Pat Jennings: Das montanhas irlandesas para a eternidade em Londres

Com mais de mil jogos na carreira, o goleiro Pat Jennings se notabilizou pelos grandes anos por Tottenham e Arsenal. A longevidade do norte-irlandês é apenas uma das marcas pioneiras que ele teve em sua vida desportiva.

Ser ídolo de dois clubes rivais é uma honraria que pouquíssimos homens conseguiram em toda a história do futebol. Por agora, dispensamos relembrar outros nomes para focar apenas na lenda de Pat Jennings, um goleiro fora de série que teve 23 anos como profissional e atravessou as décadas de 1960, 70 e 80 em alto nível.

De 1963 a 1986, Jennings passou por Watford, Tottenham e Arsenal, com histórico vencedor e respeito de ambas as torcidas em Londres. A caminhada no futebol inglês começou pelo Watford, e foi preciso apenas uma temporada para que Pat fosse convocado para a seleção da Irlanda do Norte, aos 18 anos. A estreia aconteceu no mesmo dia em que George Best debutava com a camisa alviverde.

Quando juvenil, Jennings defendia a equipe sub-18 do Shamrock Rovers, mas optou por seguir alguns anos praticando futebol gaélico. Por cinco temporadas, esteve de fora do alvo de clubes irlandeses, até que o Newry City lhe fez um convite para retornar. Um ano depois, ele tomava o caminho da Inglaterra para assinar com o Watford, na terceira divisão local, subindo definitivamente para o profissional. Titular logo de cara, o norte-irlandês fez todas as partidas da temporada com os Hornets.

O desempenho chamou a atenção do Tottenham, em 1964. Os Spurs viviam a década mais gloriosa do clube, com o título inglês, três taças da Copa da Inglaterra e a Recopa Uefa. Jennings caiu como uma luva no elenco, sendo a última grande barreira defensiva na formação de Bill Nicholson. Com a camisa do Tottenham, o arqueiro ganhou o status de um dos melhores do mundo na posição.

Algumas marcas deste período são bem significativas: em 1967, pelo Charity Shield, Jennings fez um gol da sua área contra o Manchester United, o segundo no vídeo abaixo. Na reposição, ele chutou alto e a bola quicou, encobrindo o goleiro Stepney, do United. A partida terminou em 3 a 3 e não houve vencedor declarado, o título foi dividido entre os dois times. Anos mais tarde, em 1973, Pat foi eleito o melhor jogador da temporada pela Associação dos Cronistas Esportivos da Inglaterra. E em 1976, repetiu o feito com a premiação pela Associação dos Futebolistas Profissionais. Ele foi o primeiro goleiro a conseguir tal reconhecimento.

Em suas treze temporadas como arqueiro do Tottenham, Jennings amadureceu e completou 32 anos de idade como ídolo em White Hart Lane, em 1977. Depois de fechar o gol nas conquistas da Copa da Inglaterra em 1967, da Copa da Liga em 1971 e 73 e da Copa Uefa em 1972, Pat ficou diante de uma decisão difícil na carreira: deixar os Spurs. Mas ele não trocou o clube por qualquer um, e se mudou para Highbury para jogar no Arsenal.

Os melhores anos de Jennings não haviam passado. Nos Gunners, ele manteve o nível e teve a chance de disputar a Copa do Mundo de 1982, a primeira da Irlanda do Norte. Apesar de ter vencido a Copa da Inglaterra de 1979, o Arsenal ficou na saudade em outras três decisões no fim da década de 1970 e início dos anos 80. Foram três finais da Copa da Inglaterra, de 1978 a 80, e a disputa pela Recopa Uefa, perdida para o Valencia de Mario Kempes. 

LEIA MAIS: Muito antes do “Fergie Time”, o Manchester United perdeu uma final nos acréscimos

Pode-se pensar que o fim da linha estava próximo para Jennings, mas o camisa 1 achou tempo e fôlego para quebrar mais recordes. Em 1983, superou a marca de mil jogos, sendo o primeiro de toda a organização do futebol inglês a conseguir tal feito. E a sua despedida oficial do esporte, em 1986 (depois de um ano na equipe reserva do Tottenham), foi em plena Copa do Mundo, no seu aniversário de 41 anos, contra o Brasil.

A Irlanda do Norte não tinha mais nenhuma chance de se classificar, tendo somado um ponto em duas partidas. Para a despedida, diante dos favoritos comandados por Telê Santana, Jennings sofreu três gols, mas teve o palco ideal para acenar pela última vez e comemorar mais um ano de vida. Em mais de duas décadas de serviço, Pat participou de seis eliminatórias para Mundiais, de 1966 a 86, um recorde que perdurou de maneira isolada por mais de vinte anos, até que Dwight Yorke e Russell Latapy (Trinidad e Tobago) igualaram o feito, em 2010, na qualificação para a Copa na África do Sul.

Jennings não foi execrado pelos Spurs quando mudou de lado. Tudo o que se podia sentir por ele era respeito, admiração, idolatria. De todos os títulos em que ele passou perto de conquistar, talvez a ausência mais sensível seja a do Campeonato Inglês. Pat diz que este é seu único arrependimento, mas que o resto de sua vida foi perfeito.

Aliás, o ex-goleiro garante que o futebol profissional era apenas um grande e distante sonho. E que se não fosse atleta, provavelmente trabalharia como lenhador em alguma montanha irlandesa. “Nunca achei que (o futebol) era para mim, que estava ao meu alcance. Eu comecei jogando por equipes sub-19, fui convocado desde os 17 para equipes de base na seleção. Não sonhava que fosse viver disso. Em um momento, estava saindo da minha casa nas montanhas, e dez dias depois, jogava a final europeia sub-19 em Wembley.” 

Na partida em questão citada por Pat, a Irlanda do Norte desafiou a Inglaterra na decisão da Eurocopa sub-19 de 1963. Os ingleses venceram por 4 a 0. Aquele foi o passaporte para o Watford, que abriu a Pat todas as portas para o futebol inglês nos anos seguintes. Quem diria que um goleiro tão vazado em uma decisão seria tão grande na memória e no afeto de dois clubes tradicionais em Londres?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *