A história de Taccola, vítima fatal das práticas de doping na Itália

A Roma vinha de um título da Copa da Itália sob o comando de Helenio Herrera, mestre que fez da Internazionale uma potência mundial nos anos 1960. Mas o gênio tático não durou tanto quanto o esperado na capital, por entrar em atrito com a diretoria e por ser responsável indireto pela morte de Giuliano Taccola, atacante giallorosso.

Helenio Herrera foi um treinador formidável. Responsável pela revolução que levou a Inter ao topo do mundo em 1964 e 65, o argentino era aclamado na Itália pela sua filosofia vencedora, baseada no catenaccio e na força do contra-ataque. Em 1968, Herrera deixou Milão para tentar um novo desafio na carreira, assumindo a Roma como um dos maiores técnicos do mundo naquele momento.

De cara, o clube se sagrou campeão na Copa da Itália, ao fim da temporada. Mesmo que a campanha na Serie A não tenha sido tão boa quanto se esperava, Herrera desfrutava da confiança dos diretores romanistas. O oitavo lugar foi bem abaixo da expectativa gerada em torno do time de Giacomo Losi, Joaquim Peiró, Sergio Santarini, Víctor Benitez e Fabio Capello. Na frente, o artilheiro da temporada, Giuliano Taccola, teve números modestos: marcou dez gols na Serie A, liderando a estatística no elenco.

Antes de conquistar a Copa da Itália, em formato de quadrangular final, a Roma teve uma baixa seríssima: Taccola, que estava sofrendo com vários problemas de saúde, morreu após um infarto dentro dos vestiários. E a circunstância é um tanto quanto misteriosa. O atacante já vinha caindo de rendimento por febre, amigdalite e lesões no tornozelo. Antes mesmo de completar 25 anos, Giuliano foi vítima de uma série de negligências.

Apesar da pouca idade, o goleador teve passagem por vários clubes. Começou em 1962, pelo Alessandria, e rodou por Varese, Entella, Savona e Genoa antes de chegar à Roma, em 1967. Na capital, vivia sua melhor fase. Mas nos primeiros meses de 1969, seu quadro clínico preocupava. Ele perdeu vários jogos em virtude de uma inflamação na amígdala, que exigiu procedimento cirúrgico.

Quando voltou da operação, bem antes do período de um mês previsto para a recuperação (ele havia perdido muito sangue e peso), Taccola se lesionou no tornozelo. Mas Herrera, exigente, não quis dar descanso ao jogador, que mesmo doente, era escalado com frequência. As rotinas deixaram o jovem exausto, sem a mínima condição de atuar. As opções para o setor não estavam correspondendo e Taccola, ainda que enfermo, era o principal nome ofensivo para tentar reconduzir a Roma ao caminho das glórias.

Neste interim, Herrera continuou com uma prática que já vinha desde os tempos de Inter: o doping. O ex-capitão romanista Giacomo Losi contava que toda vez que Taccola se sentia mal, os médicos lhe davam uma injeção, pensando que não havia nenhum problema grave. A tendência a ignorar os sinais do corpo descarrilhou em um quadro de bronquite e episódios em que Taccola tossia sangue, mas ainda assim não era dispensado para se recuperar. Em fevereiro de 1969, durante uma partida com o time reserva, Giuliano desmaiou em campo. Na semana seguinte, contra a Sampdoria, saiu com uma torção de tornozelo.

16 de março de 1969: o colapso

O gênio Herrera não conseguiu repetir a boa forma na Roma e saiu apenas com a taça da Copa da Itália. A morte de Taccola pesou na perda de moral com a diretoria

O duelo contra o Cagliari, na Sardenha, era vital para a Roma na temporada. No primeiro turno, os giallorossi haviam sido surrados por Gigi Riva e seus colegas, em pleno Olimpico, por 4 a 1. Ironicamente, Taccola foi o autor do gol de honra. No reencontro entre eles, o atacante atestou que estava com febre. Herrera, então, o aconselhou a tomar uma aspirina horas antes, mesmo que não fosse jogar. Médicos deram a ele uma injeção de penicilina, sem medir as consequências. Em campo, empate sem gols entre rossoblu e visitantes.

Taccola foi para os vestiários com os colegas, mas não estava bem. Relatos da comissão técnica do Cagliari dão conta de que ele tremia e suava frio nas tribunas. Um copo de suco de laranja foi a última coisa que ele ingeriu antes de sofrer um infarto fulminante. Estava conversando com outros jogadores quando caiu no chão. Novamente, os médicos da Roma leram mal a situação e aplicaram-no uma injeção com vitaminas. Já inconsciente, Taccola recebeu massagem cardíaca e respiração boca-a-boca, mas não resistiu.

Foram alguns minutos de tentativa de socorro. Fabio Capello, que havia jogado aquela partida, relembra que foi agoniante ver o companheiro morrer sem poder fazer nada. O médico do Cagliari, Augusto Frongia, relata que, assim que entrou na sala dos vestiários do visitante, notou que Taccola já estava morto. Horas depois, a maioria da delegação romanista deixou a Sardenha. Apenas três jogadores ficaram com Taccola: Cordova, Sirena e D’Amato. A notícia da morte, no entanto, não chegou a todo o elenco e nem mesmo o presidente Alvaro Marchini sabia da informação.

Anos mais tarde, Losi confirmou que Herrera constantemente oferecia pílulas com anabolizantes para os jogadores. A revelação, que se encaixou na denúncia de Ferruccio Mazzola (irmão de Sandro Mazzola), que dizia que alguns atletas se recusavam a tomar as pílulas, e então o treinador as colocava no café, sem que eles notassem.

O funeral do camisa 9 da Roma movimentou a capital em março de 1969

O estado de saúde de Taccola deteriorou rapidamente após a operação, justamente porque ele estava fragilizado e precisava descansar. Embora haja todo este contexto, nenhum laudo oficial revela que o doping foi um agente crucial na falha cardíaca que tirou a vida do atacante giallorosso. Mas esse era o modus operandi na época: negar até o fim, mesmo que diversos jogadores tivessem morrido nas décadas seguintes em decorrência de cânceres, tumores e outras anomalias causadas por anabolizantes e outras medicações ilegais.

Outro motivo grave e que foi ignorado –aí sim com negligência clara dos médicos da Roma– é que Taccola já havia sido diagnosticado com problemas cardíacos antes de sua contratação, junto ao Genoa. Sendo assim, ele jamais poderia ter sido sujeitado a grande carga de esforço, sobretudo em situação de fraqueza, como no pós-operatório de retirada das amígdalas.

O grande debate dentro da diretoria romanista era em torno do fato de que Herrera achava que podia resolver problemas físicos do seu plantel sem consultar o departamento médico. Foi nessa ausência de comunicação que a administração de substâncias dopantes ocorreu, como confirmou Losi, posteriormente. O ex-capitão, aliás, foi afastado por Herrera no início da temporada e perdeu a faixa para o espanhol Joaquín Peiró. Giacomo deixou o clube em 1969, meses depois, e se aposentou em 1970.

Taccola tomou vários suplementos durante sua fase mais crítica. Injeções de vitaminas, anti-inflamatórios e outras medicações eram rotina durante a semana, mas o tratamento era cortado dias antes dos jogos, para que tudo saísse de seu organismo. Como não fazer uma relação entre o excesso de várias substâncias e a fragilidade de Giuliano? Como ignorar o fato de que ele recebeu uma dose de penicilina em suas últimas horas de vida e que isso culminou em alergia e insuficiência cardíaca?

A causa da morte, de acordo com as autoridades italianas, é de pneumonia brônquica, mas ainda não há explicação satisfatória para o mal súbito de Taccola em Cagliari. Herrera e os médicos da Roma negam qualquer relação entre os problemas de saúde do jogador e as injeções administradas após a sua operação. Dois anos depois, em 1971, o inquérito sobre a morte de Taccola foi encerrado e ninguém foi considerado culpado. A tese da investigação é de que houve morte acidental.

Herrera não venceu outro troféu pela Roma e deixou o clube em 1973, retornando à Inter, em litígio com o alto comando romanista. Taccola, que não teve a oportunidade de seguir com a sua carreira, foi esquecido pelo grande público e sua família ficou desamparada.

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