Mendieta, o rosto de uma geração frustrada na Espanha

Cheia de moral, a Espanha chegou às quartas de final da Copa do Mundo de 2002 e nutria grandes sonhos para o fim do torneio, sediado na Coreia do Sul e no Japão. Mendieta era um dos mais regulares da Fúria e seu talento era reconhecível em apenas alguns toques. No entanto, o destino foi um pouco cruel com a carreira do meia basco.

É um daqueles rostos que você acaba lembrando sem necessariamente saber o nome. A combinação dos cabelos louros com a fisionomia séria fizeram de Gaizka Mendieta um dos grandes hits do álbum da Copa do Mundo de 2002. Alguns meninos que trocavam figurinhas na praça sabiam que ele era aquele cara, capitão do Valencia que havia perdido duas finais consecutivas da Liga dos Campeões. Mas é difícil reduzir a carreira do espanhol a apenas estes insucessos europeus.

Gaizka Mendieta saiu de Bilbao para ganhar a Espanha jogando futebol. Era o início dos anos 1990 e o Barcelona era o time da moda. O Real Madrid não era a potência dos anos 1970 e 80, e times alternativos aos gigantes conseguiam desfrutar de relativo prestígio. O Valencia, que se reconstruía naquela década, investiu bem em jogadores desconhecidos para tentar se consolidar como a terceira força antes da virada do milênio.

Mendieta era um deles. Chegou ao Mestalla em 1992, vindo do Castellón, e demorou pelo menos dois anos para se estabelecer como titular. Ao lado de Luboslav Penev e Predrag Mijatovic, o jovem meia ganhou alguma experiência e teve bons exemplos para se espelhar. O Valencia vivia uma seca de títulos desde 1980, quando levantou a Recopa Uefa, contra o Arsenal. A espera incomodava, mas ao menos a torcida tinha ídolos para suportar as frustrações.

Os bons anos de Mendieta vieram depois de 1995, quando o clube passou perto de vencer a Copa do Rei. Apesar da campanha frágil na Liga Espanhola, com o 10º lugar, os Che foram até a decisão do torneio nacional, caindo diante do Deportivo La Coruña de Bebeto, em final eletrizante. O segundo jogo, com placar de 2 a 1 para os galegos, teve a expulsão de Mendieta no último minuto. Mas isso não abalou o espírito do jogador, que sabia que estava no caminho certo. Para a sorte de Gaizka, o dilúvio no Santiago Bernabéu chamou mais atenção do que o cartão vermelho.

A agonia do general

O desempenho do time melhorou. O Valencia foi vice na temporada seguinte. E com Mendieta na armação, as coisas pareciam ficar mais fáceis. Conforme a década de 1990 se aproximava do fim, o trabalho de Claudio Ranieri privilegiou o estilo de jogo de Gaizka, um meia que além de ser líder, fazia o papel de garçom. Nas faltas, Mendieta era igualmente letal, o que ficou provado com o aumento dos seus gols a partir de 1997, somando mais de dez por temporada até a sua saída para a Lazio, em 2001.

O primeiro título demorou, mas veio em 1999, no sétimo ano de Mendieta como atleta do Valencia. Na mesma Copa do Rei que escapou quatro anos antes, debaixo de chuva em Madri, a redenção veio com uma bela vitória por 3 a 0 contra o Atlético de Madrid, com gols de Claudio López e Mendieta, autor do segundo tento da noite em Sevilha. Parecia o início de uma era gloriosa, e Gaizka correspondia muito bem às expectativas como líder do elenco e motorzinho no meio-campo.

Em 2000 e 2001, os Che estavam em evidência. Representaram a Espanha em duas finais consecutivas da Liga dos Campeões, um feito inédito para o clube, que buscava cravar sua bandeira no topo de um vale dominado pelo Real Madrid. A campanha inicial foi corajosa, superando adversários de grande porte. Na fase eliminatória, Lazio e Barcelona foram derrotados pelos comandados de Héctor Cúper, que tinha como esperanças os atacantes Angulo e Claudio López, o volante Farinós, o meia Kily González e o goleiraço Cañizares.

A final, o ponto alto da carreira do capitão Mendieta, no Stade de France, teve um gosto amargo com o placar de 3 a 0 para o Real Madrid. O Valencia continuou forte e voltou no ano seguinte para buscar o título inédito. Novamente sofrendo para chegar até a fase decisiva, os valencianos repetiram o feito de disputar a finalíssima, rivalizando com o Bayern pelo troféu.

O estádio San Siro recebeu mais de 70 mil pessoas para um encontro memorável. Mendieta fez a sua parte e converteu um pênalti logo aos três minutos, um sinal mais do que otimista de que as coisas teriam um desfecho diferente desta vez. O Valencia batalhou demais e teve em Cañizares outro herói, defendendo um pênalti batido por Schöll. Effenberg empatou (também em uma penalidade), provocando o tempo extra e uma disputa tensa de pênaltis, vencida pelos alemães após defesa de Kahn em chute de Pellegrini. O sonho valenciano caía outra vez por terra.

Era hora de se despedir. Ídolo máximo da sua geração no Mestalla, Mendieta ainda entrou em campo contra o Racing Santander, pela Liga Espanhola, marcando um gol nos seus últimos 90 minutos. Saudado pela torcida, seguiu caminho para a Lazio, pela fortuna de 48 milhões de euros.

Ladeira abaixo

Mas ele jamais agradou os laziali como esperava. O alto custo da transferência só trouxe pressão e ele não se adaptou ao estilo italiano de jogar. Perdido entre formações e sem oportunidades para executar o que sabia melhor como nos tempos de Valencia, virou rapidamente um flop para a crítica especializada. Um retorno à Espanha despontou como uma salvação, naquele momento para defender o Barcelona.

Neste intervalo, veio a Copa do Mundo, a chance de Mendieta provar seu valor e quem sabe algum espaço pela Lazio. A Espanha largou bem e venceu suas três primeiras partidas. Gaizka só entrou a partir da terceira, para não sair mais dos 11 titulares treinados por Jose Antonio Camacho. Mesmo engrenando, a Fúria suou sangue para eliminar a Irlanda, nas oitavas de final. O papel de Mendieta estava sendo importante: autor de um dos gols contra a África do Sul, de falta, o meia se encaixou perfeitamente na proposta de Camacho. E o time ganhou casca ao superar os irlandeses nas penalidades.

O roubo

O que ninguém poderia esperar, no entanto, era que a Espanha caísse contra a Coreia do Sul, que precisou de mais ajuda da arbitragem, assim como no duelo com a Itália, nas oitavas. O empate em 0 a 0 no tempo normal levou os espanhóis outra vez ao drama dos pênaltis. E a sorte não estava ao lado deles. Não precisariam disso se não fosse uma arbitragem ridícula de Gamal Ghandour, que anulou um gol legal de Baraja no tempo normal. Outro lance medonho aconteceu na prorrogação, quando Joaquín fintou o marcador e cruzou para Morientes fazer de cabeça. O bandeira enxergou, sabe-se lá como, que a bola havia saído pela linha de fundo, anulando o que seria o gol de ouro dos espanhóis. A revolta foi justificada após a eliminação nos pênaltis. A Espanha estava fora e tinha motivos de sobra para reclamar, tal qual os italianos.

A Espanha saiu de cena e Mendieta voltou para a sua vida normal. Titular no Barça, participou de uma temporada decepcionante do clube catalão, que acabou em sexto lugar na Liga. Mesmo bem mais experiente, Gaizka não notou que seus bons tempos haviam passado. E que ele jamais seria tão importante quanto era no Valencia. O empréstimo no Barça não foi renovado e ele tomou outro rumo, estreando na Premier League pelo Middlesbrough.

Em um clube pequeno, talvez pudesse recuperar o prestígio. E não era como se ele tivesse desaprendido. O espanhol foi bem apenas no primeiro ano em Riverside, erguendo a taça da Copa da Liga em 2004, conquista inédita na história do Boro. Logo depois, começou a conviver com lesões que atrapalharam completamente seu rendimento. Em seu terceiro ano, teve a chance de estar em uma nova campanha histórica na Europa. A disputa da Copa Uefa colocou o Middlesbrough no papel de destaque como finalista, contra o Sevilla.

Aos 32 anos, o meia acabou ficando de fora da decisão em Eindhoven, por contusão. E viu das tribunas a derrota assombrosa por 4 a 0, um grande balde de água fria na expectativa dos ingleses. A hora de parar estava próxima: ele brigou com o técnico Gareth Southgate e foi liberado, meses depois de treinar afastado dos titulares, sem perspectiva alguma de ganhar minutos na equipe principal. Aposentou-se em 2008, após quase um ano de inatividade, praticamente esquecido pela torcida.

O grande craque do Valencia duas vezes vice-campeão europeu teve seu brilho apagado rapidamente. Mendieta não teve a sorte de ser coroado campeão durante seu auge técnico e físico. Seu canto do cisne foi mesmo naqueles três jogos no Mundial de 2002. Quinze anos depois, a injustiça permanece. Aos duros fatos: aquela antiga Espanha que brigava muito e morria na praia também já foi superada por uma geração fantástica que dominou o futebol mundial entre 2008 e 2012.

Mendieta, de maneira cruel, nos lembra que o esporte talvez seja muito mais grato com quem vence, mostrando outra face aos que foram talentosos, mas que por circunstância do destino não conseguiram reverter o potencial em glórias.

Um pensamento em “Mendieta, o rosto de uma geração frustrada na Espanha”

  1. Parabéns por manter vivo a memória da minha adolescência! Tenho 31 e os meus craques dá infância hoje estão em sua maioria aposentados. É..o tempo passa amigo. Me lembro muito bem do Mendieta. Belo jogador!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *