que havia passado pelo Ajax. Ele era adepto de um futebol mais ofensivo, oposto à corrente defensiva que vinha influenciando times do mundo todo.

As indicações do chefe

Com de Mos, outros holandeses começaram a desembarcar na Bélgica para o projeto. O atacante Piet den Boer, grandalhão que ostentava uma longa cabeleira e um bigode, já estava no clube desde 1983. Mas a chegada do novo treinador foi a cereja no bolo do que estava sendo feito desde 1985, com o meia Erwin Koeman e o zagueiro Graeme Rutjes.

O volante Wim Hofkens, o zagueiro Lei Clijsters e o goleirão Michel Preud’homme, que já se encontravam no futebol belga, foram outras peças contratadas com o aval do comandante para completar o elenco campeão da Copa nacional em 1987. Para o passo seguinte, a diretoria assegurou as contratações dos atacantes Eli Ohana, Pascal De Wilde e do meia Marc Emmers. Sem ostentar e nem apostar em estrelas.

Este título foi o ingresso para a Recopa Uefa de 1987-88, que tinha o Ajax como detentor do troféu. Na temporada anterior, a equipe treinada por Johan Cruyff derrotou o Lokomotiv Leipzig na decisão. Cruyff seguiu para o Barcelona em janeiro de 1988, onde fez história com o Dream Team. Para o seu lugar, os Godenzonen trouxeram Barry Hulshoff, ex-zagueiro do próprio Ajax, que infelizmente não teve vida longa no cargo.

Na sua campanha até a decisão, o Mechelen foi crescendo conforme as adversidades. Deixou Dinamo Bucareste, St. Mirren, Dinamo Minsk e Atalanta pelo caminho em quatro eliminatórias disputadíssimas. De repente, os belgas chegavam como concorrentes para impedir o bicampeonato do Ajax.

Clijsters trocou flâmulas e apertos de mão com o capitão do Ajax, John van’t Schip

Eram quatro holandeses no time titular (Rutjes, Hofkens, Koeman e den Boer), além do treinador. Com a experiência deles, os Malinois promoviam uma intensa marcação no meio-campo, com três homens, e um ataque com dois pontas (Ohana e De Wilde) armando jogadas para o centroavante den Boer. Lá atrás, o capitão Clijsters conseguia afastar o perigo nas jogadas aéreas e com boa saída de bola. Não era um esquadrão memorável ou digno de álbum de figurinhas, mas a boa organização permitiu que os belgas equilibrassem e eventualmente conseguissem dominar o duelo contra um forte Ajax.

11 de maio de 1988, Strasburgo, França. O Stade de la Meinau recebeu quase quarenta mil torcedores para a decisão da Recopa. O alemão Dieter Pauly ficou responsável pela arbitragem. Aos 16 minutos, Daley Blind acabou expulso pelo Ajax. O defensor deu um carrinho por trás em Emmers, matando um contragolpe que poderia ser fatal. Revoltados, os belgas pediam o cartão vermelho, que foi prontamente exibido pelo senhor Pauly.

Depois de muita pressão à meta do Ajax, que estava com apenas dez em campo, saiu o único gol da noite, marcado por den Boer, já na segunda etapa. Ohana bagunçou com Verlaat e cruzou à meia-altura para o camisa 11 cabecear. Enquanto Menzo fechava o gol pelo Ajax, Preud’homme quase não trabalhava. Apenas nos minutos finais, com uma paulada de Bosman é que o lendário arqueiro apareceu para salvar os companheiros. Foi o suficiente para coroar os campeões do Mechelen.

O sonho derretido

A história, no entanto, não termina aí. Ainda mais motivado, o Mechelen estendeu seu domínio e venceu o PSV na Supercopa de 1988, erguendo mais uma taça. E em quesito nacional, os comandados de Aad de Mos também superaram o status de segunda força na Bélgica e bateram o Anderlecht para ficar com o título da Liga em 1989, com o reforço do jovem promissor Marc Wilmots e do meia John Bosman, que deixara o Ajax.

Na semifinal da Recopa Uefa de 1988-89, o Mechelen não foi capaz de superar a emergente Sampdoria de Mancini e Vialli, sendo eliminada antes mesmo de conseguir participar de outra final. O céu era o limite quando foi confirmado o título da Liga Belga, após 41 anos de espera. Contudo, deste ponto em diante, já sem de Mos, que foi para o Anderlecht, o clube desceu a ladeira. A chegada de outro ídolo holandês para o banco de reservas não surtiu efeito: Ruud Krol só ficou seis meses antes de ser demitido. Fi van Hoof ficou com a missão de resgatar o orgulho dos Kakkers.

Depois de apenas bater na trave em 1990, o presidente John Cordier começou a retirar gradualmente o investimento em contratações e infraestrutura, em virtude de uma crise financeira na sua empresa. Este fator foi crucial para tirar o fôlego de uma das sagas mais interessantes do futebol europeu naquela época. Mesmo indo até as quartas de final da Copa dos Campeões em 1990 e brigando até o fim por títulos nacionais na Liga e na Copa da Bélgica, o Mechelen sofreu um declínio justamente em um momento em que parecia destinado a se consolidar como forte opositor do Anderlecht.

Rebaixamentos e fortes crises financeiras abalaram o campeão da Recopa de 1988, que parece finalmente ter voltado para ficar na elite belga. Há dez anos eles não sabem o que é disputar a segunda divisão. São pequenos passos para tentar devolver o orgulho aos torcedores. Mas aqueles tempos vitoriosos ficaram no passado, num tempo frutífero em que a legião holandesa liderada por Aad de Mos elevou o Mechelen de patamar.

 

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