O zagueiro que marcou quatro gols no mesmo jogo (e dois foram contra)

Zagueirão norte-irlandês Chris Nicholl teve longa carreira no futebol inglês e até disputou a Copa do Mundo de 1982 como titular. Entretanto, seus 19 anos como atleta foram marcados pelo infortúnio em uma partida do Aston Villa contra o Leicester, em 1976.

No Youtube, quando procuramos o termo “Chris Nicholl Aston Villa”, o primeiro e mais marcante resultado é o golaço que o camisa 5 fez contra o Everton, na final da Copa da Liga de 1977. O zagueiro carrega a bola e dá um chute fortíssimo, que cai à meia altura e vence o arqueiro dos Toffees. Aquele foi o ponto alto da carreira do defensor, que já havia sido campeão do mesmo torneio em 1975, também com o Aston Villa.

Nicholl começou em 1966, pelo Burnley. Rodou por Witton Albion, Halifax Town e Luton antes de desembarcar em Birmingham para assinar com o Villa, em 1972. Dois anos depois, Chris já defendia a Irlanda do Norte, equipe que defendeu no Mundial de 1982, na Espanha. Estes feitos, por mais honrosos que sejam para um atleta profissional, foram de certa forma ofuscados por um jogo em especial, no ano de 1976, contra o Leicester.

O Villa enfrentava os Foxes pelo Campeonato Inglês, em 19 de março. Fora de casa, em Filbert Street, a equipe treinada por Ron Saunders viveu um dia atípico, onde o seu capitão foi o responsável por todos os gols no placar de 2 a 2, na rodada 35.

Neste contexto, há que se lembrar também que o Aston Villa estava em situação delicada na tabela, a sete pontos da zona de rebaixamento. O que Nicholl fez, no entanto, transcendeu a importância do duelo para ambos os times. O primeiro gol da noite foi dos mandantes, aos 15 minutos. Um chute de longa distância ia para fora do gol defendido por John Burridge, mas desviou na cabeça de Nicholl e balançou as redes. O segundo, pelo Villa, saiu aos 40, em uma sobra de escanteio na área. Chris emendou o rebote e fuzilou a meta de Mark Wallington, goleirão do Leicester.

Nicholl foi capitão do Villa entre 1974 e 76. Foi bicampeão da Copa da Liga com o clube de Birmingham

À aquela altura, o encontro já ganhava contornos históricos. O terceiro gol, que garantiu o hat-trick de Nicholl, recolocou o Leicester na frente. E de acordo com o próprio jogador, foi um dos gols mais bonitos de sua carreira, de peixinho, por cobertura. Burridge tentou se lançar ao alto para defender, mas não alcançou, aos sete minutos da etapa final. Já era uma tremenda façanha, que não parou por aí. Aos 41, em um escanteio, ele subiu para cabecear e deu o empate para o Aston Villa. Isso mesmo que você leu: o mesmo cara foi o responsável pelos quatro gols de um empate em 2 a 2.

Quarenta anos depois do feito, Nicholl contou que todo o episódio foi tratado com muito bom humor. E que ele chegou a pedir a bola do jogo para o árbitro, mas este negou pelo fato de estar se aposentando no mesmo dia. “Meu primeiro e único hat-trick pelo Villa e nem sequer levei a bola para casa. Ninguém quis tirar sarro comigo nos vestiários, eu era o maior jogador do time, então eles tinham de pensar bem no que falavam para mim. Só ouvi coisas leves, então não guardo más lembranças daquele dia”, confessou Chris.

Curiosamente, se pesquisarmos um pouco mais na tabela daquela edição do Campeonato Inglês, na rodada anterior, o Tottenham derrotou o Aston Villa por 5 a 2 em White Hart Lane. E o primeiro gol da partida também foi marcado por Nicholl… contra o próprio patrimônio. Seria um ensaio para o que ocorreu em Filbert Street?

A carreira do defensor ainda teve bons momentos até a aposentadoria, em 1984. Em 1977, ele assinou com o Southampton e foi titular durante grande parte do tempo. Seis anos depois, pelo Grismby Town, perdeu espaço e se despediu do esporte, para se transformar em treinador dos Saints e do Walsall, além de ocupar o cargo de assistente técnico na seleção da Irlanda do Norte, entre 1988 e 2000.

Amnésia

A última aparição de Nicholl na mídia inglesa foi para falar sobre seus tempos de jogador e um problema sério que atinge vários jogadores de sua época: os danos cerebrais causados por repetidas cabeçadas. Em janeiro de 2017 Chris afirmou ao Daily Mail que tinha a rotina de aproximadamente 100 cabeceios por dia, em tempos que a bola era consideravelmente mais pesada. Ele sofre com perda de memória e diz não conseguir reviver seus grandes momentos em virtude disso.

O gol contra o Everton na final de 1977 está salvo, ao menos por agora, enquanto Nicholl quiser visitar novamente o seu auge pelo Aston Villa.

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