O sacrifício de Korkmaz para ver o Galatasaray campeão

Na primeira final europeia do Galatasaray, o capitão Bülent Korkmaz deslocou o ombro. Guerreiro, o defensor permaneceu em campo até o fim para celebrar a grande conquista dos Leões contra o Arsenal.

Bülent Korkmaz era um tesouro do Galatasaray desde a sua promoção ao time principal, em 1988. Quando chegou aos 30 anos, o zagueiro estava muito mais próximo da eternidade como ídolo do que de um título continental, barreira nunca antes ultrapassada por uma equipe turca.

Ao longo da década de 1990, ele alcançou status de lenda pelo que fazia em campo. Não só pelos carrinhos, pelos títulos nacionais e a liderança dentro dos vestiários. Korkmaz vibrava como nenhum outro. Lutava pela bola como se sua vida dependesse disso, e não era raro vê-lo enfaixado, sangrando ou contundido por esta razão. A dor nunca foi um empecilho para este cidadão nascido em Malatya, no fim dos anos 1960.

Desde garoto, Bülent sonhava em vestir amarelo e vermelho, e ninguém iria dissuadi-lo deste objetivo. Quando estreou, em 1988, mostrou rapidamente seu valor. Entretanto, foi apenas em 1990 que se firmou como titular e figura insubstituível dentro do Galatasaray. A lealdade aos leões fez do zagueiro um dos favoritos da torcida, que se empolgava a cada dividida dura em que o camisa 3 entrava.

Aos 31 anos, ele viveu intensamente a virada para o novo século. Tinha histórias de sobra para contar, com seis taças da Liga Turca e mais quatro da Copa da Turquia. Mas o Gala sonhava com um pouco mais, e seu capitão também. Quando aquela ótima safra de jogadores se juntou e ganhou Taffarel, Gheorghe Hagi e Gheorghe Popescu como reforços, os planetas se alinharam.

O Gala foi eliminado na primeira fase da Liga dos Campeões, mas ganhou uma passagem para a Copa Uefa. Rodada a rodada, os Leões cresciam ao eliminar os adversários. O último desafio foi contra outro clube que não teve tanta sorte assim na Champions: o Arsenal de Thierry Henry e Dennis Bergkamp.

Gamarra ou Beckenbauer? Apenas Korkmaz

A Copa Uefa de 1999-00 teve a sua decisão na capital dinamarquesa, Copenhague. Quando a bola rolou, o Galatasaray parecia mais pronto e ofensivo para fazer gols. O Arsenal também levou perigo, esbarrando em Taffarel e nas intervenções precisas de Korkmaz. O capitão estava inspirado e em um dia especial, pois era o momento de atravessar a fronteira que separava os Leões de todos os grandes campeões europeus.

A expulsão de Hagi esfriou os ânimos dos turcos. Uma briga com Adams no meio-campo culminou em cartão vermelho para o comandante. Gica, que era a grande esperança nas bolas paradas ou em passes açucarados para o ataque formado por Sukur e Arif Erdem, viu do banco de reservas praticamente toda a prorrogação, já que foi expulso aos quatro minutos do primeiro tempo.

Também durante o primeiro tempo, Korkmaz deslocou o ombro. Atendido pelos médicos do Gala, ele insistiu para continuar jogando, assim como Beckenbauer e Gamarra haviam feito de maneira heroica nas Copas de 1970 e 98. A briga maior foi com o árbitro, António Lopez Nieto, que não queria permitir a sequência do capitão. Os médicos então enfaixaram e amarraram o braço direito de Bülent ao tronco, de forma que ele fizesse o mínimo movimento possível e piorasse a lesão.

Qualquer outro jogador teria desistido e pedido substituição. Mas Bülent não era um atleta comum, e ele não sairia dos gramados sem ver o Galatasaray campeão europeu naquela noite. Claramente limitado em seus movimentos e com um cartão amarelo, ele ignorou a dor e voltou para os 15 minutos finais de combate. O tempo passou lentamente e o Arsenal voltou à carga, perdendo um gol claro com Henry, que cabeceou forte e acabou esbarrando em defesaça de Taffarel.

O ombro enfaixado não impediu Korkmaz de se lançar na bola para evitar o cruzamento de Dixon. Ele simplesmente não queria largar o osso e desfalcar seu time. O ato de bravura ainda teve outro carrinho dentro da área, em nova jogada de Henry. Taffarel salvou o que seria o gol de ouro do título para o Arsenal.

Não foi qualquer zero a zero. Foi um dos melhores que o futebol moderno proporcionou, tanto pela qualidade dos times, quanto pelas chances criadas. Quando vieram os pênaltis, Korkmaz se recolheu no meio-campo e ficou com os colegas para acompanhar a disputa. Nenhum turco errou. Suker e Vieira, do lado dos Gunners, não tiveram a mesma sorte, acertando a trave. Popescu bateu o último pênalti e deu a taça ao Gala, fazendo história na Dinamarca.

Desfalque importante na seleção

A dor de Korkmaz também ficou em segundo plano quando ele se juntou a Sukur para erguer o troféu da Copa Uefa, dividindo o prazer do gesto com o seu atacante. A valentia durante o jogo, no entanto, causou alguns meses de baixa para o capitão. Menos de um mês depois, a Turquia estava escalada para a Eurocopa de 2000, sediada na Bélgica e na Holanda.

Como não reunia condições físicas, Bülent acabou ficando de fora da lista final de Mustafa Denizli. Os turcos avançaram até as quartas, sendo eliminados por Portugal. Mas o camisa 3 não demorou a se recuperar e logo voltou à atividade, por Galatasaray e Turquia. Na Copa de 2002, só ficou de fora do jogo contra a Costa Rica, mas foi um paredão contra o Brasil, na fase de grupos e na semifinal.

Korkmaz ainda jogou por mais três temporadas após o Mundial. Se aposentou em 2005, aos 36 anos, condecorado com a mais alta patente no Galatasaray, único clube que defendeu em quase duas décadas de carreira. O zagueiro esperou muito até chegar ao seu auge. E somente depois dos 30 anos conseguiu experimentar um pouco de reconhecimento fora da Turquia. Um prêmio justo a quem sempre venceu a dor enquanto exercia sua função.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *