A derrota dolorosa que fez o Dortmund ganhar força na Europa

Na final de 1993 da Copa Uefa, Juventus e Borussia Dortmund se enfrentaram em dois jogos decididos na base do talento e com grande margem favorável aos italianos. A surra no agregado serviu de aprendizado para os alemães, que se fortaleceram e deram o troco, quatro anos depois.

O Borussia Dortmund ainda estava experimentando altos voos na Europa no início da década de 1990, quando chegou até a final da Copa Uefa, tanto tempo depois do título da Recopa Uefa, em 1966, com outros craques. Os anos 1970 e 80 não trouxeram grandes lembranças para a torcida, mas depois do vice-campeonato alemão em 1992, tudo começou a entrar nos eixos.

Sob o comando de Ottmar Hitzfeld e com Stephane Chapuisat como referência no ataque, os aurinegros sonhavam com a soberania no torneio secundário da Uefa. Era o primeiro passo para a grandeza, pensavam eles. Aos poucos, o elenco ia ganhando forma com a filosofia de Hitzfeld. Em 1993, um plantel modesto foi incumbido da tarefa de derrotar a poderosa Juventus na luta pelo troféu da Copa Uefa.

De um lado, Angelo Peruzzi, Júlio César, Jürgen Kohler, Antonio Conte, Andreas Möller, Gianluca Vialli e Roberto Baggio. Do outro, sem a menor pompa e com a pecha de azarão, o Dortmund tinha poucas estrelas como Stefan Klos, Stefan Reuter, Michael Rummenigge, Chapuisat e Michael Zorc. Pouco para quem esperava barrar o ímpeto bianconero.

Em dois jogos, a Copa Uefa se resolveu facilmente para os italianos, com duas vitórias confortáveis. A primeira, por 3 a 1, em pleno Westfalenstadion, foi dominada pelos Baggios. Dino e Roberto (2x) marcaram os gols da Velha Senhora, enquanto Rummenigge marcou o de honra dos mandantes, logo aos dois minutos. A empolgação por abrir o placar não se sustentou quando a Juve partiu para cima e reagiu até virar e efetivamente vencer o confronto. A defesa do Dortmund simplesmente não deu conta do poderoso ataque juventino formado por Baggio e Vialli.

Com uma mão na taça, Giovanni Trapattoni não abriu mão de atacar ainda mais quando recebeu os germânicos no Delle Alpi, em 19 de maio. Cerca de 62 mil pessoas prestigiaram a consagração de um time que estava lutando por seu espaço enquanto o Milan arrasava a Itália e a Europa com o seu trio holandês.

Uma nova vitória juventina, por 3 a 0, condenou os alemães a uma derrota ardida e que trouxe algum aprendizado. Dino Baggio (2x) e Möller jogaram a última pá de cal na decisão. Aos 40 minutos da primeira etapa, o agregado já marcava 5 a 1 para os italianos, sem qualquer chance de reação para o Dortmund, que ainda viajou desfalcado de Chapuisat. Não houve resposta dos visitantes, que se limitaram a fechar a defesa para evitar uma goleada histórica.

Roberto Baggio levantou a taça naquele que foi seu último grande momento na Juve. Com a chegada de Alessandro Del Piero, no segundo semestre, o gênio do rabo de cavalo perdeu espaço e prestígio com a diretoria, até efetivamente trocar o clube pelo Milan, em 1995. Mas não era só isso que mudava na configuração dos times após aquela decisão em Turim. O Dortmund também se modificou.

A resposta de Ottmar

Hitzfeld seguiu no comando do Dortmund e promoveu uma revolução que trouxe os maiores títulos da história do clube

Novas peças foram chegando ao Borussia, que queria subir mais um degrau. O atacante Karl-Heinz Riedle era o mais aguardado, vindo de bons anos pela Lazio. Além do goleador, chegaram o volante Matthias Sammer, da Internazionale e o jovem Lars Ricken, de apenas 17 anos, vindo da base. Estes três foram pilares na arrancada que culminou no bicampeonato alemão em 1995 e 96.

Em 1994, Möller e Júlio César deixaram a Juventus para assinar com o Dortmund, pois faziam parte de um plano especial de Hitzfeld. Em 1995, logo após o primeiro título alemão em 32 anos, mais reforços ajeitaram a casa aurinegra: o zagueiro Köhler (outro ex-Juve), os meias Patrik Berger, Jörg Heinrich e os atacantes Heiko Herrlich e Ruben Sosa. Köhler, aos 30 anos, estava na fase final da carreira e podia entregar a solidez defensiva que o Dortmund de 1993 passou longe de encontrar.

De longe, o Dortmund observava a Juventus renovar o seu salão nobre com a conquista da Liga dos Campeões em 1996, de forma dramática, contra o Ajax. Naqueles tempos, era frequente ver um clube ser campeão e voltar no ano seguinte para defender o título. Não à toa, o Milan passou o bastão para o Ajax em 1995, os holandeses retornaram em 1996 para enfrentar a Juventus, e a própria Juve tentou o bicampeonato em 1997.

Neste intervalo, os alemães reencontraram a Juventus na fase de grupos da Champions em 1996. Ficaram em segundo lugar atrás dos algozes de 1993. Quando chegou a hora do mata-mata, os meninos de Hitzfeld sucumbiram diante do Grande Ajax de Louis Van Gaal, nas quartas de final. O sonho maior ficou para a temporada posterior. E como não dava para recuar, o Borussia investiu ainda mais forte para 1996-97. Chegavam Wolfgang Feiersinger, Paul Lambert e Paulo Sousa, os últimos ajustes no elenco campeão.

Fortalecido com o bicampeonato nacional, o Dortmund somou 13 pontos na fase de grupos e saiu para o mata-mata colado no líder Atlético de Madrid, com a mesma pontuação. Eliminando o surpreendente Auxerre, os aurinegros avançaram à semifinal para pegar o Manchester United, vencendo duas vezes por 1 a 0. Quatro anos depois da final da Copa Uefa, era hora de disputar outro troféu continental, diante do mesmo adversário: a Juventus bateu o Ajax na semifinal e garantiu o ingresso para a finalíssima.

Vingança em Munique

Quando os dois times se viram outra vez, em 1997, a Juventus continuava sendo a favorita. Mas o Dortmund tinha o trunfo de jogar em Munique, perto de sua torcida. Além disso, três figuras campeãs da Copa Uefa em 1993 haviam mudado de lado: Köhler, Júlio César e Möller. Deste trio, apenas o zagueiro brasileiro não foi titular na partida de 1997.

O placar de 3 a 1 em Dortmund ainda estava gravado na mente de alguns jogadores como Klos, Reuter e Chapuisat. Zorc, que também esteve no revés de 1993, começou no banco. O relógio marcava 29 minutos quando Riedle tirou o zero do placar e colocou os alemães em vantagem. Aos 34, voltou a balançar as redes e, de cabeça, praticamente decidiu o confronto. Ainda restava a cereja do bolo. Del Piero, de letra, diminuiu para a Juve e deu esperanças aos italianos, mas não foi suficiente.

No minuto 71, o menino Ricken, que havia acabado de entrar, recebeu um bom passe na intermediária, viu Peruzzi adiantado e tocou por cima. Um golaço que entrou imediatamente para a galeria dos clássicos de finais europeias. Com esta obra de arte, o Dortmund alcançava o céu e, de quebra, se vingava da surra sofrida contra a Juventus em 1993.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *