A arrancada da Sampdoria da Recopa para a decisão da Copa dos Campeões

Duas vezes finalista da Recopa Uefa em 1989 e 90, a Sampdoria voou alto para tentar se consolidar no cenário europeu. As boas campanhas e três participações em finais continentais de 1989 a 92 esbarraram no Barcelona quando se aproximava do seu ápice.

Na segunda metade da década de 1980, a Sampdoria se apresentou como forte candidata a títulos dentro da Itália. Um time forte, bem treinado, organizado e com o talento da dupla de ataque formada por Gianluca Vialli e Roberto Mancini. Aquele, sem dúvida, era o maior período da história da Samp, que sempre se contentou com um papel de coadjuvante ou candidata a mera sobrevivente na Serie A.

Com um bom investimento do empresário Paolo Mantovani, a agremiação de Gênova deu um salto de qualidade e passou a contar com grandes jogadores no seu elenco. O primeiro título, e 1985, foi na Copa da Itália, contra o Milan. Depois disso, os blucerchiati não pararam de crescer. O bicampeonato da Copa da Itália, em 1988, rendeu uma participação na edição seguinte da Recopa Uefa, terceiro torneio de maior relevância na Europa, disputado por vencedores de copas domésticas.

1988-89: A primeira grande campanha

Como o caminho era repleto de equipes secundárias e não tão relevantes, a Samp não teve muita dificuldade para chegar até a decisão. Com Pagliuca no gol e craques como Toninho Cerezo, Pietro Vierchowod, Moreno Mannini, Víctor Muñoz e Giuseppe Dossena, os italianos fizeram valer a superioridade técnica e a competitividade, marcas dos principais clubes da forte Serie A naquele período. Passando por Norrkopping, Carl Zeiss Jena, Dinamo Bucareste e Mechelen, a Samp ganhou a vaga para enfrentar o Barcelona em Berna, valendo a taça.

Ainda que não fosse vencedor da Copa dos Campeões, o Barça tinha certa experiência na Recopa, por ter vencido as edições de 1979 e 82. Sete anos depois da última participação, os catalães chegaram com a moral de Johan Cruyff no banco de reservas. Em 1987, o treinador havia sido campeão do torneio com o Ajax. E repetiu o feito, barrando a saga gloriosa de Vujadin Boskov e seus comandados.

O esquema dos blaugrana consistia em trocar passes e facilitar a ação ofensiva do trio Salinas-Lineker-Beguiristain. Com quatro minutos, Salinas abriu o placar e facilitou a vitória do Barça. Rekarte ampliou e selou a conquista aos 35 minutos da segunda etapa, sem chances para a Samp. Faltou um pouco de maturidade e experiência para o esquadrão italiano, que não se abalou com a derrota por 2 a 0 e voltou no ano seguinte para se vingar.

1989-90: O fim da seca internacional

Renovando a conquista da Copa da Itália, a Sampdoria já sabia que vivia um momento especial. A goleada na final contra o Napoli de Diego Maradona, por 4 a 0, credenciou os genoveses a mais uma participação na Recopa, desta vez com um pouco mais de confiança do que em 1989. O caminho até a final foi ainda mais complicado: Brann, Borussia Dortmund, Grasshopper e Monaco cruzaram os caminhos da Samp.

Reforçada por Srecko Katanec e Attilio Lombardo, os blucerchiati enfrentaram o Anderlecht na decisão, disputada em Gotemburgo, na Suécia. Com força total, os comandados de Boskov tiveram alguma dificuldade para superar a defesa belga no tempo normal. Quando chegou a prorrogação, Vialli apareceu para decidir, com dois gols. Em 9 de maio de 1990, a Samp subia de patamar e se tornava uma campeã internacional. Mas o sonho não acabava ali. Era hora de expandir o domínio.

1992: A pancada que atordoa

Em 1991, a Sampdoria conseguiu algo ainda maior: o inédito scudetto na Serie A. Peitando a Internazionale de Matthäus, Brehme e Klinsmann e o Milan de Rijkaard, Van Basten e Gullit, a tropa genovesa firmava sua bandeira no topo da montanha da Itália. A façanha, com apenas três derrotas, credenciou a Samp a disputar pela primeira vez a Copa dos Campeões da Europa, que mudaria de formato no ano seguinte para incorporar outros clubes que não os campeões locais. Agora eles estavam prontos para o desafio maior.

Classificada para entrar na primeira fase da competição europeia, o elenco blucerchiato eliminou o Rosenborg (5 a 0 em casa e 2 a 1 fora) e o Honvéd antes de ingressar na fase de grupos. Pela chave A, os italianos ficaram lado a lado com o Estrela Vermelha, o velho freguês Anderlecht e o Panathinaikos. Aos trancos e barrancos, com oito pontos, a Samp avançou em primeiro e se garantiu na decisão. No jogo contra o Estrela Vermelha, aliás, foi quando a diretoria conheceu o talento de Sinisa Mihajlovic, contratado meses depois para reforçar o clube na lateral-direita.

O problema é que o adversário no estágio final foi justamente o algoz de 1989, naquela Recopa em Berna: o Barcelona de Johan Cruyff. E para piorar a missão Doriana, os catalães estavam com força máxima no seu trio estrangeiro: Ronald Koeman, Hristo Stoichkov e Michael Laudrup.

A partida no estádio de Wembley foi dramática e mais equilibrada do que se supunha, com ambos tentando criar boas chances. O destaque antes do tempo extra havia sido uma finalização de Stoichkov, na trave defendida por Gianluca Pagliuca.

Sabendo sofrer, o Barça puniu o rival no segundo tempo da prorrogação, com gol de Koeman, um chute violento em cobrança de falta que selou o destino em Londres. O único gol que redimiu os barcelonistas da final de 1986, diante do Steaua Bucareste, troféu da Copa dos Campeões que escapou nos pênaltis, sem qualquer chute certo dos espanhóis. Mais uma vez, a Sampdoria falhava na Europa quando encontrava o Barcelona.

Foi também o aceno de despedida daquela geração, que se desmontou aos poucos e perdeu força no restante da década de 1990, conquistando o seu último título na Copa da Itália em 1994, goleando o modesto Ancona na decisão.

Para quem estava na segunda divisão até a década de 1980, voar tão alto para conquistar a Europa e ser vice de um torneio tão prestigiado quanto a Champions, a Sampdoria bem que aproveitou o seu momento em evidência. Outros clubes italianos até que tentaram chegar tão perto do sol, mas caíram antes.

Vialli, Mancini, Cerezo, Lombardo, Mannini, Pagliuca, Vierchowod e Katanec, por outro lado, desfrutam da mais profunda admiração em Gênova, após tanta alegria proporcionada. Entre uma campanha e outra, a Sampdoria pode até ter novos ídolos. Mas heróis, de fato, são só aqueles que marcaram a ascensão dos anos 1980 até a década bem sucedida de 1990.

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