O Porto místico que dominou o mundo pela primeira vez

Façanha internacional e inédita do Porto em 1987 foi o cartão de visitas dos Dragões fora de Portugal. A grande temporada coroada com o título da Copa dos Campeões e do Intercontinental ainda é cercada de misticismo.

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Trinta anos atrás, quando o Benfica ainda não sabia o que era ser tetracampeão português e sequer era acusado por diretores do Porto de pagar a um bruxo de Guiné-Bissau para “garantir” suas conquistas, o futebol português ainda era, digamos, bem mais Encarnado, fora do país. Os dois títulos do Benfica em 1961 e 62 na Europa colocaram a equipe lisboeta muito à frente do rival portista, no que se diz prestígio internacional.

O primeiro título do Porto demorou, mas veio em 1987, rompendo barreiras e consagrando uma equipe que sempre foi uma potência em seu território, mas jamais havia revertido sua qualidade em títulos no exterior. Realizada em Viena, a final europeia daquele ano colocou diante do Porto uma entressafra do Bayern de Munique, que, liderado por Lothar Matthäus, ofereceu um grande duelo aos lusitanos nos 90 minutos.

O que todo mundo sabe, ou ao menos deve ter lido alguma vez, é que o Bayern começou na frente, com gol de Kögl, e levou a virada com Madjer e Juary, no segundo tempo. O Porto acabava com a sina de ver apenas o Benfica como campeão continental em Portugal. Meses depois, foi adiante na sua saga e venceu o Mundial contra o Peñarol de Diego Aguirre, em Tóquio, também pelo placar de 2 a 1. Não poderiam pedir mais que isso.

No entanto, há aí um personagem desconhecido e com papel crucial: Delane Vieira, uma espécie de parapsicólogo brasileiro que havia se mudado para Lisboa nos anos 1960 para trabalhar no Benfica. A porta de entrada para Delane no futebol português foi o empresariado. Agente de jogadores em um tempo em que a negociação com clubes ainda era bem rudimentar, o paulistano se fez famoso duas décadas depois, quando passou a ocupar um cargo nos Dragões.

Delane, uma entidade à parte

Na função de parapsicólogo, Delane é apontado como um dos responsáveis pela conquista europeia do Porto em 1987, se é que a mística exerce um poder maior do que os jogadores em campo. Ainda assim, existe muito espaço para este tipo de crença no futebol português, desde os primórdios. Delane, entre suas maluquices, soltou dois sapos no estádio onde foi realizada a final entre Porto e Bayern.

A história ganha contornos sobrenaturais de verdade quando o parapsicólogo teria interferido nas condições climáticas para a partida em Tóquio, entre Porto e Peñarol. Delane, que nunca gostou de ser rotulado como bruxo, dizia apenas que era “um mentalista com o dom de prever coisas“.

Às vésperas do Intercontinental em solo nipônico, a Fifa cogitou adiar o confronto, mas os dirigentes portistas, por indicação do bruxo, insistiram para que houvesse jogo. Com o gramado coberto de neve, a bola rolou mal e o duelo foi mais ou menos algo como futebol, apenas lembrava o esporte que tanto amamos.

Bruxaria ou não, acredite no que quiser: o Porto bateu o Peñarol nessas condições. Delane, o “reforço extra-campo dos Dragões”, explicou em seu livro algumas das técnicas empregadas para fazer do seu clube uma potência mundial: o uso de fitinhas nas pernas dos jogadores e o arremesso de moedas no campo, antes das partidas. Outro ritual constante era quebrar garrafas de cachaça em praias, como oferenda, às sextas-feiras. Obviamente, Delane era pago por todos os seus serviços, que de alguma forma se somaram ao mérito da equipe portista naqueles tempos. Não era só superstição. Eram trabalhos místicos feitos em troca da glória.

Se todos eles funcionaram, não sabemos ao certo, mas é uma coincidência engraçada que o Porto tenha vencido tudo quando contava com Delane como parte de sua comissão, e que Tóquio tenha ficado coberta de neve em dezembro de 1987, algo que geralmente só ocorre nos primeiros meses do ano. A agremiação pagava salários, benefícios e acomodações para o parapsicólogo, além de prêmios especiais por conquistas.

A zica de Zandinga

Delane não foi o primeiro e nem o último personagem a trazer a bruxaria para dentro do contexto do futebol português. Outro célebre feiticeiro foi Lesagi Zandinga, ícone de previsões de início de ano na TV lusitana. Em certa feita, durante um duelo entre Porto e Penafiel (seu empregador), Zandinga cavou dois buracos e fez uma macumba atrás do gol dos Dragões, defendido por João Fonseca. Foram naquelas traves que saíram os dois tentos do Penafiel, que saiu perdendo e foi buscar o empate em 2 a 2 na segunda etapa.

Todo ano, Zandinga apontava que o Sporting seria campeão português, mas como a profecia não se concretizava, ele virou motivo de piada, já que a dupla Benfica-Porto dominou a competição local por quase 20 anos. Nos anos 1990, já sem a mesma relevância, Lesagi adotou outra postura e afirmou que os Leões não seriam campeões nacionais enquanto não o convidassem para conhecer o estádio João Alvalade. Curiosamente, a equipe alviverde só rompeu o seu jejum de 18 anos na Liga após a morte de Zandinga, em 2000.

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